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«O Papa pode fazer muito mas tem que estar muito atento»
07.05.2016
«Avareza» é o título de um dos livros mais polémicos em Itália e no Vaticano. A obra resulta de uma investigação jornalística levada a cabo por Emiliano Fittipaldi, um jornalista de investigação que se ocupa da área do «poder». Através de diferentes fontes, Fittipaldi teve acesso a documentos confidenciais do Vaticano que podem configurar situações de corrupção e má gestão de fundos. O autor – a aguardar sentença no processo interposto contra si pelo Vaticano – esteve em Portugal a promover o seu livro. Embora aponte o dedo às situações investigadas e descritas no seu livro, o jornalista não toma o todo pela parte e reconhece que o problema não está na instituição Igreja, «que faz o bem a muitas pessoas», ou sequer em todo o Vaticano, mas em pessoas concretas que se aproveitaram de situações específicas para enriquecerem ou terem tratamento que não é coincidente com os valores do Evangelho.


 
Quando se fala do dinheiro no Vaticano, estamos a falar de riqueza a nível de propriedade ou de muito dinheiro líquido?
Falamos de ambos os aspetos. Por exemplo, o Banco Vaticano regula 5 ou 6 mil milhões de Euros, mas estas somas não são do Vaticano. São de clientes do Vaticano. Mas também há somas muito altas que estão conservadas na banca vaticana e na APSA (Administração do Património da Sé Apostólica) que é a Administração que tutela todos os bens com valor financeiro, e que conta com mais de mil milhões de Euros. Depois há valores imobiliários que são as casas, os palácios, que o Vaticano tem em Londres, em Paris, na Suíça que valem, segundo a avaliação dos comissários, 4 mil milhões de Euros.
 
Durante esta investigação que dados é que mais o surpreenderam ou chocaram?
Os dados que mais me chocaram são acerca do uso dos dinheiros que o Vaticano recebe dos fiéis católicos de todo o mundo. Por exemplo, o óbolo de São Pedro é uma esmola que os fiéis do mundo fazem diretamente ao Santo Padre, que anda à volta de 70, 80 milhões de euros por ano. Eu pensava que estas somas no final do ano passassem a zero, porque teriam sido gastos em favor dos pobres. Pelo contrário, percebi que estes dinheiros, quase 400 milhões de Euros, são geridos pela Secretaria Vaticana, e são investidos nos mercados internacionais.
Quando estes dinheiros são usados não é em favor dos pobres, quase nunca, mas sim gastos pelas necessidades dos dicastérios romanos e dos Cardeais. Este dado não foi desmentido pelo Vaticano. O Papa Francisco disse aos seus colaboradores, que este problema deveria ser mudado. Mas até agora ainda não foi mudado.
 
Porque é que ainda não mudou?
Porque o sistema económico do Vaticano rege-se com estes dinheiros. Sem estes dinheiros, o Vaticano tinha que mudar completamente. Tinha que ser muito mais pobre. Sem estes dinheiros das ofertas públicas, teria de ser realmente uma Igreja pobre e para os pobres, como quer o Papa Francisco. É preciso muito tempo para mudar um sistema económico que dura desde há 30, 40 anos. Dou outro exemplo acerca do Banco Vaticano: Lembra-se que o Papa Francisco disse «basta»; «há demasiados escândalos». Mas alguém disse: tenhamo-lo aberto, porque com os ganhos deste Banco podemos ajudar as dioceses no Terceiro Mundo, os mais pobres, e foi por isso que o Banco do Vaticano ficou aberto. Nos últimos 2 anos o banco ganhou 100 milhões de Euros. Eu pensava que estes dinheiros fossem gastos com os pobres, as crianças, mas pelo contrário, sobre estes 100 milhões, está escrito nos balanços públicos do IOR, só 17 mil euros foram para as missões no estrangeiro.
 
