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«O Papa, falando para todos, toca em cada um pessoalmente»
22.03.2017
O Pe. Valdir de Castro, superior-geral da Sociedade São Paulo, esteve em Portugal para a assembleia regional da região Portugal-Angola, que definiu o projeto apostólico da congregação em Portugal para os próximos três anos. O sacerdote brasileiro falou com a FAMÍLIA CRISTÃ sobre os desafios que a congregação enfrenta em Portugal e ainda sobre os desafios que a evangelização pela comunicação enfrenta neste mundo «veloz», dando como exemplo o Papa Francisco.
 
Na carta que enviou à assembleia regional da região Portugal-Angola dos paulistas, fala da necessidade de construir uma casa em Angola, reavaliar a comunidade de Braga… esperamos novidades em breve?
O governo regional tem de pensar na casa de Braga para lhe dar uma finalidade paulista, um sentido paulista que pode ser vocacional, de formação, ou mais virado para o apostolado. Não faz sentido uma comunidade nossa que não tenha algo específico ligado à nossa vida de missão. Em relação a Angola, estamos muito contentes por a região de Portugal ter tido essa coragem de ir para Angola e começar ali o nosso trabalho, levar a evangelização à luz do nosso carisma, e nós queremos dar todo o apoio à região para que possamos desenvolver-nos ali conforme esperamos. Já estamos presentes na cidade de Benguela e queremos ver se podemos potenciar mais essa presença, seja em número de pessoas ou material e publicações, para que a nossa presença seja cada vez mais forte na Igreja e na sociedade de Angola.
 
É um investimento diferente de Portugal, considerando as limitações de várias ordens?
Claro, começando pelas condições sociais e políticas. Cada país tem as suas qualidades e os seus problemas. Angola tem os seus, e ali parece-me que o desafio é grande, principalmente devido à pobreza, devido à dificuldade de acesso à cultura, aos livros. Evidentemente que o nosso apostolado não se resume a publicações. A presença dos paulistas, colaborando na catedral de Benguela, ajudando a Igreja a caminhar e a tomar mais consciência da importância da comunicação ao serviço da evangelização, é também muito importante.
 
As questões da comunicação e da liberdade de informação é sempre uma área sensível…
Não conheço bem a situação de Angola. O que vamos fazer é responder às necessidades da Igreja e da sociedade, escutando a Conferência Episcopal, não vamos chegar lá e dizer que somos contra alguma coisa. Estamos lá para anunciar o Evangelho, explicitamente Jesus Cristo, mas também trabalhar para que a sociedade angolana possa melhorar cada vez mais nas relações humanas, buscando a justiça, a paz, a fraternidade e solidariedade. São estes os valores cristãos em que acreditamos e que, por meio do nosso apostolado, buscamos difundir e ajudar a construir na sociedade.
 
Na sua carta fala também na necessidade de trabalhar com outras realidades editoriais. É uma necessidade inevitável?
Hoje não podemos ser uma ilha. Temos uma identidade, somos a PAULUS, temos uma marca que nos identifica, mas não é por isso que temos de caminhar sozinhos, temos de procurar colaborações com outras editoras. No Brasil, fizemos algumas coedições com editoras luteranas de livros na área ecuménica, ou parcerias com outras editoras católicas. Acho que Portugal tem de procurar caminhar sem perder a identidade, mas onde for possível procurar essas parcerias para estarmos cada vez mais dentro de realidades onde por vezes não estamos.
 
E há sensibilidade “do outro lado” para essas parcerias?
Temos de ter a coragem de procurar essas parcerias. O nosso capítulo geral dizia que nós, paulistas, queremos chegar aos não crentes e aos que vivem longe da Igreja no seu íntimo e geograficamente de uma paróquia. Via numa estatística que, em Portugal, há 10% de não crentes. Como chegar a estas pessoas, com uma mensagem? Mesmo que não seja a mensagem da doutrina católica, como fazer chegar os valores cristãos de que tanto precisamos? A solidariedade, a fraternidade, a paz… A nova editora, Multinova, pode ser uma estratégia para chegar a essas pessoas, mas eu acho que devemos chegar lá mesmo com a marca PAULUS.
 
Como podemos chegar a essas pessoas?
Com diálogo e mensagens que são comuns a todo o mundo, de foco humano.
 
Pontificado do Papa Francisco tem «credibilidade»
 
Vivemos num tempo em que estamos assoberbados de informação, principalmente com a internet, e temos sido confrontados com as fake news, o pós-verdade, sites de notícias falsas… esta realidade preocupa-o?
Eu acredito que, se temos convicção em alguns valores e nos mantemos fiéis a eles, e apresentamos às pessoas a nossa coerência com esses valores, é preciso um trabalho de formiga, mas vamos conquistando as pessoas. Sabemos que hoje, na internet, não somos nós que escolhemos as pessoas, são elas que nos escolhem a nós. É preciso ir em busca das pessoas e criar esse público em nosso redor, de confiança. Onde não há confiança, não há seguidores. As pessoas até podem ir lá, mas quando começam a perceber que ali não há verdade, que não leva a nada, até podem seguir, mas com curiosidade, sem convicção. Isso preocupa-nos, assim como no passado nos preocupava a televisão e a rádio. O Pe. Alberione sempre se preocupou com a imprensa, com tantas publicações que não eram católicas que desviam as pessoas da igreja... o problema já existia no passado, hoje talvez tenha mais intensidade, mas sempre existiu.
 
É um problema que tem afetado o pontificado do Papa? Ele tem sido muito criticado, com cartazes, notícias...
Não acho que tenha afetado o pontificado. Sabe, essas coisas vêm e desaparecem. Os cartazes que apareceram numa noite em Roma já não são motivo de conversa, porque a pessoa do Papa tem credibilidade. Ele é tão coerente que as pessoas começam a achar que os que são contra o Papa são loucos. Ele fala de valores que todas as pessoas procuram viver, que a sociedade está a precisar. Claro que ninguém no mundo agrada a toda a gente, e o Papa também não, porque tem uma expressão mundial. Mas essas coisas que surgem assim, querendo o mal, destruir a pessoa, podem causar algum barulho durante uns dias, mas o Papa continua firme na sua convicção do Evangelho, na reforma da Igreja, uma Igreja em saída, não tem como desviar disto...


É um Papa para quem a comunicação tem um papel muito importante...
O Papa é um grande comunicador. Parece que é um comunicador de massa, mas não é, é um comunicador pessoa a pessoa. Claro que quando os meios de comunicação transmitem, parece de massa. O comunicador de massa fala para todos, mas parece que não está a falar para ninguém em especial. O Papa, falando para todos, toca a cada um pessoalmente. E faz isso especialmente quando toca literalmente a cada um, quando os cumprimenta. Eu vi isso na nossa casa em Ariccia, quando foi fazer os Exercícios Espirituais. Cumprimentou toda a gente, dos padres ao porteiro e à cozinheira, é uma pessoa que dá importância a todos.
 
E isso é também evangelizar?
O Evangelho é isso mesmo, é a prática, não é ficar na teoria. Podemos publicar textos belíssimos do Evangelho, mas o que chama a atenção é o Evangelho vivido. Quando ele convida os pobres para comer no Vaticano, quando constrói os chuveiros para os sem-abrigo, tantos gestos de atenção que ele dá a cada pessoa, que é digna porque é ser humano, não pelo cargo ou pelo dinheiro que tem. Ele está a ajudar o mundo a ver o valor de cada pessoa, e tudo isso nasce do Evangelho.
 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna
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