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Ser pai: Ajudar a construir um ser
19.03.2015
Não se conheciam até ao dia em que se encontraram para falar da experiência que é ser pai, e ainda antes de começarmos a nossa conversa, o “pai-avô” presente alertou-nos que não estava ali para ensinar nada a ninguém, estava apenas para ser comunhão. Porque isto de ser pai é uma aprendizagem constante.
 
Armando Dilão e Óscar Daniel: pais de gerações diferentes
«Ai de mim se eu não tiver essa capacidade e é isso que peço todos os dias a Deus, que me dê a capacidade de aprender. Ainda estou a crescer», diz-nos com o seu sorriso de avô.
Responde pelo nome Armando Dilão. É diácono há 24 anos. «Tenho uma filha que vai fazer 49 anos, tenho outra com 40 anos, tenho 3 netas, uma com 23 anos, outra com 21 anos e tenho a Maria que vai fazer 3 anos daqui a meses.»

O seu companheiro de testemunho iniciou há menos tempo a sua caminhada de pai e tem ainda muito presente o seu papel de filho. Óscar Daniel é locutor de rádio, está atualmente num programa da manhã e é pai de uma criança com quase 3 anos.

Óscar e Armando concordam que o perfil de pai se tem vindo a alterar, porque as mudanças na sociedade assim o exigem. É por isso que ambos consideram ser tão importante estar atento às mudanças e saber escutar.
Consideram que, gradualmente, o pai tem ganhado um espaço na vida dos filhos que não existia há anos. E tem sido possível experimentar essas alterações nas próprias experiências de pai e de avô.

Embora tenha tido um pai próximo, o que lhe abriu caminho para ser o pai que é para o seu filho, Óscar concorda que duas das principais mudanças no perfil de pai foram a de pai austero para um pai próximo, a de um pai passivo para um pai ativo, a de que um pai que não chora para um que o faz, como diz a música, «quando assim tem de ser».
 
Armando Dilão é «pai-avô»
«Nunca saboreei cumplicidade com a minha filha»
A presença do diácono na sala atesta a teoria deste pai dos tempos modernos. «Eu estava a ouvir o Óscar e estava a fazer um regresso às minhas origens, à minha infância. Não tive um pai austero, contudo, tinha a mãe em casa permanentemente. E reparem uma coisa, eu, como pai, também tive a minha mulher em casa, visto que a minha mulher só foi trabalhar quando a nossa filha mais nova foi para a escola» confirma Armando Dilão.

Embora também não considere que tenha sido um pai austero, o pai-avô presente reconhece que a relação que estabeleceu com as suas filhas não é igual à dos pais de hoje, mas ao invés de lamentar os seus tempos, que não lamenta, o diácono aprende a saborear os tempos dos outros e fica «encantado» com a vivência dos pais modernos. «Estou a fazer um aprendizado muito belo com o meu genro, pela forma como ele trata a filha. A cumplicidade que há entre o pai e a filha, coisa que eu nunca saboreei! Mas que estou a saborear agora.»

Em jeito de brincadeira, e por comparação ao genro, recorda a sua falta de experiência na área de cuidados de higiene infantil. «Eu que nunca mudei uma fralda a uma filha, eu que nunca mudei uma fralda. E quando a minha neta um dia queria que eu lhe mudasse a fralda não calculam a história que eu arranjei para fugir a esse pormenor.»

Óscar Daniel já mudou centenas de fraldas ao filho
Ser pai também é mudar fraldas
Óscar já mudou centenas de fraldas, aprendeu a cozinhar e sabe que em pormenores tão pequenos como estes estão espelhadas as alterações no perfil do pai. «Creio que hoje, tanto a mãe como o pai têm uma abertura maior no sentido de se relacionar com os filhos sem termos aquela ideia já formada de que há assuntos que só a mãe é que vai tratar e outros assuntos que só o pai é que vai tratar. Há obviamente papéis distintos, da mãe e do pai, isso sem dúvida», defende.

Poder-se-ia dizer que com um papel mais ativo, maior proximidade com os filhos, maior cumplicidade e partilha entre pais e filhos e pai e mãe, fosse mais fácil ser pai hoje do que antigamente. Estes dois pais consideram que não se pode afirmar isso. O que há é desafios e preocupações diferentes e também uma preparação diferente.

«Deus dá a roupa consoante o frio. Creio que vós estais a viver o vosso tempo e estais preparados para viver o vosso tempo. E a nós resta-nos a consolação de tudo aquilo que vos transmitimos, quer de bom, quer de mau. Mas isso é que é o grande valor, é nós darmos a capacidade aos nossos filhos de fazerem uma opção e de dentro dos vários patamares etários eles saberem assumir as responsabilidades», acredita Armando Dilão.

O diácono reconhece que os desafios eram diferentes e nada tinham a ver com os dias de hoje. As coisas corriam com muito mais serenidade, não havia tantas e tão fortes interpelações como há hoje. Há 30 anos não tínhamos um telemóvel.»

Óscar também entende que desafios diferentes não significam uma vida mais ou menos facilitada, até porque a responsabilidade é sempre a mesma. «Creio que os desafios são diferentes, mas esta responsabilidade de amar, educar, e este amor de pai e mãe é de facto um amor muito evangélico, porque é de facto um amor incondicional. Ter esta capacidade de amar como um pai e uma mãe amam, creio que está presente em todas as gerações.»

«Os filhos são de Deus»
O maior desafio de todos, acredita, é transversal a todas as gerações. «Os nossos filhos são antes de mais filhos de Deus e Ele confiar-nos um filho d’Ele para nós o criarmos é um gesto de amor tremendo. E é uma responsabilidade muito grande também», constata, acrescentando que o assumir dessa educação e dessa construção de um ser humano é a maneira «de nos realizarmos a nos próprios».

O caminho, esse, é o do amor. «Acho que muito daquilo que nós somos é construído em casa e aquilo que é construído em casa vai-nos suster ao longo de toda a vida. O que eu julgo, que eu e a minha mulher tentamos é que o nosso filho perceba que tudo se constrói com base no amor, porque se ele levar isto pela vida, seguramente, por mais que veja deserto, há de encontrar sempre algo de muito bom», acredita Óscar.

Na missão de construir seres humanos, o diácono Armando Dilão oferece a experiência dos avós. «Os avós não têm reforma. Podemos ser aposentados de vidas profissionais, mas como avós nós somos o garante nos tempos de hoje, na vossa ausência, nos vossos trabalhos, nas vossas obrigações, nas vossas responsabilidades, nós temos de estar ali firmes. Se nós realçarmos esta realidade da família, estamos a ajudar a transformar o mundo. Estamos a pensar em todos os outros que constituem a grande família de que Deus nos deu a alegria de fazer parte.»
 
Texto: Rita Bruno
Fotos: Ricardo Perna
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