Mas temos de facto ao nível da Igreja mundial uma instituição que é das que disponibiliza mais dinheiro para ajudar as necessidades: hospitais, misericórdias, obras…
Exato. Deve-se diferenciar a Igreja mundial que, em minha opinião, é na sua maior parte uma Igreja santa, que faz o bem às pessoas. Conheço muitos padres em Itália que ajudam os mais fracos. Fazem-no com pobreza. Com recursos muito pequenos, porque um sacerdote na Itália ganha só 900€ por mês – demasiado pouco! Fazem-no com a ajuda dos fiéis.
Depois, há as grandes organizações como o Vaticano ou a Conferência Episcopal Italiana, a CEI, como vós tendes aqui em Portugal a CEP, que têm custos de estrutura muito altos.
E há dirigentes, cardeais, monsenhores, etc., com uma vida de luxo. Administram propriedades, por exemplo, têm em Itália televisões, rádio, jornais que custam muito e estes dinheiros são ofertas dos fiéis. Nestes dias circula uma publicidade na televisão em Itália que diz: “dá-nos este imposto porque fazemos o bem aos mais pobres”. Mas na realidade, de cada 100€, 80€ vão para a estrutura económica da CEI para pagar os estipêndios dos sacerdotes, para as necessidades económicas das dioceses, para os cursos de catequese, para os tribunais eclesiásticos, e somente 20€ acabam em favor dos pobres ou dos Países do Terceiro Mundo. E isto não é possível.
 
O pecado capital que dá título a esta obra, a avareza, é dirigido ao Vaticano, ou mancha todo o trabalho da Igreja?
É uma crítica direta a algumas pessoas no Vaticano, e não a toda a Igreja. Penso que um investigador jornalístico deve ter objetivos muito precisos e nunca generalizar. No meu livro falo apenas de algumas pessoas e de alguns sistemas económicos corruptos que devem ser mudados. E que o Papa Francisco está a procurar mudar. Só que no Vaticano o Papa Francisco tem muitos mais inimigos do que poderíamos pensar, ou que a propaganda do Vaticano nos fez acreditar durante estes três anos. A resistência dos cardeais que querem continuar a ter um poder político e económico importante são muito, muito fortes. Portanto, a reforma é uma coisa que custa a fazer.
 
Qual tem sido o papel dos Papas nestas situações? Sabem, têm acesso à informação, têm limitações para conseguir mudá-las?
Penso que o período mais obscuro das finanças vaticanas foi com João Paulo II. O Cardeal Marcinkus [o entrevistado refere cardeal, mas na verdade Marcinkus foi apenas arcebispo]  assumiu operações ilegais sobretudo durante o papado de João Paulo II. Creio que o Papa que governou durante 30 anos não podia não saber! Bento XVI, que nunca foi um Papa muito amado e era muito reservado, muito conservador, em minha opinião fez um ótimo trabalho deste ponto de vista. Porque o “grupo polaco” que de algum modo governou a Igreja durante aqueles anos, deixou-se cair numa série de escândalos muito graves. Bento XVI foi o primeiro que procurou começar a fazer a limpeza.
O Papa Francisco está à procura de continuar os trabalhos de transparência iniciados por Bento XVI. Não tão velozmente, como o Vaticano se queixa e como muitos jornais que gostam do Papa Francisco nos contam. Tudo vai com muita lentidão, à medida que se abarca o sistema económico do Vaticano e se vê que é um sistema muito complexo, e que para mudar são precisos muitos anos. 
 
Esta situação de corrupção e de escândalos que refere é um problema de pessoas que se encontram dentro da Igreja ou da própria estrutura?
Ambas. Quanto à estrutura, está baseada no dinheiro. Muito dinheiro. Onde há muito dinheiro, é mais fácil que aconteça a corrupção. É uma coisa normal. Portanto, em minha opinião a Igreja Católica deve ter menos dinheiro e não deveria agir nem racionalizar-se como uma mercadoria.
Se depois há cardeais como Bertone que faz pagar a reestruturação do seu apartamento utilizando dinheiros destinados a crianças doentes, ou se há cardeais que utilizam dinheiros com amigos para construir boémios retiros no campo perto de Roma, ou outros como Pell, o cardeal australiano, próximo ao Papa Francisco, que gasta centenas de milhares de euros para uso pessoal, isto é um problema de corrupção ou de imoralidade individual.
Se mudar o sistema, deixa de haver muito dinheiro, e quando já não houver muito dinheiro, também haverá menos corrupção.
 
