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Rápidos no gatilho
28.03.2017

Vivemos na época da tecnologia, das viagens de turismo ao espaço, dos milagres da ciência, mas evoluímos pouco no lado mau da essência humana.
Adoramos a imagem, pensamos nela ao pormenor, andamos impecavelmente vestidos, mas temos todos muita falta de gosto e muita falta de vista. Só que é do lado de dentro e esse não se vê tanto.
Mas se fizermos o esforço para o ver, acho que acabamos todos um bocadinho envergonhados, porque conjugámos mal as cores da fatiota, para além de passarmos a ver que ela tem algumas nódoas. Já para não falar da sofisticação do design de moda atual, que afinal são apenas umas nada delineadas túnicas de fariseus.
Ainda somos muito fariseus, admitamos.

Vem toda esta ironia “amarga”, a propósito de uma das imagens do último atentado em Londres, que ocupou o tempo (nada precioso, ao que parece), a paciência (pelos vistos infinita), e o coração (o que é lá isso?) de muitos internautas (vá lá, os nomes também têm de evoluir) e, para minha grande tristeza (mais uma vez), de alguns órgãos de comunicação social.
Ora, acontece que, no meio da tragédia que foi o acontecimento em que se perderam vidas, alguém vislumbrou uma tragédia ainda maior no suposto ar despreocupado de uma senhora… (suspense propositado para uma teatral “teoria da conspiração”)… muçulmana.  Tudo isto baseado numa fotografia! (que atire a primeira pedra quem nunca se queixou de que uma fotografia o desfavoreceu, ou que tenha ficado de boca aberta com o garfo na mão, mas na verdade não ia levá-lo à boca, estava só mesmo a falar…).

E é isto! Baseados numa fotografia, choveram comentários e posts, revelando uma profunda indignação por aquela expressão facial captada naquela fração de segundos (e que, portanto, conta a história toda, é completamente objetiva e contextualizada, obviamente!). “Pingaram” também algumas peças em alguma imprensa com profundas reflexões filosóficas sobre o que dizia aquela cara.
Porque o que é que interessa se aquela senhora ajudou alguém naquele momento? Ou se estava a telefonar à família para dizer que estava bem, e para chorar com eles o que tinha acabado de presenciar? Isso não interessa nada. Não está na fotografia, por isso, não existe!

Somos todos tão rápidos no gatilho (quer-se dizer, no clique), no julgamento, no apontar o dedo, porque alguém não se “apresenta” de acordo com as normas absolutamente  perfeitas que criámos. Somos todos tão rápidos a criar vilões.
E nem era preciso, os que existem já deviam dar-nos pano para mangas, já nos deixam espaço mais do que suficiente para debatermos os males do mundo. Como aquele que originou a fotografia. Não, não estou a falar da senhora. Estou a falar do homem que deixou aquelas pessoas, que outros estavam a ajudar (dizem os rápidos no gatilho), ali, feridas no passeio. Lembram-se? Era essa a mensagem principal da fotografia. Claro que se lembram, então! Mas alguém se ia esquecer daquelas pessoas feridas, para se concentrar numa personagem secundária? Isso era o mesmo que dizer que essa pessoa seria parecida com aquela que está (porque os mesmos rápidos no gatilho garantem que estava) despreocupada com um telemóvel. Seria, não seria?