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Pais ausentes na distância, presentes no amor
19.03.2017
Celebra-se a 19 deste mês o Dia do Pai e resolvemos lembrar aqueles que, por motivos profissionais, não podem estar junto dos seus filhos nesta data. E em outras!
Pais ausentes, quando a medida de ausência é calculada em milhas ou quilómetros. Pais presentes, quando a medida de presença é calculada em amor e afeto. Como é viver a vida em duas escalas?

Um pai presente que tem de se ausentar por motivos profissionais debate-se com as saudades da família, dos filhos, com a angústia de perder momentos do seu desenvolvimento, com o desejo de uma maior conciliação trabalho-família, com os esforços para que a sua ausência seja apenas física e com o objetivo de transformar todos os seus momentos com os filhos em tempo de qualidade.
O peso da ausência sente-se logo na palavra. Ausente significa «que não está presente», mas também «afastado, distraído». Associar pai e ausente na mesma frase ganha o peso do segundo significado. Mas os pais, hoje, querem-se (para si) e exigem-se (de si), pais presentes.

Que o diga João (sem apelido para resguardar a família), um pai muitas vezes fisicamente ausente por força da sua atividade profissional, que resolveu denominar-se O Pai Ausente num blogue que criou, o que gerou estranheza nos amigos e colegas. «O nome do teu blogue é um bocado forte de mais, porque na realidade tu não és ausente», disseram-lhe.
João sabia o que estava a fazer, foi uma espécie de marketing pelo choque. Piloto de profissão há nove anos, este pai de um menino de dois anos e meio ausenta-se regularmente, por períodos de tempo variáveis: uma semana, duas, um mês, dois. João lida com a palavra ausente em termos práticos. É «uma ausência de trabalho, não uma ausência na família», clarifica.
Uma ausência que não consegue sequer ser planeada, na maioria das vezes. O regime em que funciona a sua empresa dita que a qualquer momento o piloto tenha de se apresentar no aeroporto, para se ausentar por vários dias. «Isso cria muito a incógnita na nossa vida, vivemos um bocado no stand-by, com o telemóvel no bolso, prestes a tocar.» E quando toca, o filho já sabe que o «pai vai para o avião trabalhar». Até ao seu regresso.

Enquanto o pai trabalha longe, mãe e filho organizam-se perto, criam dinâmicas e rotinas às quais João tem de se adaptar de cada vez que está de volta. «Para mim, não é de todo muito fácil, porque [eles] estão habituadas às suas rotinas e, quando chego, às vezes acabo por ser o elemento estranho ali no meio.»
João sabe que a sua chegada já comporta alterações e faz os possíveis por ser ele a adaptar-se aos ritmos já vividos em casa, devagar, com carinho. «Tem de haver aquela fase de cativar um bocadinho e dar aqueles rebuçadinhos para quebrar a saudade, compensar o tempo que estive fora, o afeto que não lhe consegui dar e o carinho e depois, a seguir, ter hipótese de conseguir contribuir para a educação dele de uma forma mais séria. Não é que não o faça conforme chego, de uma maneira mais suave», explica.

João procura também aliviar a carga da esposa e, mais uma vez, compensar em partilha o tempo que esteve ausente. «É aquele membro que chega à família com as malas e ok, agora o miúdo já está a largar as fraldas, esta semana comeu muitas vezes carne tem de comer peixe, tenho de por a roupa a lavar e dar uma limpeza à casa. Entre amigos brincamos, ligamos uns aos outros conforme chegamos de uma operação e: então, quantas máquinas de roupa já fizeste esta semana? Muitos de nós temos filhos pequeninos e gerimos muito a nossa vida assim. Chegamos a casa, temos de nos adaptar, acudir aos pequenos fogos que possam existir.»

Porque enquanto está fora João não pode participar das rotinas que exijam a sua presença física. Mas faz-se presente em outras… que não lhe matam a saudade, até a alimentam. No bom sentido! Aquele que não o deixa cair no esquecimento.
As tecnologias e as redes sociais dão uma ajuda. «A maneira que temos de colmatar isso é através do Skype, do Messenger. É aquele momento em que ele chega da escola, ali na altura de jantar falamos um bocadinho. É a maneira que eu tenho de colmatar a saudade e ao mesmo tempo de ele se manter a par do que eu estou a fazer.» É o que Vanessa Martins Cerqueira chama de «noção de representação» que as tecnologias e as redes sociais ajudam a manter. «As redes sociais facilitam neste sentido. Permitem que a representação mental da pessoa exista ou se mantenha e que as crianças continuem a considerar o pai que se ausenta como estando presente na vida deles e querendo saber.»Vanessa Martins Cerqueira considera que as redes sociais são um ponto de aproximação.
As tecnologias ajudam, mas não substituem. «São fatores de aproximação; ajudam, mas fisicamente a pessoa não participa», continua a psicóloga. E às vezes é precisa, como quando por exemplo, quem fica sofre algum acidente que o limita, como já aconteceu à família de João.

Além disso, um certo sentimento de perda é sempre algo com que este pai tem de lidar. «Sinto que acabo por perder… os primeiros passos, estar presente nisso, ajudá-lo, incentivá-lo ao seu desenvolvimento cognitivo…» Mas João corre atrás: «A luta é sempre, quando estou em casa tentar compensar e tentar dar mais ferramentas e método para ele conseguir evoluir. Mas sim, sem duvida alguma, embora tenhamos internet, não é a mesma coisa quando estamos presentes. Isso ainda não nos permite compensar ou sentir recompensados da minha ausência», confessa.

A saudade também aguça o engenho e, embora haja coisas que se perdem, os pais que estão temporadas longe aprendem a fazer do menos mais. «Por cada vez que estou em casa, faço por ter momentos com ele, em que ele não vai a escola e é capaz de passar três dias comigo e vamos passear. Para ele ter momentos comigo. Estando ausente, sou capaz, por exemplo, de numa semana conseguir estar mais tempo com o meu filho do que os meus amigos estão num mês.»

Vanessa Martins Cerqueira diz que este aspeto pode prender-se, em parte, com o fator “valorização” do tempo. «Estes pais que se ausentam dão uma grande valorização e se calhar aprendem a gerir o tempo de uma forma mais eficaz, o tal tempo de qualidade.»
Porque a qualquer momento o telefone pode tocar… no exato momento em que João estava a entrar no ritmo das rotinas.
 
Texto: Rita Bruno
Fotos: Rita Bruno e D.R.
Excerto de um artigo publicado na edição da FAMÍLIA CRISTÃ de março de 2017.
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