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Rezar com crianças: Tão natural como a sede de Deus
21.12.2016
Na casa da família Power, oração rima com naturalidade. Teresa e Niall são pais de sete filhos, «seis vivem connosco e um já está no céu, têm entre 4 e 18 anos». A mãe explica que nunca ensinou nenhum a rezar. «Aprende-se ao colo, olhando para o pai e a mãe a rezar, imitando-nos.» Foram aprendendo, rezando com os pais, «enquanto mamavam ou brincavam».



A seguir ao jantar, a família junta-se para rezar de forma mais formal. Teresa sorri ao explicar como fazem. «A oração de uma família não é como a oração num convento, não é? Temos sempre momentos de alegria, de dança, músicas com gestos. Depois a leitura da Palavra da Missa diária. E recontamos a história de modo a que os mais pequeninos possam entender.» Seguem-se as intenções e o terço. No total, cerca de 20 a 30 minutos. Uma dica: todos devem ter um papel ativo e todos têm o direito de falar sem serem interrompidos.


São dez da manhã quando chegamos ao Centro Comunitário Paroquial de Rio de Mouro, no concelho de Sintra. Na sala Rainha Santa Isabel, crianças de quatro anos estão sentadas no chão, em roda e com pernas “à chinês”. Rosa Santos, a educadora, vai perguntando às crianças: «O que fazem quando estão aborrecidos ou zangados?» David responde: «Vou para ao pé do Jesus. Falo com o Jesus.» Outra criança continua: «Fechamos os olhos quando estamos zangados.» Apontam para o cantinho onde está o menino Jesus. E seguem as explicações: fecham os olhos «porque ficamos mais perto de Jesus, porque não há barulhos» e «tem de se falar baixo». «E o que dizem ao Jesus?» Alia avança: «Jesus, ajuda-me a ser amiga.» Sami conta que «o Gabi não me deixava jogar e eu fiquei triste, e fui falar com o Jesus. Fechei os olhos e pedi para me ajudar.» Junta as mãos para mostrar como fez.
Na sala, há um espaço especial: o cantinho de oração ou “do Jesus”, como lhe chamam as crianças. Sobre uma mesa baixa, repousa o menino Jesus, uma Nossa Senhora e flores. A toalha é colorida com pinturas das mãos das crianças. No Advento, ganha novas cores e uma dinâmica própria.

No Patriarcado de Lisboa, o projeto Despertar da Fé acompanha o despertar religioso das crianças em idade pré-escolar. Neste centro comunitário, a partir dos três anos as crianças começam a ouvir falar de Jesus. As educadoras participam nas formações e aplicam o projeto, mas também têm iniciativas próprias.

Lídia Leal é a coordenadora pedagógica. Pergunto se faz sentido falar de Jesus a crianças de três anos. A resposta sai disparada: «Claro que faz sentido! Vemos que eles vão ao cantinho de oração e veem a mãe e o pai do Jesus e Jesus. “É como se fosse eu bebé, o meu pai e a minha mãe.” Vão lá, fazem uma festinha, dão beijinhos.»

A Ir. Maria José Bruno, coordenadora do Despertar da Fé do Patriarcado de Lisboa, explica que o Espírito Santo «chega antes de quem educa e de qualquer ação ao coração da criança e, por isso, nos surpreende o modo como muitas crianças reagem. O cristão adulto é chamado a acompanhar.» Ou seja, rezar com elas é reconhecer que têm em si mesmas a capacidade de desejar Deus e de um encontro ou relação com Ele.

A Ir. Maria José explica que «antes dos três anos o que se proporciona é a relação afetiva, o ambiente». Isso pode ser conseguido criando um ritual: «Apagar todas as luzes e deixar que a luz da vela seja a luz que alumia, para a qual olhamos uns segundos, deixando-nos concentrar por ela, trazendo-a para o nosso coração. O cântico que se repete diante da luz, as palavras de louvor, de interioridade, de petição...», sugere.

Por estes testemunhos já se percebeu que não há idade para começar a rezar com crianças. E ir à Missa? Teresa Power sempre levou os filhos. Esta mãe sublinha que estar na Missa com crianças exige que «sacerdotes e paroquianos aceitem o ruído das crianças. Uma criança não se pode comportar como um adulto, temos de aceitar que se mexa.» Já os pais devem fazer do centro o Senhor e não os filhos.
Despertar da Fé no Centro Social Paulo VI
Há estratégias que os Power utilizam para manter os mais pequenos integrados na celebração ou na oração. «Eles gostam de levar um caderninho para desenhar na Missa, lápis de cor, canetas, etc. Em casa, quando rezamos o terço, os mais pequenos perguntam se podem desenhar os mistérios. Nós passamos as contas e, se são os mistérios da alegria, eles vão desenhando os anjinhos. Ficam calmos e concentrados no mistério de Deus.»

Os pais queixam-se sempre de dias muito atarefados. Mas a desculpa de não ter tempo não convence Teresa. «Ninguém pergunta se tem tempo para comer ou tomar banho, pois não?»
 
Texto: Cláudia Sebastião
Fotografias: Ricardo Perna/Família Power/Obra Social Paulo VI

 
Excerto de uma reportagem publicada na edição da FAMÍLIA CRISTÃ de dezembro de 2016.

Ouça aqui os meninos do Centro Comunitário e Paroquial de Rio de Mouro cantar uma música para pedir o Pão por Deus:


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