Esta questão passa sobretudo pelo Papa? O Papa é que vai conseguir resolver este problema ou onde se encontra uma solução para este tipo de situações?
Penso que o Papa possa fazer alguma coisa, mas nem o Papa tem a magia de mudar tudo e depressa. O Vaticano é uma monarquia e, neste sentido, o Papa pode fazer muito. Mas tem que estar muito atento, porque se faz uma mudança muito radical, os seus inimigos aumentam em demasia.
O Papa não pode governar a Igreja sozinho. Não é possível. Então ele procura fazer pequenas mudanças, mas até mesmo estas pequenas mudanças encontram muita oposição interna.
Portanto, eu penso que não será este pontificado a concluir esta reforma. São precisos muitos anos, muita paciência, mas é importante que a opinião pública conheça estas informações e faça pressão sobre o Vaticano, conhecendo estas informações, para mudar as coisas.
Se o Vaticano, quando sai um livro como este, não põe um processo aos cardeais, mas aos jornalistas, em minha opinião é uma ocasião perdida em favor desta reforma. E também é uma ocasião perdida para este Papa.
Não digo que Bertone ou outros cardeais sejam chamados a tribunal, mas afirmo que o que escrevo é verdade, e nunca foi desmentido. Eu não esperava solidariedade do Papa, mas pelo menos que não me pusesse um processo (risos).
 
Acha que a questão recente com a auditoria da Price Waterhouse Coopers (PWC) é também «uma oportunidade perdida»?
É uma questão técnica, mas muito significativa, que permite perceber que hoje o Vaticano está no caos. Caos total. Que para mim é positivo, porque só do caos nasce um sistema melhor. O cardeal George Pell fez um contrato com PWC de 3 milhões de euros. É um contrato muito forte.
O conselheiro oficial de Pell é um banqueiro maltês, o Presidente da PWC em Itália é maltês. E a alguém no Vaticano não agrada esta falta de transparência no contrato. E sobretudo não quer que George Pell tenha um poder assim tão grande. Este é o motivo porque houve lutas e o motivo pelo qual o Papa Francisco disse que este contrato não lhe agrada, e que têm de mudar.
 
Mas não acredita que a auditoria vai continuar e vai chegar a resultados?
Não sei... não sei. Por agora, pelo que vejo, não estou muito otimista. Dou um exemplo: o Banco do Vaticano. Os homens do Papa Francisco disseram que tudo mudou, que fecharam contas laicas que não podiam estar dentro do banco: empreendedores, mafiosos. Pode ter acontecido haverem fechado estas contas, mas eu escrevo que 100 contas ainda se encontram abertas, como contas legais. Mas sobretudo aqueles que foram expulsos e foram enviados para a Alemanha, ou para paraísos fiscais, Panamá e outros, os nomes não foram dados à Polícia italiana, ou Portuguesa ou de outro país.
Não foram feitas as coisas com transparência.
 
Há pouco referiu que não estava à espera de apoio por parte do Vaticano pela publicação do livro, mas houve pessoas dentro da estrutura da Igreja que se congratularam ou apoiaram?
Houve algumas pessoas que me ajudaram a fazer este livro, pessoas corajosas que queriam que estes documentos se tornassem públicos. Por muitos motivos: motivos morais, para obter maior transparência, motivos pessoais porque às vezes as fontes têm também motivos pessoais para te entregar os documentos. Mas a solidariedade maior não me veio de dentro do Vaticano após a publicação do livro, mas dos padres da rua, dos padres que vivem na pobreza. Chegaram-me muitas mensagens pelo facebook de apreço pelo trabalho, a pedir que fizesse um trabalho sobre o bem que se faz na Igreja; «nós não somos como o Vaticano», diziam-me – e é verdade! «Continua a trabalhar como até aqui, continua a contar a corrupção porque contar a corrupção é o primeiro passo para a destruir e para a vencer». Claro que isto me deu muito prazer.
 
entrevista Rita Bruno
fotografia Ricardo Perna
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