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Quando tudo arde
18.12.2017
Que acontecimento público mais me entristeceu no ano de 2017, quase a terminar?
Diria que, ainda mais do que os trágicos incêndios que mataram mais de cem pessoas e destruíram milhares de hectares de floresta e culturas agrícolas, e reduziram casas e fábricas a cinzas, é o que antevejo.
Retiradas as câmaras de televisão e os microfones da rádio, isto é, devolvido àquelas regiões o seu tradicional abandono e ancestral esquecimento, o que restará?

Lembro, por isso, o verso de Sá de Miranda que deu título a um livro de António Lobo Antunes: Que farei quando tudo arde?

Tomada no sentido literal, terá sido esta a frase que ecoou nas mentes das centenas de pessoas atingidas por esta catástrofe.
Além daquilo que o fogo levou, ardeu também a confiança no Estado e nos poderes públicos, pagos para protegerem os cidadãos.

Foi incinerada a confiança nos políticos, que choraram lágrimas de crocodilo como penitência por décadas de incúria e de irresponsabilidade.

Ardeu a esperança, derreteram-se convicções.

Claro que se seguiram demissões, relatórios, comissões de inquérito, etc., etc., etc.

Enfim. Resta saber agora as cenas dos próximos capítulos. E esperar pelo verão do próximo ano.

O fogo, na sua imparável força destruidora, mostrou-nos as cinzas de um país interior que se descobriu indefeso e assustadoramente frágil.

Mas, este é o mesmo país da Web Summit, das energias renováveis, das autoestradas com Via Verde e dos milhões de telemóveis.

Somos, por isso, o país do tudo e do nada.

Somos o país que quer abraçar o futuro, mas está preso num presente que não lhe liberta os dois braços.

«Ai Portugal, Portugal. Tens um pé numa galera, outro no fundo do mar», como canta Jorge Palma.

Ou ainda o Portugal Futuro, de Ruy Belo:
«Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro.»

Agora que os holofotes se apagaram e o interesse da comunicação social se vira para outras paragens, resta às populações atingidas cuidarem de si, ajudadas, é certo, por manifestações sinceras de solidariedade, mais privadas que públicas.

Mas não tenho dúvidas de que serão as pessoas que terão de se reerguer, começar do zero, apesar da avançada idade de muitas delas.

No Natal, o Presidente da República vai visitar as regiões mais atingidas pelos incêndios e o assunto regressará às primeiras páginas.

Marcelo Rebelo de Sousa vai cumprir a promessa feita na primeira hora, quando mostrou que os afetos contam se forem secundados por ações concretas.

Até lá, vale a eterna paciência daquelas gentes, com as rugas cavadas e os olhos perdidos, como vimos em imagens de uma beleza lancinante. Em que lugar no horizonte pousavam esses olhares?

Que esperança lhes resta?

Regresso ao poema de Sá de Miranda:
«Então não tem lugar certo onde aguarde Amor;
Trata traições, que não confia nem nos seus.
Que farei quando tudo arde?»