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Monjas sírias recuperam ossos de santo num mosteiro destruído pelo Daesh
06.07.2016
Em agosto do ano passado, o autoproclamado estado islâmico conquistou as cidades de Palmyra e Homs, na Síria, dando início à destruição e pilhagem dos monumentos cristãos nas cidades. Na cidade de Homs, um dos mosteiros mais conhecidos era o de S. Elian de Homs, um santo do século III, mártir de fé que se recusou a renunciar à sua fé e foi morto por romanos.
As imagens mostravam a destruição dos edifícios, e chegaram relatos da profanação do túmulo do santo, que todos achavam estar perdido.

As relíquias no momento da sua descoberta

No passado mês de abril, com a reconquista por parte do exército sírio da cidade de Homs, um jornalista da AFP entrou em contacto com a madre superiora do mosteiro de S. Tiago Mutilado, em Damasco, para lhe dizer que os restos do mártir tinham sido descobertos. Ela, então, agiu rapidamente para salvar os restos e para devolvê-los à comunidade sírio-católica, e agora conta como tudo aconteceu.

«Al Qaryatain foi libertada no terceiro dia de abril. No quinto um jornalista da AFP chamou-me. Disse-me que tinha encontrado os restos de Santo Elain no mosteiro dedicado a seu nome em Al Qaryatain. Ele garantiu-me que tinha contactado o Pe. Jacques Mourad, superior do mosteiro que estava em Roma, e que ele confirmou que os ossos eram do Santo Elian», confirmou a madre superiora num relato publicado online.

Quando uma área é libertado na Síria, antes de tudo, o exército sírio vem e remove as minas. Depois, infelizmente, as pessoas vêm para pilhar a área. «Percebi que tinha que agir rapidamente. Pedi a um membro da nossa comunidade para ir para Al Qaryatain o mais rapidamente possível para recolher os restos do santo», conta a Madre Agnes-Mariam.
Um elemento da comunidade do mosteiro de Damasco dirigiu-se então a Homs para tentar identificar os restos mortais do santo. «Antes de sair olhei para algumas fotos online dos restos de Santo Elian. Quando lá cheguei, tive dificuldade para me orientar, porque nunca tinha visitado o sítio antes. Entrei pela primeira vez na igreja, mas não encontrei nada. Então fui para outra sala, onde encontrei cerca de 30 bombas de gás artesanais. As pessoas que me estavam a ajudar avisaram-me para não entrar e ter muito cuidado», lembra.

A frustração de não poder detetar as relíquias do santo terminaram duas salas depois. «Continuei à procura e encontrei um outro lugar, que estava cheio de ossos descobertos, mas não do nosso santo. Depois de um tempo, alguém gritou e disse que tinha encontrado os ossos. Tinham sido espalhados em torno de uma enorme pedra com inscrições sobre ele - exatamente como na imagem da internet. Eu não imaginava que os restos iriam estar sobre uma pilha de escombros, pois pensei que estariam numa sala ou local específico», pode ler-se no relato.

Aparentemente, os terroristas empilharam diferentes túmulos uns por cima dos outros. Todas as pessoas mantinham distância, por respeito para com o santo. «Então, comecei a colocar os ossos, um por um, na caixa que as irmãs do nosso mosteiro me deram. Peguei em tudo o que pude encontrar ao redor do túmulo. Notei também uma diferença na terra em que eu estava a cavar, mais escura e suave. Presumo que teria sido ali que a carne se teria decomposto. Recolhemos rapidamente os restos mortais e dirigimo-nos para a aldeia vizinha de Sadad», conta este colaborador do mosteiro, escolhido para a importante tarefa de recolher os restos mortais do santo.
Fiéis transportam as relíquias recuperadas do mosteiro em ruínas
Chegados ao mosteiro de S. Tiago Mutilado, em Damasco, seguiu-se a tarefa de confirmar que eram de facto os restos mortais de Santo Elian. A biografia do santo ajudou a perceber a forma como tinha morrido. Perseguido por pregar o nome de Cristo, o seu pai, responsável do governo romano da altura, torturou o seu filho, pregando-lhe pregos na cabeça e em várias partes do corpo. St Elian sobreviveu à tortura e conseguiu arrastar-se até uma gruta, onde entregou a vida ao Senhor, segundo reza a biografia.

«Mais tarde naquela noite, por volta da meia-noite, todos nos reunimos para rezar em torno dos restos do santo. Olhei para a caveira, mas não conseguia perceber se tinha ou não buracos. Na manhã seguinte, antes de devolver as relíquias aos representantes da Igreja Católica Síria, quis ver os ossos de novo e olhar para a caveira... E fiquei realmente comovido quando vi um buraco perfeito na cabeça do santo», conta este membro da comunidade do mosteiro sírio.
O buraco no crânio onde o pai de Elian terá cravado o prego foi uma das provas que comprovou a autenticidade das relíquias

As relíquias estão agora a salvo, num momento de grande regozijo para a igreja síria, segundo os relatos que chegaram do terreno à Família Cristã. Ao sítio web Catholic News Service, o Pe. Jacques Mourad, sacerdote que foi raptado pelo Daesh e libertado em outubro do ano passado, mostrou-se muito contente com a recuperação dos ossos de Santo Elian. «O facto das relíquias não estarem perdidas é para mm um grande sinal: o santo não queria deixar o mosteiro ou a Terra Santa», acrescentando que «a vida a e graça renascerão à volta da memória dos santos. Será uma grande graça para toda a Igreja».
 

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Monjas de S. Tiago Mutilado, Damasco
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