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O inquietante «Silêncio» de Martin Scorsese
19.01.2017
Quando imaginamos Hollywood e perspetivamos um filme que pode ser “o filme da carreira” de um dos mais conceituados realizadores americanos, estaremos sempre muito longe de o imaginar como é este Silêncio, que estreia hoje nas salas portuguesas.


Vinte e seis anos depois de ler pela primeira vez o romance de Shuzaku Endo, chega aos ecrãs esta adaptação cinematográfica que conta a história de dois sacerdotes portugueses jesuítas, o Pe. Rodrigues (Andrew Garfiled) e o Pe. Garrupe (Adam Driver), que, ao receberem notícia de que o seu mentor, o Pe. Cristovão Ferreira (Liam Neeson), teria apostatizado (iremos ouvir muitas vezes este termo estranho durante o filme) durante a sua missão no Japão, partem para o país do sol nascente à procura dele.
 
O filme de Scorsese é brilhante, mas corre o risco de ser um dos mais subvalorizados filmes do ano. Não ganhou nos BAFTA, e poucos o apontam como favorito aos Óscares, apesar de o timing de Scorsese ter apontado a estreia do filme a pensar nisso mesmo. É que este é um filme mais para crentes que não-crentes. Enquanto A Missão ou A Paixão de Cristo eram obras épicas, com bandas sonoras e/ou efeitos visuais que tocavam os crentes e agradavam a não-crentes, este é um filme completamente despido de adereços, cujo único objetivo é conduzir o espetador à reflexão e introspeção sobre a sua própria vida e a sua atitude perante a fé. Os não-crentes poderão sentir-se tocados pela misericórdia e pelo amor com que os kirishtan (como os japoneses cristãos se chamavam a eles próprios) tratavam os missionários, mas as inquietações que o filme levanta serão ainda maiores para um não-crente.
 
Quem conhece os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, típicos dos jesuítas, sabe que a forma de reflexão é a oração de composição do lugar, ou seja, somos convidados a refletir nas passagens bíblicas que lemos colocando-nos lá, no local. Este filme faz o mesmo convite. Não há banda sonora, a não ser o som das próprias personagens ou do ambiente, e isso obriga-nos à tal oração de composição vendo o lugar, pois coloca-nos lá, na ação. Em mais do que um momento, o silêncio torna-se a grande arma do realizador para manter preso o espetador numa inquietação constante, sem as distrações que uma banda sonora como a de Ennio Morricone poderia trazer.

 
O silêncio é um apoio do realizador também na relação do Pe. Rodrigues com Deus. Ele não O escuta, e sente-se perdido, mas descobre mais tarde que Deus Lhe fala, apenas não da forma como ele esperava. Também aqui o filme toca aos crentes, pois tantas vezes esperamos ouvir de Deus a solução para os nossos problemas que nos esquecemos que Ele nos aponta caminhos nos outros, não nos dá as respostas que temos de ser nós a encontrar. O mesmo não sucede nos kirishtan, que amam a Deus mesmo nada conhecendo sobre a fé. «Eu amo a Deus. Será isso o mesmo que ter fé?», questiona o personagem Mokochi ao Pe. Rodrigues antes de partir para o martírio.
 
Este é um filme onde não há propriamente um herói e um vilão. O Pe. Cristovão Ferreira, o aparente vilão porque renunciou à sua fé, é na verdade alguém muito torturado pela dúvida entre renunciar publicamente à fé ou provocar a tortura e o sofrimento dos cristãos japoneses a quem tinha sido mandado pregar uma mensagem de amor. O aparente herói, o Pe. Rodrigues, vai ver-se perante a decisão de cometer ele próprio apostasia, sob coação de ver outros cristãos a serem torturados na fossa.


O filme é altamente simbólico, com especial relevo para a figura brilhante de Kichijiro, o guia dos dois sacerdotes até ao Japão, um homem torturado pelo seu passado e que se vê várias vezes confrontado com o drama do pecado e do perdão. Um retrato que é quase nosso, de quem é crente, que se pode colocar naquele papel e questionar-se sobre todas as vezes em que renuncia à sua fé e é, na mesma, acolhido depois na misericórdia de Deus.
 
É também curiosa a “presença“ portuguesa no filme. Não só na figura dos sacerdotes, mas nos termos utilizados. «Deusu», «Paraíso», «confissão», «Padre», são termos muito utilizados durante o filme, e demonstram a herança portuguesa no Cristianismo do Japão que ainda hoje é presente, e que muito contribuiu naquela altura para o cimentar da fé naquele país.
 
Finalmente, mas não menos importante, impressiona a força da fé daqueles kirishtan do Japão, que contraria a fraca fé dos cristãos de hoje. Sem sacerdotes, apoiavam-se no jiisama, uma espécie de ministro da Palavra, que batizava e mantinha a fé viva, e obrigam-nos à memória dos cristãos perseguidos de hoje.
 
O simbólico adquire importância extrema no filme, e por isso este será daqueles filmes que se poderão ver muitas vezes e mesmo assim encontrar algo de novo. Uma adequação ao próprio Cristianismo, também ele muito simbólico para todos os crentes.


Este é um filme também sobre o martírio, apresentado da forma mais crua e dura possível, sem a espetacularidade de Mel Gibson, que nos aproxima da ação e do sofrimento e nos provoca a nós próprios uma identificação com aqueles cristãos que incomoda e faz sofrer. Não há grandes momentos épicos no Silêncio, mas em todo o filme somos colocados lá, a viver o que eles viveram, de uma forma magistral e soberbamente conseguida através da realização e da fotografia do filme.
 
Silêncio é uma obra-prima, mas coloca tantas questões e dá tão poucas respostas que ninguém irá sair daquela sala satisfeito com o que viu, de tão inquieto vai estar o seu espírito. Mas isso não é uma coisa má…
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Kerry Brown e NOS Audiovisuais
 
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