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Quando o amor e a compaixão levam à dor
02.02.2016
As mãos tremem enquanto pega na chávena de chá. «Confesso que estava com esperança que não viesse», diz-nos, num sorriso que não esconde o nervosismo. Maria, nome fictício para proteger a sua identidade, viveu durante 13 anos uma história de violência doméstica dramática, e conta-nos a história dois anos depois da sua separação. «Tudo começou em 1999, com um e-mail», recorda. De voz trémula, explica que os três primeiros anos da relação foram «marcantes». «Na primeira vez em que aceitei que ele se aproximasse, estávamos numa festa da faculdade e ele disse-me que preferia que fosse noutro dia, porque eu tinha bebido um pouco e não queria que eu fizesse algo de que me pudesse arrepender. Fiquei surpreendida pela positiva nessa altura», mas assim que iniciaram a relação logo viu que as coisas não eram muito normais.

Em lágrimas, a Maria conta-nos duas das situações que mais a marcaram nesses três anos. «Na bênção das fitas, não fomos porque ele não queria ir, mas eu disse que ia jantar com as minhas amigas. Aí começou a questionar se eu gostava mesmo dele, porque é que precisava de estar com outras pessoas. Eu disse que não estava mais para isto, e nessa altura ele disse que se ia matar e começou a correr para o meio da estrada. Eu comecei a chorar, porque efetivamente senti que tinha alguma responsabilidade na vida de outra pessoa. Chorei por mim, porque de certa forma senti que estava a ser manipulada e não conseguia lutar contra isso», lamenta.

Outra foi a primeira agressão física. «Um dia vínhamos de metro e eu ia para casa, mas ele queria ir comprar CD para gravar. Eu disse que estava cansada e queria ir para casa. Em hora de ponta, ele começou a fazer as mesmas críticas com toda a gente a ouvir no metro, ele zangado, e eu, envergonhada. Saí e vinha a subir as escadas do metro quando senti alguém a bater-me no pé. Olhei para trás e percebi que era ele a dar-me pontapés nas canelas. Subi mais depressa e saí. Estava em estado de choque, porque nunca pensei que chegasse àquele ponto de irritação. Já tinha havido apertões na rua, havia muitos pontapés em coisas, quando se irritava, mas em mim nunca tinha acontecido», conta. Foi nessa altura que percebeu que tinha «medo» dele e das suas reações.

Durante esses três anos, a estratégia de coação psicológica esteve sempre presente. «Ele dizia-me que as pessoas não gostavam de mim, tinham outros interesses, a única pessoa que não me iria desapontar ou abandonar era ele. Nessa fase, eu não era tão vulnerável a esta conversa, porque ainda conseguia estar com algumas pessoas. Mas no fim do curso, com todas as pessoas a seguirem a sua vida, já estava tão cheia desta conversa que acabei por achar que ele tinha razão», diz.

Um dos fatores que influenciou a situação foi o facto de Maria ter vindo do interior para estudar na cidade. Sozinha, sem os pais, os amigos ou a família, foi uma presa fácil. «Quando ele me bateu a primeira vez e eu fui para casa a chorar, se tivesse lá os meus pais ou o meu irmão, isto não teria continuado, porque alguém me teria dito algo. Mas eu estava sozinha, a escuridão apoderou-se de mim e entrei em "coma profundo"», conta. Sentindo-a vulnerável, o ainda namorado, chamemos-lhe X, fazia o que queria dela. «Deixei de ir visitar a minha família, inventava desculpas com o trabalho, mas a verdade é que discutíamos tanto por causa disso, e durante tantas horas, que só para não o ouvir aceitava fazer tudo o que ele quisesse», diz. «As decisões eram todas tomadas por ele. A casa que comprámos, o carro, a televisão, a mobília, os filmes que víamos. Eu não podia pôr os pés em cima do sofá em minha casa, caia uma gota de água no chão e alguém me dizia que eu tinha de limpar, já. Alguma coisa fora do lugar, ele dava um pontapé», lembra.
Mas então, porque é que não se veio embora? «Por muito que eu não fosse feliz, eu não achava que conseguisse melhor do que aquilo, deixei-me apanhar na onda negativa dele. Depois de a relação acabar, eu fiquei surpresa com o apoio das pessoas, porque eu estava mesmo convencida de que estava sozinha...», diz, a chorar.

