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O Papa do «fim do mundo» faz 80 anos
17.12.2016
Passam hoje 80 anos sobre o nascimento de Jorge Mario Bergoglio, hoje mais conhecido em todo o mundo por Papa Francisco. Aquele que é o primeiro Papa sul-americano quebrou uma hegemonia de Papas europeus que já durava há mais de 1200 anos, mais precisamente desde o ano 741, altura em que Gregório III, natural da Síria, deixou a cátedra de Pedro que tinha assumido dez anos antes.
 

Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, no dia 17 de Dezembro de 1936, filho de emigrantes piemonteses: o seu pai Mário trabalhava como contabilista no caminho de ferro; e a sua mãe Regina Sivori ocupava-se da casa e da educação dos cinco filhos.
 
Francisco é um defensor acérrimo da vida, dos pobres, e da Igreja, que considera como mãe dos seus fiéis. Mais que criar grandes correntes teológicas de pensamento, Francisco fala para as massas, e aposta nos pequenos momentos de convívio e reflexão e nos pequenos gestos para fazer a diferença. Foi por isso que saudou toda a Praça de S. Pedro, na noite da sua eleição, com um “Boa Noite”, uma expressão tão simples quanto inesperada, que mostrou que estávamos perante uma pessoa diferente das outras.
 
Desde essa altura, as missas diárias em Santa Marta para os funcionários e alguns convidados do Vaticano, o gesto de responder a cartas e apelos com um telefonema inesperado, pagar pessoalmente a conta do seu hotel já como Papa, residir em Santa Marta junto de outros funcionários do Vaticano ou viajar com os bispos e cardeais no autocarro em vez de usar transporte próprio têm sido interpretados como gestos de quem pretende mudar a face da Igreja no século XXI, e exemplos a seguir por toda a Igreja.
 
No entanto, estes gestos são uma surpresa apenas para quem não conhecia o Pe. Bergoglio, ordenado em Buenos Aires a 13 de dezembro de 1969 depois de se ter licenciado em Química e de ter feito todo o noviciado da Companhia de Jesus. Depois de ser mestre de noviços em San Miguel, assume o cargo de provincial dos jesuítas da Argentina no dia 31 de Julho de 1973, apenas quatro anos depois da sua ordenação e meses após a sua profissão perpétua.

O Papa Francisco enquanto estudante dos Salesianos. É o quarto menino a contar da esquerda na terceira fila a contar de cima. 
Anos mais tarde, o cardeal Antonio Quarracino convidou-o a ser o seu estreito colaborador em Buenos Aires. Assim, a 20 de Maio de 1992 João Paulo II nomeou-o bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires. No dia 27 de Junho recebeu na catedral a ordenação episcopal precisamente do cardeal. Como lema, escolheu Miserando atque eligendo (o mesmo lema que manteve como Papa) e no seu brasão inseriu o cristograma IHS, símbolo da Companhia de Jesus.
 
Mesmo como bispo, mantinha o hábito de viver num apartamento e de cozinhar as suas próprias refeições. «O meu povo é pobre e eu sou um deles», disse várias vezes para explicar essa escolha. Também pedia aos seus sacerdotes que acolhessem todos e que usassem de misericórdia, gestos que trouxe para o papado e que tanto têm sido apreciados por todo o mundo católico e não católico.

Jorge Mario Bergoglio enquanto arcebispo de Buenos Aires 
A importância da comunicação e indefinição quanto ao futuro do Papa
Logo a seguir à ordenação, dá uma pequena entrevista a um jornal paroquial, hábito que tem mantido ainda como Papa. Nunca, na história da Igreja, um Papa deu tantas entrevistas e se expôs tanto ao mundo como Francisco tem feito. Sem receio de dizer o que pensa, Francisco vai apelando a uma mudança de atitude do mundo para com os pobres, os mais carenciados, como já o vinha a fazer na sua arquidiocese de Buenos Aires.
 
O impacto de Francisco mesmo fora da Igreja foi tanto que no ano da sua eleição a revista Time o elegeu como figura do ano. Os números de visitantes a Roma têm aumentado exponencialmente durante estes últimos anos, e as redes sociais têm projetado ainda mais a imagem do Papa. Francisco compreende a importância desses areópagos e grava vídeos com as suas intenções do mês, envia diariamente mensagens através da sua conta no Twitter, que tem mais de 22 milhões de seguidores, o que o torna o líder mundial mais seguido nas redes sociais.
 
Em 2013, este filho de um contabilista é eleito Papa. Pelos bastidores, falava-se que já em 2005, ano da eleição de Bento XVI, a escolha ficou entre estes dois nomes, mas que Bergoglio tinha rejeitado a hipótese de ser Papa, dando lugar a Ratzinger, alguém que ele, ainda hoje, considera como exemplo e mentor. Verdade ou não, o facto é que quando assomou à janela da Basílica de S. Pedro, poucos foram os que reconheceram a figura de Bergoglio, e até as centenas de jornalistas e comentadores que acompanhavam o momento se mostraram espantados por verem assomar à janela a figura de Bergolio, de 76 anos, quanto todos esperavam um Papa mais novo para suceder a Bento XVI.

 
Francisco tem vindo a avisar que pode não cumprir o seu papado até ao fim, seguindo as pisadas de Bento XVI, que também renunciou. A saúde não o tem ajudado, já que a ciática tem dificultado algumas das suas visitas mais longas, mas Francisco mantém um ritmo de viagens e visitas pastorais assinaláveis para um homem que perfaz hoje 80 anos. Foram já 17 viagens apostólicas fora de Itália, e mais tantas dentro do país, em apenas três anos, um ritmo bem próximo do de João Paulo II, com uma diferença de idades bem maior.

