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O que não dizer aos filhos sobre trabalho
07.07.2017
«Porque vais trabalhar, mãe?» «Papá, tens de ir trabalhar? Porquê?» Levante a mão o pai ou mãe que nunca teve de responder a estas perguntas. Mas há maneiras mais corretas do que outras de ajudar os filhos a perceber por que razão os pais trabalham fora de casa.

Patricia Debeljuh é professora universitária, investigadora e diretora do Centro de Conciliação Família e Empresa, na Argentina. Ela defende que é preciso explicar bem. Patricia diz que isto não é um ponto menor, mas muito importante na educação deles.

«Quando escuto, pelo mundo, papás ou mamãs dizendo aos seus filhos que lhes dedicam pouco tempo, e a explicação que lhes dão, tenham a idade que tiverem, é “o papá e a mamã saem para trabalhar para que vocês possam ter estas sapatilhas” ou “para que tu possas estudar no colégio bilingue ou trilingue” ou que “a mamã sai para trabalhar para que este ano possamos ir de férias à Disney”. É a pior explicação que podem dar aos seus filhos, porque vão associar que a ausência da mãe ou do pai está diretamente relacionada com dinheiro. A compensação por perder a mamã ou o papá é a viagem à Disney, o colégio… e os pais, quase sem se darem conta, estão a educar um consumista. Porquê? Porque esse filho vai pedir cada vez mais. Passa-se o mesmo com as viagens. Que fazem os papás ou mamãs que por causa do seu trabalho viagem? Trazem presentes com a ideia de suprimir… os filhos vão associando que o trabalho é o que lhes dá o que querem. E acabam por manipular, porque claro não se conformam. Atenção: no fundo, não lhes estão a explicar a verdadeira motivação para sair de casa para trabalhar.»

 Patricia Debeljuh
Porque trabalhamos?
Então que se deve dizer? Na verdade porque saímos de casa e deixamos os filhos nas escolas e creches? Se nunca pensou muito nisso, é altura de olhar e refletir. Patricia Debeljuh dá uma ajuda. Ela diz que há três motivações: extrínseca, intrínseca e transcendente.
 
A motivação extrínseca «está relacionada com tudo o que nos vem do trabalho: o salário, a remuneração». Mas esta motivação não é suficiente. «Se fizer um estudo mundial com uma só pergunta estou certa de que teria uma unanimidade nas respostas. “Senhor, senhora, gostaria de ganhar mais dinheiro?” Todos responderiam que sim. Toda a gente quer mais. A primeira motivação é extrínseca, mas é insuficiente porque nunca estaremos satisfeitos com o que recebemos.»
 
A motivação intrínseca está relacionada com o que nos motiva interiormente. «Quando alguém trabalha desfruta muito do seu trabalho, aprende muito e quando deixa de aprender muda de trabalho. É necessária a motivação intrínseca, porque é feio e triste quando o trabalho não te motiva, não te desafia. Aborreces-te  e por mais que te paguem queres ir-te embora.»
 
A terceira motivação é a transcendente e Patricia diz que é inesgotável, porque «faz referência ao impacto que o meu trabalho tem nos outros, começando pela própria família».



Que dizer aos filhos?
Assim, Patricia defende que deve ser explicado aos filhos que os pais trabalham pelo bem que fazem a outras pessoas, começando por eles.

«Se se consegue explicar aos filhos esse bem que se consegue fazer aos outros pelo trabalho, eles podem entender, de acordo com as idades, que a mamã esteja menos tempo em casa. Podem estar orgulhosíssimos de que a sua mamã esteja a trabalhar.»

Patricia dá um exemplo a que assistiu na Argentina. «Há uma certa rivalidade entre as mamãs que trabalham fora e as que não trabalham fora. Nos aniversários dos filhos, as mamãs que não trabalham fora trazem um bolo superdecorado, em que pensaram durante três dias e a mamã que trabalha fora foi à pastelaria da esquina e comprou o mais bonito que encontrou e veio à festinha. Há uma competição de bolos!», diz rindo. Mas esta investigadora, com formação em filosofia, afirma que «os meninos também percebem e já ouvi mais do que uma criança feliz porque a sua mãe está a mudar o mundo. A mãe conseguiu explicar-lhe a motivação extrínseca e ele percebe que não esteja sempre com ele». Patricia sublinha que estas motivações também se adequam às mães que estão em casa com os filhos e aos pais. As motivações podem ser as mesmas e também «muda o mundo a mamã que está em casa». Fazer o bem aos outros tanto faz o médico que pode ajudar os doentes a ficarem melhores, como o padeiro que faz o pão para alimentar as pessoas, ou o senhor que varre o chão para manter as ruas limpas. Daí que esta motivação seja para todos.

Mas deixa um conselho às mães:

«As mulheres querem ser boas em tudo: a melhor mãe, a melhor profissional, a melhor esposa, a melhor filha, a melhor nora e, além disso, estar sempre bem arranjadas, ter as mãos arranjadas, ir ao ginásio! Colapsamos! Não existem supermulheres. Fazemos o que podemos!»

 
Reportagem: Cláudia Sebastião
Foto: Cláudia Sebastião e FreeimagesPT
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