Convivência trouxe ainda mais violência
Depois de cinco anos de namoro, decidem, ou decide ele, morar juntos. «Ele queria casar, mas eu sempre lhe disse que isso era algo que se iria ver mais tarde», conta a Maria. Com a convivência diária, aumentaram os episódios de violência. «Eu tinha medo das reações violentas dele. Quando passámos a morar juntos, ele deu-me pontapés, um murro na cabeça... se eu esticasse demasiado a corda, havia uma reação, e por isso eu fazia tudo para que ele se irritasse o menos possível», relata. Pensou em ter filhos, mas ele não queria.

Em 2010, a situação inverteu-se. Ele aceitou ter um filho, mas só se casassem, o que Maria aceitou. «Quis ter um filho na esperança de que as coisas mudassem. Apesar de conformada... na verdade, acho que nenhuma mulher que seja abusada se conforma, acreditas sempre que alguma coisa vai mudar. E normalmente a outra parte dá-te esperanças sobre a mudança, porque se a pessoa dissesse que não mudava, era mais fácil ires embora», explica.
«Um dia, quando já estava grávida de 7 meses e meio, ele estava a fazer as contas do mês e pediu-me uns recibos da farmácia, e irritou-se porque não os encontrava. Fui ao quarto que já estava preparado para o bebé e tirei o saco das compressas e comecei a atirá-las para o chão, à procura dos recibos. Ele entrou no quarto e deu-me um murro no braço. Eu fiquei atónita e aí percebi que nunca nada ia mudar e eu não ia querer que o meu filho alguma vez visse aquilo, o meu estado emocional ou sequer o que aconteceu a seguir, porque fiquei sem voz», lembra.

O filho precipitou o fim de tudo
É a partir do nascimento do João (nome fictício) que se dá o «clique». «Para uma pessoa sair da situação, principalmente numa relação longa, é preciso um clique. E aqui o clique foi o João, e ter estado em casa a ver os programas da manhã e de vez em quando alguém falar de violência doméstica e eu identificar-me com isso», revela.
Apesar disto, só pensou na hipótese de separação porque um dia a psicóloga, que, entretanto, começou a consultar, lhe perguntou "porque é que não se separa?" «Foi como se ela tivesse descoberto uma possibilidade de que eu nunca me tinha apercebido. Eu pensei, "mas isso é possível? Não acho que seja a melhor saída, eu já aguentei isto durante 13 anos, não pode acabar de uma forma tão simples..." não era uma hipótese, porque ele era a única pessoa que eu tinha. Todas as pessoas tinham a vida delas, e ele fazia-me crer que aquilo que acontecia em casa era normal. "Pensas que as outras pessoas não discutem, não se agridem, não têm problemas?"», dizia-lhe ele.

Três meses depois do nascimento do filho, Maria liga ao irmão. «Liguei ao meu irmão a dizer que precisava de ajuda. Esperei que ele voltasse e encontrámo-nos um dia às escondidas. Depois falei com o X e disse-lhe que me queria separar. Foi um drama, mas desta vez não chorou, nem disse que se ia matar, e as ameaças penderam para o lado do João. «Foram os dez piores meses da minha vida, sem contar com os primeiros três anos da relação», confessa, porque nessa altura tinha receio da «retaliação e só queria garantir a segurança do filho».

Foram a dois terapeutas familiares, que de nada adiantaram, e o receio de que algo acontecesse ao João tornava-se cada dia mais real. «Quando discutíamos, eu tinha de implorar que ele me deixasse ir dar de comer ao João, porque ele não queria saber, só queria que eu dissesse que estava tudo bem e que ia ficar ali com ele, e eu tinha de dizer isso para conseguir tratar dele. Cheguei a vê-lo a olhar para o menino no berço e dizer-me "vou-te fazer em picadinho, nem sabes", falando para mim, mas olhando para o filho, com um olhar que parecia o Diabo», conta.

