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Papa institui Dia Mundial dos Pobres
21.11.2016
Foi publicada hoje a Carta Apostólica «Misericordia et misera», com a qual o Papa Francisco pretende encerrar o Ano Santo da Misericórdia. Francisco institui o Dia Mundial dos Pobres, confere de forma definitiva a todos os sacerdotes a possibilidade de perdoarem o aborto e alarga no tempo a missão dos Missionários da Misericórdia, entre outras medidas e pedidos.

Ontem, na cerimónia em que encerrou a Porta Santa da Basílica de S. Pedro, o Papa já havia assinado o documento e entregue uma cópia a dois arcebispos (de Manila e Edimburgo); a um diácono permanente, com a sua família; a duas religiosas, do México e Coreia do Sul; a uma família, com pais, filhos e avós; a dois jovens noivos; a dois missionários da misericórdia; a duas catequistas; e a pessoas com deficiência e doentes, procurando, assim, demonstrar como este é um documento para toda a Igreja.
 
A Carta foi hoje apresentada no Vaticano por D. Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, e traz um conjunto de novidades relacionadas com a temática da misericórdia. Francisco tinha permitido que, durante o Ano da Misericórdia, todos os sacerdotes pudessem perdoar o pecado do aborto. Agora, alarga essa faculdade em definitivo. «Para que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário», escreve o Papa Francisco no ponto 12 da Carta.
 
O Santo Padre justifica esta decisão, reafirmando que «o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente», mas acreditando que «não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai».
 
Outra das novidades nesta Carta apostólica é a criação do Dia Mundial dos Pobres, a ser celebrado no XXXIII Domingo do Tempo Comum, o último antes do Domingo de Cristo-Rei, que encerra o ano litúrgico. «Será um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa», pode ler-se no número 21 da Carta. O Papa sugere ainda que este dia deve constituir «uma forma genuína de nova evangelização, procurando renovar o rosto da Igreja na sua perene ação de conversão pastoral para ser testemunha da misericórdia».
 
O Papa decidiu ainda, fruto da «experiência de graça que a Igreja viveu», estender a missão dos Missionários da Misericórdia, sacerdotes que têm a capacidade de perdoar os pecados que estavam reservados ao Papa, para além do ano jubilar. Com este gesto, Francisco procura também diluir a importância da cátedra de Roma, em mais um gesto para que o Papa seja primus inter pares, o primeiro entre os seus pares, e não um chefe da Igreja, colocado num patamar superior. «Este ministério extraordinário não termina com o encerramento da Porta Santa. De facto, desejo que permaneça ainda, até novas ordens, como sinal concreto de que a graça do Jubileu continua a ser viva e eficaz nas várias partes do mundo.
 
Mais um passo na unidade com Fraternidade São Pio X
Apesar de se encontrar fora da comunhão da Igreja, o Papa tinha concedido, numa tentativa de procurar a unidade, a faculdade de absolver dos pecados a todos os sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, decisão essa que agora é alargada até indicação em contrário. «Para o bem pastoral destes fiéis e confiando na boa vontade dos seus sacerdotes para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunhão na Igreja Católica, estabeleço por minha própria decisão de estender esta faculdade para além do período jubilar, até novas disposições sobre o assunto, a fim de que a ninguém falte jamais o sinal sacramental da reconciliação através do perdão da Igreja», diz o Papa no ponto 12.
 
Sobre o matrimónio e a misericórdia, o Papa Francisco fala na necessidade de dar uma «uma palavra de força consoladora às nossas famílias». «A graça do sacramento do Matrimónio não só fortalece a família, para que seja o lugar privilegiado onde se vive a misericórdia, mas também compromete a comunidade cristã e toda a atividade pastoral para pôr em realce o grande valor propositivo da família», diz o Papa. Neste sentido, o Papa pede, em particular aos sacerdotes, «um discernimento espiritual atento, profundo e clarividente, para que toda a pessoa, sem exceção, em qualquer situação que viva, possa sentir-se concretamente acolhida por Deus, participar ativamente na vida da comunidade e estar inserida naquele Povo de Deus».
 
Sacerdotes devem preparar-se bem para o seu ministério
O Papa dedica muitas linhas desta Carta aos sacerdotes. Logo no início, fala-lhes na necessidade de prepararem bem as homílias para as missas. «Quão grande importância adquire a homilia, (…) para fazer vibrar o coração dos crentes perante a grandeza da misericórdia! Recomendo vivamente a preparação da homilia e o cuidado na sua proclamação. Será tanto mais frutuosa quanto mais o sacerdote tiver experimentado em si mesmo a bondade misericordiosa do Senhor», escreve, acrescentando que «a homilia, como também a catequese, precisam de ser sempre sustentadas por este coração pulsante da vida cristã».

Sobre a reconciliação, o Papa também avisa para que os sacerdotes possam preparar bem «o momento em que sentimos o abraço do Pai, que vem ao nosso encontro para nos restituir a graça de voltarmos a ser seus filhos». «Agradeço-vos vivamente pelo vosso serviço e peço-vos para serdes acolhedores com todos, testemunhas da ternura paterna não obstante a gravidade do pecado, solícitos em ajudar a refletir sobre o mal cometido, claros ao apresentar os princípios morais, disponíveis para acompanhar os fiéis no caminho penitencial respeitando com paciência o seu passo, clarividentes no discernimento de cada um dos casos, generosos na concessão do perdão de Deus. Como Jesus, perante a adúltera, optou por permanecer em silêncio para a salvar da condenação à morte, assim também o sacerdote no confessionário seja magnânimo de coração, ciente de que cada penitente lhe recorda a sua própria condição pessoal: pecador mas ministro da misericórdia».

Para o Papa, «nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do seu perdão. É por este motivo que nenhum de nós pode pôr condições à misericórdia; esta permanece sempre um ato de gratuidade do Pai celeste, um amor incondicional e não merecido».
 
Mas as palavras não são apenas para os sacerdotes. «As nossas comunidades abram-se para alcançar a todas as pessoas que vivem no seu território, para que chegue a todas a carícia de Deus através do testemunho dos crentes», diz o Papa, que pede às pessoas que deem «um novo rosto às obras de misericórdia que conhecemos desde sempre», afirmando que «é a hora de dar espaço à imaginação a propósito da misericórdia para dar vida a muitas obras novas, fruto da graça».
 
Esta Carta, que estará disponível para venda em todas as livrarias PAULUS a partir de quarta-feira, dá o mote para a vivência do Ano da Misericórdia para além do encerramento das Portas santas, um pouco por todo o mundo.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: vatican.va
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