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O statu divino
06.11.2017
Desde há muito que na Igreja se recorda o mês de novembro como o “mês das almas”, por ser dedicado às almas do purgatório o Dia dos Finados, ou dia de Todos os Fiéis Defuntos. Esta celebração viu alargar-se o espaço de tempo litúrgico ocupando, por razões práticas, o Dia de Todos os Santos. Na sociedade ocidental, onde cada vez mais se afirmam convicções agnósticas, com laivos de crenças orientais, continuam a celebrar-se algumas festividades religiosas com um misto de devoção e de outros sentimentos de catequeses que deixaram a sua semente sem se desenvolver. No que toca à realidade da morte, nota-se alguma confusão ou mesmo um sincretismo de crenças pouco afeitas aos ensinamentos da realidade transcendental e espiritual bíblica. Com maiores ou menores convicções, muitos continuam a afirmar-se cristãos, apesar de dúvidas e confusões no que toca às verdades da fé em relação à morte. No entanto, não deixa de ser verdade que os mortos chamam os vivos, daí que as celebrações de aniversário de morte tenham, por vezes, participações muito superiores relativamente a celebrações dominicais, independentemente dos fatores sociais que as envolvem.

Olhando numa perspetiva eclesial, em novembro celebra-se, logo no primeiro dia, o Dia de Todos os Santos, a Igreja Triunfante, aos quais se juntarão os Fiéis Defuntos, por quem se reza no dia 2 de novembro. Ser santo é o primeiro dever de todo o cristão batizado. E o que fizeram para obter esse grau de santidade? É essa interpelação que faz o Evangelho de Mateus, no último domingo deste mês, na narração profética do Juízo Final, no que toca ao exercício ou não das obras de misericórdia.

Numa audiência em 19 de novembro de 2014, o Papa Francisco, referindo-se ao documento conciliar Lumen gentium, afirma que «um grande dom do Concílio Vaticano II é ter afirmado que todos os batizados possuem uma mesma dignidade e uma mesma vocação universal à santidade. Ser santo não é uma prerrogativa oferecida só para alguns escolhidos, nem significa ser dotado de uma capacidade especial. Não! Trata-se de um dom que o Senhor Jesus oferece gratuitamente a cada um de nós».

Ser santo é, por conseguinte, assumir a mesma condição de Jesus, como narra de forma sublime, na Carta aos Filipenses, o Apóstolo São Paulo. Perante uma comunidade onde escasseava a humildade e se procuravam os altos cargos, São Paulo convida os cristãos a terem os mesmos sentimentos de Jesus e descreve o gesto supremo em que Ele, não se valendo da sua condição divina, Se fez homem, aceitando morrer na pior das formas: crucificado (Fl 2,1-11). Em suma, São Paulo afirma que o “estatuto” do ser cristão é o da condição divina de Jesus constituída pela humildade que O levou à máxima abnegação obedecendo à vontade do Pai, que, por isso, O exaltou.

Não era fácil para a comunidade da cidade de Filipo, muito marcada pela imagem social típica do mundo greco-romano, abdicar de um estatuto, obtido por herança ou conquistado pelo sucesso sem olhar a meios, que São Paulo considera de vanglória e competição, apelando à unidade na humildade. Também hoje, em tempos de crise, ocultam-se as dificuldades para se manterem negócios, por questões de afirmação pessoal ostentam-se comportamentos e assumem-se regras de conduta. Tudo desvanece, no entanto, quando a realidade é outra e persiste em não mudar.

O cristão pode e deve procurar o respeito e o sucesso na vida, sempre na ótica das Bem-aventuranças, assumindo, com autenticidade, os valores que Jesus encarnou na sua existência terrena.