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Sílvia Cardoso, o «tufão» de Deus
20.03.2016


Nunca sabemos como seria a nossa vida se certos acontecimentos não tivessem tido lugar. Podemos imaginar, e muitas vezes fazemo-lo pensando como seria diferente... ou não. No caso de Sílvia Cardoso, uma «benemérita social e apóstola da caridade», conforme a descreve o Pe. Ângelo Alves, vice-postulador da causa da canonização da portuguesa, dificilmente a sua vida poderia ter tomado outro rumo, mesmo se não lhe tivesse acontecido a desgraça da morte precoce do noivo em 1913. «A sua educação familiar era muito católica, e o seu noivo estava a regressar a Portugal para dar um novo impulso ao hospital em Paços de Ferreira, pelo que, mesmo casando, a sua vida não teria sido muito diferente», acredita o sacerdote.Apesar da morte do noivo, Sílvia Cardoso não deixou cair a ideia do hospital em Paços de Ferreira. O hospital abriu portas em 1919, a 14 de março. Não contente, deixa tudo entregue a colaboradores de confiança e parte, qual romeira itinerante, à procura de cuidar de todos quantos precisavam de apoio, físico ou espiritual. «A sua profissão era fazer o bem. Pôs os seus bens à disposição das obras que ia fundando, ia às feiras fazer peditórios, todos a conheciam», diz o Pe. Ângelo.

Do outro lado do Atlântico, o testemunho de uma sobrinha, Margarida Lencastre, confirma, via Skype, o que nos foram contando na terra. «Eu acompanhava-a às feiras, quando ela ia fazer o peditório para as crianças da creche, e acompanhei-a também nos retiros da Gandra», conta.

A vantagem de termos uma figura venerável da Igreja Católica tão recente é a de podermos contar com o testemunho direto de quem com ela conviveu. Tendo falecido em 1950, muitos dos seus sobrinhos, já que não teve filhos, são ainda vivos. «Era uma tia extremosíssima, acompanhava sempre os eventos da família, presencialmente ou enviando sempre um postal», conta a sobrinha, que atualmente vive no Brasil, mas que na altura a acompanhava nos retiros que Sílvia organizava para leigos na casa da Gandra, de onde o Pe. Ângelo também conhecia o seu nome. «Eu estava em Roma na altura, mas conhecia-a de nome, pela obra. No seu funeral, onde estiveram presentes imensas pessoas, de perto e de longe, foram muitas as pessoas que pediram a elevação aos altares da D. Sílvia. Diziam-me: “Se esta não é santa, ninguém vai para o céu”, e foi por isso que se deu início ao processo canónico», conta.

Margarida Lencastre recorda também a vida de «uma verdadeira santa». «Sentíamos isso nela, ia muitas vezes rezar sozinha para a capela a meio da noite, era uma pessoa muito profunda, e foi uma pioneira sempre presente nas obras da paróquia», conta a sobrinha, que a considera uma precursora do Concílio Vaticano II, que teve início uns anos depois da sua morte.

Apesar de algumas tentativas de se juntar a uma ordem religiosa, acabou por nunca o fazer, preferindo os votos privados de consagração a Deus como leiga. Foi nessa condição que auxiliou muitas dioceses, a pedido dos seus bispos, na organização de retiros, como em Lisboa ou em Évora, e de casas de apoio a crianças e famílias, como no Porto e em Vila Real, para além de todo o trabalho que já tinha levado a cabo em Paços de Ferreira, e que passou não só pelo hospital como também por uma casa de apoio a crianças e uma casa de retiros. O seu feitio meio irascível levou-a a alguns dissabores, que nunca colocaram em causa a sua fé ou a sua vontade de querer cuidar de todos. Finalizado um projeto, partia de imediato para outros.

Trasladação visa dar notoriedade a Sílvia Cardoso e à causa da canonização
Aquela que se poderá tornar na mais recente santa portuguesa, por ter sido a que morreu mais recentemente, viu assim iniciar-se, anos depois da sua morte, o processo de recolha de testemunhos que procurassem atestar da sua fama de santidade. Um processo diocesano coordenado por um notário que ainda nem era padre e que estava longe de adivinhar que, anos mais tarde, viria ter à terra de D. Sílvia.