Um dia, as coisas tornaram-se bem físicas. «Estávamos na cozinha a discutir, eu saí para me vir embora de lá, ele pegou em mim, atirou-me ao chão e apertou-me o pescoço. Uma das vezes apertou-me o pescoço e começou a sangrar da boca, porque a tentar controlar a força das mãos mordeu-se a ele próprio», relembra, ainda chocada com a lembrança do que lhe tinha sucedido.
Apesar de nunca ter havido abuso sexual, teve de trocar sexo por outras contrapartidas. «Obrigou-me uma vez a ter relações sexuais sem eu querer. Foi como contrapartida, para eu conseguir ir ver os meus pais. Foi negociado, portanto...», lamenta.

Estava tudo planeado para a saída, mas um dia as coisas precipitaram-se. «Um dia ao jantar, por causa de qualquer coisa, ele deu um murro na mesa e o João começou a chorar. Eu levantei-me e tirei-o da cadeira para sair da cozinha. "Temos de conversar", "eu não vou conversar agora que o bebé está a chorar", "passa-me o bebé", e agarrou nele, eu estiquei a mão para o telefone e ele bateu-me na mão. "O que estás a fazer?", "nada, só quero sair daqui" e tentei passar por ele, mas ele bloqueou-me a saída. Dei-lhe um tabefe na cara e fui a correr até à sala, com ele atrás de mim, abri a janela e gritei por socorro. Não ia aguentar aquilo mais», conta.

Refazer a vida sem olhar para trás
Dias mais tarde, saiu mesmo de casa com o João e os dias seguintes foram passados no pânico de que X lhe fosse buscar o filho. Apercebeu-se depois de que a primeira preocupação dele tinha sido outra: transferir todo o dinheiro da conta conjunta que tinham para algum lugar que até hoje Maria desconhece. «Só depois de me roubar é que foi à polícia fazer queixa que eu me tinha ido embora com o filho», conta, de forma triste. No tribunal, a questão da paternidade também foi fácil de resolver, já que quase não havia testemunhas que abonassem a favor dele, e as que o faziam mentiam e foram desmascaradas. Foi emitida uma proibição de contacto e hoje nem sequer a entrega do filho, de 15 em 15 dias, pode ser feita por ele.

Dois anos depois, "só" falta tratar das questões das partilhas dos bens, e a vida da Maria está a retomar o curso de onde nunca deveria ter saído. «Tenho muitos comportamentos reflexos. A primeira dificuldade foi deixar de responder a todas as atitudes das outras pessoas como se fossem negativas, e começar a aceitar que isto é que é normal, começar a desconstruir. Demorou algum tempo, mas esse trabalho está feito. Ainda não refiz a minha vida afetiva, e isso vai ser outro problema. Quando a outra pessoa me criticar sobre alguma coisa, saber se vou ter o mesmo reflexo negativo em relação à crítica», confessa.

Agora que está livre de tudo, apesar de ainda ter de conviver com ele por causa do filho, não consegue perder o sentimento de culpa. «Culpo-me porque não respondi aos sinais atempadamente, porque a relação acabou e eu não consegui fazer com que as coisas tivessem tomado o melhor rumo».
Ajudar outras pessoas é o objetivo deste testemunho, embora Maria saiba que vai ser difícil ajudar quem ainda não teve o clique. «Eu sei como é que o mecanismo funciona. Se a pessoa não estiver desperta, ela não te vai querer ouvir. Foi o que o meu irmão me disse: "quantas vezes te disse?", e na verdade a pessoa sabe. Ela não consegue sair do coma, mas ela sabe. Eu sabia que vivia assim, só não sabia que conseguia pôr um fim nisto», afirma.

Não sendo ainda capaz de encarar cara a cara uma pessoa abusada para a ajudar - «não vê o que eu chorei este tempo todo? Ia ser péssima», graceja, enquanto limpa a face -, não deixa de responder ao repto lançado: o que dizer a quem está nessa situação? «Não há soluções mágicas; a pessoa não vai mudar; o importante é salvares-te a ti. Tenta perceber se ainda conheces quem és, porque se já não conheces, é porque já te perdeste algures e precisas de te encontrar outra vez, e o caminho que estás a seguir já não tem saída». Palavras que devem ecoar no espírito de quem está nesta situação, e fazê-los tomar a iniciativa de pegar no telefone e pedir ajuda.

 
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