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Os «tempos heroicos» dos religiosos na Síria
23.08.2016
A Ir. Agnés Mariam de La Croix, superiora da comunidade do mosteiro de S. Tiago Mutilado, em Damasco, deu uma entrevista à Família Cristã para relatar os horrores que a população síria está a passar com a guerra, e os cuidados que estas monjas têm tido no sentido de cuidar deles e minimizar o sofrimento. Deixámos os relatos das dificuldades por que passam para este artigo, para que se pudesse compreender a magnitude do que se está a passar no país.



Elas vivem dentro do mosteiro, em Damasco, e já foram várias vezes ameaçadas de morte, de tal forma que a superiora foi obrigada a sair do mosteiro e ir viver para outra cidade. Desloca-se lá apenas quando é necessário dar apoio em ações no terreno juntamente com a ONG que criaram para apoiar os cidadãos sírios que se veem deslocados de suas casas por causa da guerra.
«Nós estamos instaladas na Síria desde há vinte anos, viemos para a Síria por amor a Cristo. Estamos junto da população civil, e com certeza partilhamos as suas dificuldades, os perigos que eles correm. Passámos por momentos extremamente difíceis, eu tive de sair com a minha assistente por causa de ameaças feitas contra a minha pessoa. A comunidade foi quase agredida primeiro por rebeldes sírios e depois por terroristas que não eram sírios, mas que invadiram a vila. Durante meses a comunidade não pôde movimentar-se fora dos muros e foram obrigadas a permanecer num refúgio de menos de 20 metros quadrados, uma comunidade de 15 pessoas», conta esta monja.

Apesar das provações, os testemunho que a Ir. Agnés relata são de «heroísmo». «Ouço o testemunho dos irmãos e das irmãs, são testemunhos de tempos heroicos, de tempos de catacumbas, de perigo iminente: várias vezes tiveram que fazer as suas malas para partir. No entanto, a cada vez, o seu desejo de ficar sobre a brecha, lá onde o Senhor os instalou para continuar o seu testemunho silencioso, o seu testemunho espiritual e o seu combate em espírito, foi mais forte, e a cada vez eles de novo desfizeram as suas bagagens para poder ficar», sustenta.

A sua posição no terreno e a sua dedicação à missão granjearam a admiração das populações locais, pelo que a comunidade foi chamada para ser mediadora num conflito local entre os deslocados de guerra que tinham sido empurrados para acampamentos de refugiados no Líbano [Damasco fica perto da fronteira da Síria com o Líbano] e o Estado, na procura de uma repatriação dos deslocados e o fim dos conflitos naquele local. «Isto levou muito tempo, mas como houve um conflito durante o qual as tendas desses refugiados começaram a arder, a situação tornou-se insustentável e fui então chamada para os resgatar. Fui até lá para verificar a situação e pedi às autoridades locais para abrir um caminho para que esses refugiados deixem o campo e sejam postos ao abrigo dos fogos, dos tiros, entre o exército libanês e os terroristas do estado islâmico. Isto foi feito, mas não era suficiente porque não se podia ficar numa região completamente desértica, onde não havia nem água, nem eletricidade, nem pão, nem absolutamente nada», conta.

A história é grande, e o espaço dos artigos supostamente curto, mas não se podem deixar de contar estas histórias, pelo que o relato continua na primeira pessoa. «Cerca de 24h depois pude acompanhá-los, numa caravana de 2500 pessoas com crianças, mulheres, com as suas camionetas, os seus automóveis. Era uma caravana de quase três quilómetros de comprimento. Eu tive que os acompanhar em primeiro lugar a um acampamento improvisado que estabelecemos com a ajuda de voluntários locais. Lancei um apelo às ONG locais que responderam e prestaram a sua ajuda. Mas houve um problema com os terroristas que se tinham infiltrado no meio dos refugiados: eles tentaram queimar pneus para cortar a estrada e desafiar o exército libanês.

Havia um grande perigo de que a população local se revoltasse contra os refugiados, no entanto eles não tinham nada a ver com isso. As autoridades locais disseram-nos que não podíamos ficar lá: ou eles deviam entrar na Síria ou voltar ao seu campo que estava a arder. Então todas estas famílias decidiram entrar na Síria e foi assim que nós os acompanhámos durante 4 dias e 4 noites, uma verdadeira aventura pois eles não tinham documentos. Não tínhamos a permissão nem dos libaneses nem dos sírios, nem para poder movimentar-se, nem para poder viajar, poder entrar na Síria», relata.

As dificuldades foram ultrapassadas por causa do «resíduo de bondade» que habita em todos, e os refugiados foram bem recebidos e regressaram às suas vilas, «onde são um fator de coesão» importante para manter a paz.
Marcas de uma guerra que continua a matar inocentes, enquanto nada se faz para verdadeiramente acabar com o problema.

 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia


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