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Refugiados participam nos Jogos do Rio
05.08.2016
Pela primeira vez, haverá uma Equipa Olímpica de Atletas Refugiados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. São dez refugiados de quatro países diferentes. Em comum têm terem sido obrigados a abandonar os seus países por cuasa da guerra ou perseguição.
 
Quem são?
Dois são nadadores sírios, dois judocas da República Democrática do Congo e seis corredores de África (um etíope e cinco do Sudão do Sul):
Rami Anis, 25 anos, da Síria participará na prova de natação, 100 metros borboleta – masculino. Começou a praticar natação em Alepo quando tinha 14 anos. «A natação é a minha vida. A piscina é o meu lugar», diz Rami num vídeo divulgado pelo ACNUR (Alto-Comissariado da ONU para Refugiados). Quando os bombardeamentos se tornaram mais frequentes, a família enviou-o para Istambul para viver com irmão mais velho. Um dia, decidiu entrar num bote insuflável em direcção à Grécia. Finalmente, chegou à cidade belga de Gante, onde treina nove vezes por semana. «Com a energia que tenho, estou certo de que poderei alcançar os melhores resultados. Será uma sensação maravilhosa poder ser parte dos Jogos Olímpicos.» 
 
Yusra Mardini, da Síria, participa na prova de natação, 200 metros livres e vive na Alemanha. É a mais nova da equipa: tem apenas 18 anos. A sua história de vida é incrível. Quando o barco em que se encontrava com outros 20 passageiros começou a meter água, perto da costa da Turquia, Yusra Mardini lançou-se à água com a irmã Sarah. As duas nadaram, puxando a embarcação até à Grécia. Yusra conta que «havia gente que não sabia nadar». Da ilha de Lesbos, foi até ao norte da Europa com outros requerentes de asilo, recorrendo até a traficantes de pessoas. Chegou à Alemanha em Setembro de 2015. A sua meta para os Jogos Olímpicos está estabelecida: «Quero representar todos os refugiados porque quero demostrar a todo o mundo que, depois da dor, depois da tempestade, chega a calma. Quero Servir-lhes de inspiração.» 
 

James Nyang Chiengjiek é do Sudão do Sul e vive no Quénia. Participa na prova de atletismo, 400 metros. James tem 28 anos e aos 13 teve de abandonar o seu país para evitar ser menino-soldado. Refugiu-se na vizinha Quénia. Foi lá que começou a treinar com um grupo de homens mais velhos. «Foi aí que me dei conta de que poderia triunfar como corredor. Se Deus te deu um talento, deves utilizá-lo», diz em declarações ao ACNUR. No princípio corria descalço ou com sapatos de outros rapazes. Participando nos Jogos do Rio, James quer «ajudar outros, especialmente os refugiados». 
 

Yiech Pur Biel é do Sudão do Sul e também vive no Quénia. Correrá os 800 metros de atletismo e tem 21 anos. Fugiu em 2005 do seu país. No campo de refugiados do norte do Quénia começou a jogar futebol, mas depressa descobriu o gosto pelo atletismo. «No acampamento de refugiados não há meios nem instalações, nem sequer temos sapatos. Não há ginásio.» Mas Yiech não desanima: «Faço-o pelo meu país, Sudão do Sul, porque nós, a gente jovem, somos quem pode mudar a situação. Faço-o também pelos meus pais, para mudar a sua vida.» 
 

Rose Nathike Lokonyen também é do Sudão do Sul e vive no Quénia. Participa na prova feminina dos 800 metros de atletismo. Tem 23 anos e só começou a correr depois de ter fugido do seu país aos dez anos. Foi num acampamento de refugiados que participou numa prova de 10 km. Agora participará nos Jogos Olímpicos do Rio. «Representarei o meu povo no Rio e talvez, se conseguir alcançar o meu objectivo, possa organizar uma corrida para promover a paz e unir as pessoas.» 


Anjelina Nada Lohalith tem 21 anos. Aos seis teve de abandonar a sua casa e os pais no Sudão do Sul por causa da guerra. Nunca mais os viu nem falou com eles. Vive no Quénia e correrá os 1500 metros. Soube ser boa a correr quando ganhou uma competição escolar no campo de refugiados onde vive no norte do Quénia. Acabou seleccionada para um campo de treino especial. Luta para ter um bom resultado no rio de Janeiro e ganhar dinheiro. «Quando tens dinheiro, é quando a tua vida pode mudar.»


Paulo Amotun Lokoro, do Sudão do Sul, corre os 1500 metros. Tem 24 anos e vive no Quénia. No seu país era pastor, agora faz parte da equipa de refugiados que treina parto de Nairobi. «Antes de vir para aqui, nem tinha sapatos para treinar. Agora temos treinado para alcançar um bom nível. Funcionamos perfeitamente como atletas.»
 




Yonas Kinde é da Etiópia e vive no Luxemburgo. Participa na maratona. Yonas tem 36 anos e é taxista. Sobre a vida no seu país diz que «é uma situação difícil, para mim é impossível viver lá, é muito perigoso». 
 







Yolande Bukasa Mabika, da República Democrática do Congo, é judoca e vive no Brasil. Quando era apenas uma menina foi separada dos pais por causa dos combates e acabou vivendo num centro para crianças deslocadas. Foi aí que descobriu o judo: «Deu-me um coração mais forte. Vi-me separada da minha família e chorei muitíssimo.» Em 2013, participou no Campeonato Mundial de Judo. Como habitualmente, o treinador ficou com o seu passaporte e não lhe dava comida. Farta dos maus-tratos, Yolande fugiu do hotel e pediu ajuda. Agora é refugiada no Brasil. 
 


Popole Misenga também é judoca da República Democrática do Congo. A sua história é idêntica à de Yolande. Aos nove anos fugiu de casa e descobriu o judo num centro para crianças deslocadas. «Uma criança precisa de uma família que lhe diga o que deve fazer, mas eu não a tinha. O judo ajudou-me a ter serenidade, disciplina e compromido.» Como Yolande, era fechado numa gaiola pelo treinador se perdia alguma competição e tinha acesso limitado a comida. No Campeonato do Mundo de 2013, no Rio de Janeiro, fugiu e pediu asilo. 
 
«Mensagem de esperança» para todos os refugiados
Estes atletas «tiveram as suas carreiras desportivas interrompidas após serem forçados a abandonar os seus países devido à violência e à perseguição». Em comunicado, o Alto-Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, afirmou que «agora, estes atletas refugiados de alto nível finalmente terão a oportunidade de seguir os seus sonhos. A participação deles nas Olimpíadas é o resultado da coragem e perseverança de todos os refugiados que se esforçam para superar as diferenças e construir um futuro melhor para eles e para suas famílias».

O ACNUR salienta que a equipa de refugiados «envia uma forte mensagem de apoio e esperança para os refugiados de todo o mundo. Esta iniciativa chega no momento em que, mais do que nunca, milhares de pessoas têm sido forçadas a deixar as suas casas por motivos de conflitos armados, violação de direitos humanos ou perseguição».
Estes atletas refugiados vão competir em nome do Comité Olímpico Internacional, sob a bandeira olímpica.
 
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: ACNUR
 
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