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«Silêncio», a nova obra-prima de Scorsese
10.01.2017
Estreia esta semana o novo filme de Martin Scorsese. Silêncio é a adaptação ao cinema do romance de Shusaku Endo com o mesmo nome. Conta a história de dois padres jesuítas portugueses que partem para o Japão à busca do Pe. Cristóvão Ferreira, que teria renunciado à sua fé. Baseado em factos históricos, mas centrada numa história que não representa a verdadeira história da evangelização do Japão.

 
Na altura do Xogunato, no século XVII, os jesuítas são expulsos do país. A expulsão em 1639 é pacífica, mas o problema foi quando os governantes japoneses se aperceberam de que muitos sacerdotes jesuítas tinham ficado no país, operando os seus trabalhos missionários na clandestinidade. Um deles era o Pe. Cristóvão Ferreira. «O Pe. Cristóvão Ferreira foi um dos que quis ficar quando os jesuítas foram expulsos. Ele foi o último provincial da região, sucedendo ao Pe. Sebastião Vieira. Uma das coisas importantes que o Pe. Ferreira fazia era a escolha dos vinhos para celebrarem Eucaristia, e não sabemos se não terá sido isso que o denunciou, porque o vinho não fazia parte da cultura gastronómica do país», conta o Pe. António Júlio.
 
Capturado pelas autoridades, o Pe. Ferreira foi sujeito a tortura para que renunciasse à sua fé, assim como muitos outros sacerdotes nessa altura. «É preciso compreender que o tipo de tortura foi inventado especificamente para obrigar os cristãos a renunciar à fé. Era a fossa. Eles eram presos pelos pés, abria-se um buraco na terra, a cabeça era lá enfiada e eles ficavam pendurados de cabeça para baixo. Para piorar, atavam o corpo de maneira a que o sangue não fluísse todo de imediato para a cabeça, fazendo com que o sofrimento fosse prolongado. Podiam estar três a cinco dias nisto, e perdiam completamente o juízo porque estavam sujeitos a uma pressão e dor fortíssimas.» Foi neste contexto que o Pe. Ferreira renunciou à sua fé, mas a verdade é que foi dos poucos sacerdotes torturados que o fizeram. «É importante perceber que estamos a contar a história de um grupo de cinco ou seis sacerdotes jesuítas que, sendo torturados, abjuraram, num contexto de 205 que morreram mártires e que não abjuraram, os conhecidos mártires de Nagasáqui», reforça o Pe. António Júlio.

 
O filme aborda esta questão, sob o ponto de vista de dois jesuítas portugueses, que nunca existiram, que partem para o Japão à procura do seu mentor. «O Pe. Cristóvão Ferreira é real, mas os companheiros que o tentam resgatar são ficcionados, com base nas personagens que, de facto, tentaram ir resgatá-lo. Houve três tentativas para o fazerem, com sacerdotes que não são portugueses. As personagens do filme são inspiradas na figura do Marcelo Mastrilli. São embaixadas terríveis, porque eles são presos e mortos assim que chegam ao Japão. Acho estranho que o autor do romance tenha atribuído nomes portugueses a esses sacerdotes, mas não sei explicar porquê.»
 
A 29 de novembro, o filme teve antestreia perante uma plateia de 400 sacerdotes jesuítas. No meio de todos os sacerdotes estava um português, o Pe António Ary. «O filme é muito intenso, a história tem muita força e é difícil deixar indiferente... embora também provoque sentimentos contraditórios. Por um lado, a admiração e compaixão diante de uma experiência de fé tão radical, como a vivida pelos cristãos do Japão, durante os tempos de perseguição... Mas o centro do filme é a fé posta à prova até ao limite, o "silêncio" de Deus e a fragilidade humana na resposta», disse à FAMÍLIA CRISTÃ, depois de assistir à antestreia.
 
Pensando no facto de a história se centrar numa personagem que renunciou à sua fé, poder-se-ia pensar que seria um filme de crítica, mas tal não sucede, segundo o Pe. António Ary. «Não diria crítica... sim, um "outro lado", menos ou nada "glorioso", mas por isso também menos conhecido. Não se escrevem livros, não se celebram missas, não se recordam nomes de quem diante da perseguição e da tortura não encontrou a força para permanecer firme... mas qual é o cristão que pode dizer que "aguentaria"?», questiona.
 
O Pe. António Júlio dá uma achega histórica para enfatizar esta mesma questão. «Estes pedidos para serem soltos, em troca da apostasia, não dizem muito de uma perda de fé, diz é que as pessoas sujeitas a uma tortura tão forte e dolorosa perdem o discernimento», acredita, referindo que a própria vida do Pe. Cristóvão depois disso é reveladora de um sentimento de arrependimento pelo gesto. Não há muitos registos, mas há alguns mitos. «Sobre ele, há muitos testemunhos posteriores que são contraditórios, sobretudo de mercadores. Esteve muitos anos em Nagasáqui, e para o obrigarem a fazer uma vida japonesa arranjaram-lhe uma mulher. Mas tudo é duvidoso, porque os mercadores que se encontravam com ele diziam que lhe tinha sido imposta aquela mulher», afirma.


Sobre o final da sua dúvida há ainda mais dúvidas. «O fim do Pe. Ferreira tem várias narrativas e acho que nunca se saberá qual a verdadeira. Temos testemunhos em segunda mão dos holandeses, que dizem que ele se manteve assim até ao final da vida, e há os testemunhos dos mercadores espanhóis e portugueses, que continuaram a ter contacto com ele e que dizem que, no final, ele se arrependeu dessa declaração de apostasia e que as autoridades japonesas, sabedoras disso, o vieram buscar e acabou por morrer da mesma forma, na fossa», diz o historiador jesuíta.
 
Mais informações sobre a história do Pe. Ferreira e do próprio filme podem ser lidas na edição de janeiro da revista FAMÍLIA CRISTÃ.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: NOS Audiovisuais

 
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