Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Não transforme o seu filho em “cavalinho de corrida”
25.09.2017
O meu marido apontou a objetiva para a piscina, ajustou o zoom e tentou enquadrar na tela a nossa filha que competia numa piscina com um grupo de outras meninas. Queríamos muito registar aquele momento, guardá-lo para memória futura. Mas, subitamente, a jornalista em mim protestou: «Por favor, fotografa é aqueles pais completamente desvairados que ali estão, a gritar com os filhos e a insultar os treinadores.» Esses sim, mereciam uma reportagem sobre como não se comportar perante miúdos que praticam desporto, verdadeiros bullies de pobres crianças que, a seguir já nos balneários, continuavam a ter que levar com os protestos dos pais por não terem alcançado os resultados exigidos. Lembro-me de assistir, indignada, a uma mãe (não são só os pais!) que sacudia o filho de seis anos, enquanto o pobre se justificava entre soluços: «Mas, mãe, não tive culpa, caíram-me os óculos.» Como me recordo, também, de ver treinadores acusados nos corredores, ameaçados de “perder” a criança para outro clube, onde os progenitores estavam certos de que o seu menino-prodígio (real ou imaginário, para o caso tanto faz) seria justamente elevado ao nível que merecia!

Aliás, a reportagem para ser completa devia acompanhar estas famílias todos os sete dias da semana, porque se eventualmente a pressão atingia o clímax nas provas, quase que aposto que contaminava negativamente todos os momentos da vida daquela criança ou adolescente.

Não é preciso ser psicólogo encartado para entender que os pais que transformam militantemente os filhos em “cavalinhos de corrida”, seja em que área for, limitam-se a procurar de forma narcísica a taça que eles próprios nunca chegaram a conquistar, a oportunidade de subir ao pódio, sob a luz dos holofotes. E não largam facilmente o infeliz “osso”.

É claro que todos os pais são um bocadinho vaidosos, e todos nós temos orgulho em que o nosso filho seja bom aluno, uma extraordinária bailarina ou um jogador de futebol, e é claro que vamos partilhar com os nossos amigos os seus êxitos e não vem mal nenhum ao mundo por isso, antes pelo contrário. O orgulho que sentimos neles é, também, uma forma de os incentivar a dedicarem-se mais e a irem mais longe, a aperfeiçoarem méritos extraordinários, a adquirirem uma disciplina e capacidade de trabalho que só nos pode deixar de boca aberta e legitimamente vaidosos. Ou seja, o que está em causa não é a competição, nem sequer a alta competição, mas os pais, a partir do momento em que dão maus exemplos, esquecidos de que faz parte do pacote tanto ganhar como perder, que o desporto é suposto dar prazer; esquecidos de que os treinadores e professores são, na sua imensa maioria, gente profissional e dedicada, capaz de “puxar” pelos miúdos, mas também de os proteger e consolar – e se não são assim, então não deviam entregar-lhes as nossas crianças.

O fenómeno dos pais transformados em agentes e treinadores dos seus filhos, num mundo desportivo cada vez mais competitivo, foi, aliás, tema de capa da revista Time de quatro de setembro, com o título: «Como é que o desporto infantil se tornou profissional – viagens loucas, custos loucos, stresse louco». Ler o texto deixa bem claro que as cenas que assisti há uns anos só podem tender a agravar-se. Invariavelmente, dizem-se dispostos porque «o meu filho é especial». 

Sinceramente, neste regresso às aulas, pense que é exatamente por o seu filho ser certamente o melhor do mundo que merece uma infância e uma adolescência felizes. É claro que pode beneficiar de todas as vantagens do desporto, e até da alta competição, desde que tenha em casa pais que o amam por aquilo que ele é, e não pelas medalhas que traz ao peito.