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Pior do que a guerra
26.12.2016
Quando nos debruçamos sobre o problema dos refugiados, começamos por sentir uma enorme contradição neste todo que não sabemos bem como acaba. O Sul sobe, assolado pela fome e pela guerra. Foge, emigra sem regras nem documentos. O que está em causa para uma grande maioria é o futuro para os filhos que certamente na terra onde vivem não o encontram. Ou onde persiste a guerra e o terror que não respeita qualquer regra internacional de paz ou mesmo de guerra. Destrói, mata, sequestra, rouba e governa-se. A teoria dos direitos humanos torna-se irrisória neste contexto. Para os nossos lados já nem temos coragem de contar os que caíram em combate, numa guerra que nunca aceitou designar-se com esse nome. Estamos em guerra mundial, já o disse mais do que uma vez o Papa. E não joga com palavras. Entende que esta evasão do Sul se torna uma invasão do Norte e arrasta todos os males que uma guerra cria.

Foi no mar que encontraram o primeiro campo de batalha e foram dizimados aos milhares em parte pelo seu próprio desespero. Foi o pânico de experimentar a morte lenta na sua própria terra que os fez saltar para um barco que já estava superlotado e que certamente não resistiria às ondas numa travessia longa. E assim nos chegam todos os dias novas crónicas, todas imperfeitas, porque não nos narram o que se esconde dentro de cada passageiro desse macabro cruzeiro abalado metro a metro pelo afeto total dos pais pelos filhos e pela agressividade reacendida em cada momento para com os que vivem a mesma aventura de morte, sem um metro quadrado para se movimentarem, como se se tratasse dum amontoado indiscriminado de carga de uma lixeira. Vão-nos chegando notícias vagas e imprecisas que vão dar todas ao mesmo. Mais cem, duzentos, que se afundaram no mar da angústia que transportava famílias inteiras para uma imaginária terra prometida. Mas o cansaço de quem escuta faz rarear a informação de quem produz. Seja qual for o desfecho deste drama, nunca podemos esquecer a dor e a morte que atingiu e atinge irmãos nossos com o mesmo direito à vida, ao pão e a uma pátria.

Aqui chegados, olhamos para os que sobreviveram e conseguiram chegar a terra firme. Só quem já passou situações complexas de viagens marítimas ou fluviais compreende e saboreia o que é a segurança da terra firme e, neste caso, o que poderia significar de recomeço. Mas não significou. Outra guerra se instala para saber quem acolhe, como melhor se invade um país mais rico, como se retoma a dignidade, como se exige respeito pela família que fugiu da sua terra. Que direitos tem? Como exerce a sua liberdade? Como ensaia a sua convivência, frequenta escolas, é acolhido em centros de saúde, como recria o espaço sagrado onde nasceu? Como recupera a alegria de ser criança mesmo que tenha experimentado a fome e todas as carências? Como exprime a sua fé? Como se faz comunidade?

E a comunidade que recebe, como se organiza? Como se garante segurança perante o “invasor” desconhecido? Como se criam condições para que os que chegam enriqueçam o nosso espaço de convivência?
Ingénuas, utópicas todas estas perguntas?

O que sabemos é que a nível institucional tem havido uma morosidade escandalosa no acolhimento e integração dos refugiados. São ainda para muitos, ricos e até pobres, considerados os grandes malditos e indesejados mais próximos do nosso tempo. Sabemos de gestos sábios e generosos que têm surgido entre nós, inspirados na nossa fé e num profundo sentido humanitário. Mas insuficientes e incapazes de superar obstáculos que são lançados de cima.

A questão é clara: por excelentes que sejam as condições de acolhimento, se os corações estiverem desconfiados, faltará o essencial para muitos que, pelo desprezo a que são votados, podem viver numa situação pior do que a guerra de onde fugiram.