O Pe. Samuel Guedes, vigário de Paços de Ferreira, compilou e organizou as «5 mil páginas do processo que foi enviado para Roma», e dois anos mais tarde foi colocado como sacerdote em Paços de Ferreira. O padre explicou à FAMÍLIA CRISTÃ que o pedido para a Santa Sé para a trasladação do corpo tem fortes razões pastorais. «Ela era uma apóstola da misericórdia, pelo que não havia melhor momento pastoral para fazermos a trasladação dos restos mortais do jazigo familiar para a igreja paroquial, onde D. Sílvia foi batizada e crismada que o Domingo da Misericórdia, dentro do Ano da Misericórdia, que se este ano se celebra a 3 de abril.»

O objetivo da trasladação é o de «facilitar o acesso aos fiéis» que pretendam venerar Sílvia Cardoso, para que as orações de graças que façam possam também contribuir para a sua beatificação. «Existe uma oração que já foi feita para todos os que desejam pedir graças por intercessão da Sílvia Cardoso. A oração é sempre feita neste sentido, porque a graça que for concedida pode também ser o milagre que leve à elevação de Sílvia Cardoso aos altares», explica.

Importante seria também, na opinião do Pe. Samuel, continuar o seu legado. «Gostava que fosse criado um centro de espiritualidade Sílvia Cardoso, onde poderíamos dar continuidade aos retiros que ela fazia com os leigos, organizar colóquios, etc., tendo-a a ela como patrona», refere o sacerdote, que também já abordou o diretor da faculdade de teologia para que pudessem sugerir o seu nome quando alguém procurasse um tema para trabalho. «Podemos e devemos promover a parte cultural, que é dar a conhecer a figura da D. Sílvia Cardoso, e se houvesse intelectuais que se interessassem em estudar a sua espiritualidade, encontrariam por certo muito material interessante», refere.



Mas Sílvia Cardoso não é de todo desconhecida, e ao escritório do vice-postulador têm chegado muitos relatos de graças. «Não há uma tónica especial nas graças que têm sido comunicadas, temos de tudo, desde a conversão de pessoas, a libertação de situações difíceis, auxílio em questões de emprego, várias situações de vida», nenhuma até agora que servisse de milagre para a beatificação. Mas o Pe. Ângelo sabe que as pessoas não desanimam. «Se ela foi tão misericordiosa na terra, certamente que o há de ser no céu, e é esse o fundamento de muitos dos fiéis que a ela recorrem», diz o sacerdote, para quem é importante que haja, também hoje, santos que as pessoas possam conhecer. «A Igreja não tem outra missão senão a de transmitir a santidade de Cristo aos fiéis para que também eles sejam santos. Esta santidade é necessária que se prove como existente em todos os tempos. Temos santos nos primeiros tempos da Igreja e na Idade Média, e precisamos de santos hoje também, para que as pessoas saibam que há santos na nossa vida, para estimularem a santificação dos fiéis. Esta é a razão pela qual a Igreja, de vez em quando, propõe como modelos e intercessores aqueles que se distinguem como bom exemplo», explica.

No caso de Sílvia Cardoso, que não foi «propriamente uma inovadora, não criou um novo carisma na Igreja», tem uma característica, a «vocação itinerante», como as «obras mendicantes da Idade Média, que corriam todas as terras para aliviar os necessitados e despertar para a vida cristã», que pode garantir a universalidade do seu exemplo de vida.

Sílvia Cardoso experimentava uma «espiritualidade vitimal, tinha o voto de vítima penitencial», e teve também os seus momentos místicos. «Nos seus escritos encontramos os sinais evidentes de que atingiu o grau de oração unitiva e mística. Não há relatos de fenómenos místicos extraordinários, mas a união mística tem algo de novo, que é o amor de Deus em obra». Para o aprofundamento da sua fé, muito terá contribuído a presença em Fátima no dia do Milagre do Sol e a convivência com os pastorinhos de Fátima, com quem privou.

O furacão que era a sua vida conheceu um fim trágico aos 68 anos, quando um cancro no estômago lhe levou a vida. Agora, a possibilidade de elevação aos altares vem dar ao seu testemunho de vida uma força maior. Para isso, é preciso que os fiéis rezem pela sua intercessão, a fim de que as suas graças se tornem a razão da sua beatificação e, mais tarde, eventual canonização.
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