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Os nossos padres estão em burnout?
17.10.2017
«Fui percebendo que estava a dar cabo de mim. Estava num beco sem saída e não conseguia sair.» A revelação, dura, aparece ao fim de longos minutos de conversa com o Pe. Horácio. O nome é fictício, porque não quer colocar em causa a Igreja ou a sua comunidade, mas a situação que viveu foi bem real. Este sacerdote português faz parte de uma estatística invisível de padres que entram em cansaço extremo, ansiedade ou depressão, ou em burnout, utilizando um termo mais em voga nos dias de hoje, noutras profissões.


Os sintomas do burnout podem ser vários. «A insónia, a ansiedade, a somatização, que é a expressão no corpo de sofrimento psicológico, dores de cabeça, tensão alta, gastrite, queda de cabelo, podem estar a esconder um humor deprimido e ansioso», explica-nos Margarida Neto, psiquiatra na Casa do Telhal, que tem acompanhado vários casos semelhantes ao longo dos anos. «Quando não cuidamos do descanso, das horas de dormir, e não sabemos dizer “não”, entramos facilmente numa situação de burnout, de cansaço extremo, e há que saber parar», refere a psiquiatra.

No caso do Pe. Horácio, o escape foi o álcool. As palavras são escolhidas com critério, intercaladas por momentos de pausa, enquanto as mãos mexem num lenço de papel já muito amachucado. Não há receio de falar, mas há uma pausa reflexiva antes de qualquer partilha. O pior já passou, mas isso não significa que não tenha deixado marcas. «Ao longo da nossa vida julgamos que conseguimos resolver tudo… que temos força para aguentar tudo sozinhos… Naturalmente há pessoas mais extrovertidas que explodem e disparam, mas há outras, como é o meu caso, que engolem tudo, são mais reservadas. No meio das nossas responsabilidades pastorais há muitas tensões, neste ou naquele grupo, com esta ou aquela pessoa… o peso da responsabilidade da animação de uma comunidade ou instituição. Procuramos rodear-nos dos colaboradores adequados, mas a grande responsabilidade é sempre do sacerdote. Uma responsabilidade de alguma maneira isolada, e isso durante muitos anos fica cá dentro acumulado e a pessoa vai-se isolando, não conversa com os colegas ou com alguém de confiança, e isso leva a uma certa tendência a refugiar-se, neste caso, no álcool. Isso depois torna-se… uma montanha-russa, vai aumentando, e isso faz-nos ficar mais cansados, mais deprimidos, entramos dentro de um ciclo vicioso…», lá vai dizendo, enquanto explica que teve de sair da sua paróquia e de abandonar os serviços que prestava.

Há um ano e meio que está sóbrio, mas antes disso foram cinco anos de dificuldades. «Quando já não somos capazes de corresponder aos compromissos que temos, a desmarcar coisas, a dizer sempre que estava doente, sem forças, a não dormir bem. Estava numa paróquia, estive vários anos em paróquias como pároco, e depois tive de deixar a paróquia porque já não aguentava. Eu ficava muitas vezes doente e tinha de desmarcar compromissos, pedir a um colega que me substituísse neste ou naquele serviço», conta o sacerdote. Quando percebeu que precisava de ajuda recorreu a uns amigos médicos que o orientaram para a cura.

Margarida Neto, psiquiatraNa Casa de Saúde do Telhal, Margarida Neto recebe vários destes casos, de sacerdotes que, por uma ou outra razão, se encontram em estados depressivos, de ansiedade ou alcoolismo. Apesar de todos estarmos sujeitos a que nos suceda algo do género, a psiquiatra aponta fatores de risco que estão inerentes à figura do sacerdote. «Acho normal que os padres com a vida que têm, poucos, assoberbados de trabalho, com generosa dificuldade em dizer que não, que se cansem, durmam mal, estão sozinhos… Não saber dizer “não” é um fator de risco, mas há outro, que é o facto de os padres diocesanos viverem sozinhos, ou em comunidades muito pequenas, que têm mais dificuldade na partilha. O Papa percebeu isso muito bem, e disse que, por razões de saúde mental, preferia viver na Casa de Santa Marta para ver pessoas, rir com pessoas. Os padres diocesanos podem não ter esta dinâmica, e isto é um fator de risco», alerta.

O Pe. Horácio comenta, no final da entrevista, que, mesmo que não sejam a maioria, há «mais casos do que aqueles que se pensa». Mas apesar dos problemas parecerem impossíveis de resolver, é importante referir que há uma nota de esperança para todos. «Eu não estou preocupada, são problemas que se revertem», diz Margarida Neto, e o Pe. Horácio concorda. «É preciso que a pessoa peça ajuda e se deixe ajudar, esse é um passo fundamental. O resto depois consegue-se fazer, com serenidade e com calma, mas é sobretudo isso, deixar-se ajudar e pedir ajuda», explica.
 
Leia a reportagem completa na edição de outubro de 2017 da FAMÍLIA CRISTÃ.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Shutterstock
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