Saltam à memória as idas a Lampedusa e a Lesbos, epicentros da crise de refugiados, e a vontade já declarada de ir à Síria, que só não se tornará real se for mesmo impossível, mas também a visita a uma favela no Rio de janeiro, na Jornada Mundial da Juventude, a Auschwitz, que visitou sozinho para que «o Senhor me dê a graça de chorar», ou aquele toque de mão no Muro das Lamentações da Terra Santa.
Foi o primeiro Papa a discursar perante o Congresso dos Estados Unidos, e visitou Cuba, onde esteve com Fidel Castro, entre tantas outras visitas, dentro e fora de Itália, onde visitou hospitais e esteve com pobres e chefes de estado da mesma forma e com o mesmo empenho.


 
Polémicas
Não é só enquanto Papa que Francisco tem sido colocado em causa pelas posições sobre assuntos mais sensíveis dentro da Igreja. Já como arcebispo de Buenos Aires a polémica o acompanhava. Desde acusações de ter apoiado a ditadura militar na Argentina, que nunca foram para a frente, até criar frentes de choque com a presidente e o presidente Kirchner, a quem se opôs em questões como as uniões civis de pessoas do mesmo sexo e a atribuição de penas mais leves para quem comete aborto, Francisco era encarado, na altura, como a principal força de oposição ao governo, apesar de não estar em nenhum partido político.
 
Como Papa, as palavras duras que por vezes diz sobre os sacerdotes e a postura de alguns católicos têm-lhe granjeado poucos elogios dentro de setores mais conservadores da Igreja, mas um efeito de atração nos católicos mais liberais e em não-crentes, que se aproximam da Igreja ou pelo menos se identificam com a figura deste Papa simpático, acolhedor e promotor de consensos.
 
A mão de ferro com que governava a arquidiocese de Buenos Aires passou para o Vaticano, e Francisco tem operado muitas alterações dentro da Cúria Romana, tornando-a mais leve na sua estrutura e mais capaz de responder às necessidades do resto da Igreja. Foram criados Dicastérios novos, concentrando vários serviços, o conselho dos cardeais aprovou novos regulamentos financeiros, medidas para proteger os menores contra os casos de pedofilia, entre outras ações que visam modernizar a Igreja e adaptá-la aos tempos de hoje.
 
A vida em caminho sinodal, a escutar as pessoas
Francisco parece voraz no seu papel de pastor. Como arcebispo de Buenos Aires — diocese com mais de três milhões de habitantes — pensou num projeto missionário centrado na comunhão e na evangelização, com quatro finalidades principais: comunidades abertas e fraternas; protagonismo de um laicado consciente; evangelização destinada a cada habitante da cidade; assistência aos pobres e aos enfermos.
 
O seu objetivo era re-evangelizar Buenos Aires, «tendo em consideração os seus habitantes, o modo como ela é e a sua história». Convidou sacerdotes e leigos a trabalharem juntos. Em Setembro de 2009 lançou uma campanha de solidariedade a nível nacional, em vista do bicentenário da independência do país: duzentas obras de caridade a realizar até 2016. E, em chave continental, alimenta fortes esperanças, no sulco da mensagem da Conferência de Aparecida, de 2007, chegando a defini-la «a Evangelii nuntiandi da América Latina».
 
Como Papa, marcou uma caminhada sinodal sobre a Família que teve uma participação tal de toda a Igreja que surpreendeu toda a gente. Com a realização de dois sínodos, separados por um ano, permitiu um maior aprofundamento sobre as temáticas da família, mas não evitou a polémica no final, quando tentou abrir mais a Igreja ao acolhimento de todas as pessoas, inclusive às que estão em situação irregular, algo que ainda está por definir e explicar, mesmo que já tenham passado mais de oito meses depois da exortação pós-sinodal Amoris Laetitia, um dos livros religiosos mais vendidos em Portugal este ano.


Depois veio a Misericórdia, um ano que foi rotulado de total sucesso, com mais de 16 milhões de pessoas a dirigirem-se a Roma para celebrarem com o Papa o tema da Misericórdia, e muitos milhões espalhados pelo mundo em caminhada para as Portas Santas da Misericórdia, espalhadas por todo o mundo, e o já anunciado Sínodo sobre os Jovens para 2018, um dos temas que, juntamente com a Família, é mais sensível para a Igreja e que Francisco quer abordar de frente.
 
Pelo meio, esteve um Ano da Vida Consagrada que, “enfiado” entre os sínodos da família e o Ano da Misericórdia, acabou por ter menos destaque dentro da vida da Igreja.
 
Até que chegamos ao dia do seu 80º aniversário. O Vaticano criou um e-mail especial para que possa dar os parabéns ao Santo Padre – papafrancisco80@vatican.va, e as redes sociais vão encher-se de memes, imagens, saudações, a que o Vaticano ede que associem a hashtag #pontifex80, garantindo assim que todas as mensagens podem ser facilmente recolhidas e entregues ao Santo Padre. Ninguém esquece o Papa, e muitos serão os que, neste dia, rezarão por ele, o único presente que o Papa pede a todos com quem se encontra.

 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna, Tenan, ECDQ, Lusa, Colegio Salesiano Don Bosco de Ramos Mejía
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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