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Portugal é campeão de divórcios na Europa
18.04.2017
Os números não enganam, mas podem ser lidos de várias maneiras. No final do ano passado, a PORDATA – Base de Dados do Portugal Contemporâneo da Fundação Francisco Manuel dos Santos – publicou um relatório sobre Portugal na Europa. Os dados relativos à população causaram perplexidade: 3.º país com mais idosos a viver sozinhos, 5.º com mais nascimentos fora do casamento e 1.º em divórcios. Em 2013, por cada 100 casamentos registados houve 70,4 divórcios.

Sofia Marinho é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Esta doutorada afirma que «estes dados são enganadores» e explica porquê: «Se o número de casamentos está a diminuir em Portugal, esse rácio ainda é mais enganador e menor. Em média, dizem os dados do Instituto Nacional de Estatística, os casamentos duram 15 anos.» Esta socióloga da família afirma que o melhor indicador para analisar a realidade do divórcio é a taxa bruta de divorcialidade – o número de divórcios em cada 1000 habitantes.

Olhando para os dados (ver gráfico), percebe-se que «desde 2001/2002, Portugal ultrapassa a média europeia e tem-se mantido desde então acima da mesma. Ao mesmo tempo que isto acontece também diminui o número de casamentos.» Comparando com os países europeus, Portugal é o que tem menos casamentos e o 6.º com mais divórcios.

A realidade portuguesa tem-se transformado, e Sofia Marinho afirma que o aumento dos divórcios está relacionado com uma valorização das relações conjugais. Parece contraditório, mas não é. «Tem que ver com os valores e as atitudes face ao casamento, e esta mudança de valores em que o casamento não é olhado tanto como uma instituição para toda a vida, mas como uma relação que pode ser para toda a vida na condição de que seja gratificante para os dois cônjuges face às expectativas de cada um.» Esta mudança de valores explica também que os casamentos diminuam, mas a união de facto aumente.

Ana Leandro é a autora do blogue Diário de uma divorciada. «Escrevi sobre o divórcio porque senti necessidade de escrever uma crónica e um desabafo», explica. A partilha das suas crónicas na internet coincidiu com o aumento de divórcios. A sua vida profissional tomou um rumo diferente. «Comecei a ter muitas visitas de pessoas que se identificavam com o que eu escrevia, comentavam e, às vezes, geravam-se ali discussões. Pensei fazer o Fórum Divórcio», conta. A funcionar na página de internet sosdivorcio.pt, abriu em 2010. «Ali se discutiram muitos problemas relacionados com o divórcio, pós-divórcio, crises na relação. Na altura estava a terminar o curso de Ciências Sociais e comecei a interessar-me muito por esta vertente profissional, porque não há nada feito nesta área ou muito pouco.»


Esta empreendedora percebeu que gostava mesmo de trabalhar na área e hoje em dia faz mediação familiar e aconselhamento a casais. O sistema de mediação familiar existe desde 2007. Ana Leandro explica que é «um instrumento que permite que as duas partes possam chegar a um acordo sem o recurso ao tribunal». Marido e mulher podem recorrer diretamente a este sistema ou ser enviados pelo tribunal. Mas quando não se conseguem entender, o mediador tenta conseguir um acordo. De acordo com o Sistema de Mediação Familiar, habitualmente esse acordo consegue-se em dois meses.

Além da mediação, Ana Leandro continua com o sosdivorcio.pt e com a página de facebook com o mesmo nome. No acompanhamento de casais, pretende alertar para as consequências do divórcio. «Quando se divorciam, as pessoas tendem a ver apenas a parte boa e, muitas vezes, um divórcio pode ser positivo. As pessoas não são obrigadas a viver uma vida de sacrifício e de infelicidade ao lado de alguém que as maltrata ou que por algum motivo não dá para viverem juntas. Mas também há muitas pessoas que se divorciam a pensar que assim arranjam solução para todos os problemas e não é bem assim.»

Este é um excerto de uma reportagem que pode ler na FAMÍLIA CRISTÃ DE abril de 2017.
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: Cláudia Sebastião e istock

 
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