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Papa deixa tudo nas mãos dos pastores e do discernimento
08.04.2016
A Exortação Apostólica Pós-sinodal A Alegria do Amor, publicada hoje pelo Papa Francisco elabora, em 325 pontos, aquilo que é a sua visão sobre a família e as suas diversas áreas. Sobre as situações irregulares, que aborda particularmente no capítulo 8, a questão pela qual muitos ansiavam, o Papa acaba por deixar tudo nas mãos dos pastores e do discernimento caso a caso. Nunca referindo explicitamente que está negado o acesso aos sacramentos, o Papa também nunca refere que o mesmo será disponibilizado para todos, mas deixa pistas sobre aquilo que deve ser a ação dos pastores. «O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém», começa por dizer no ponto 296.




O Papa explica que «é compreensível que se não devia esperar do sínodo ou desta exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos de uma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos.» Este ponto 300 tem uma adenda importante, onde o Papa acrescenta que «também não devem ser sempre os mesmos [as consequências ou efeitos] na aplicação da disciplina sacramental, dado que o discernimento pode reconhecer que, numa situação particular, não há culpa grave. Neste caso, aplica-se o que afirmei noutro documento: A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos.» (Cf. Evangelii gaudium)

Estas considerações podem ser vistas como uma porta que se abre para a integração plena em alguns casos, específicos, desde que bem acompanhados pelos pastores e por um discernimento bem feito, mas nunca poderão ser vistos como regra geral, como o Papa faz questão de frisar também no ponto 300. «Para que isto aconteça, devem garantir-se as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca sincera da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma. Estas atitudes são fundamentais para evitar o grave risco de mensagens equivocadas, como a ideia de que algum sacerdote pode conceder rapidamente “exceções”, ou de que há pessoas que podem obter privilégios sacramentais em troca de favores», indica.

Estas indicações acabam por ajudar também os fiéis a perceberem como proceder se, em situação irregular, pretendem na mesma esta aproximação à Igreja e à vida comunitária. O Papa sugere, no ponto 312, que os fiéis se aproximem «com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor». Por outro lado, convida «os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para as ajudar a viver melhor e a reconhecer o seu lugar na Igreja».

O Papa volta a ser muito crítico quando afirma que «um pastor não se pode sentir satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações “irregulares”, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas». «É possível que uma pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver na graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja (inclusive nos sacramentos, conforme indica em nota de rodapé). 

O Papa adivinha que esta pastoral caso a caso gere alguma resistência por parte de alguns sectores da Igreja, e por isso aproveita para acrescentar no ponto 308 que «compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade: uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa claramente a sua doutrina objetiva, “não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de se sujar com a lama da estrada”».

Texto e Fotos: Ricardo Perna
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