Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Sobre as declarações de D. Manuel Clemente
10.04.2018
Recordando que o objetivo geral da nota de D. Manuel Clemente é fomentar a criação de novos caminhos de integração na Igreja (e não necessariamente no acesso aos sacramentos) dos chamados “recasados”, proponho uma reflexão, muito sintética, que poderá ajudar a clarificar o tema.

A doutrina da Igreja confirma e valoriza a sexualidade como expressão da entrega da vida de um ao outro, que é feita no contexto do sacramento do matrimónio. Na relação sexual o corpo diz: “Eu entrego-me a ti de forma livre, total, fiel e fecunda”, mantendo unidas as duas dimensões da união sexual que servem para o casal construir a comunhão – tornar-se numa só carne – e colaborar com Deus na criação, através da abertura à vida. Introduzir lógicas de egoísmo, mesmo que com boa vontade, pode ferir a verdade do amor.

O amor implica sempre uma dose de sofrimento e renúncia e, paradoxalmente, vivemos numa sociedade marcada pelo desejo de bem-estar e de total ausência de sofrimento. Neste contexto, as palavras da Igreja, que são as de Cristo, podem parecer uma má notícia, como aliás aconteceu quando Cristo Se pronunciou sobre o casamento. A questão é que, na perspetiva da Boa Nova anunciada por Cristo, estas palavras apontam um caminho para viver com verdade o significado esponsal do corpo e o plano de amor que Deus tem para a Humanidade. A Igreja acredita verdadeiramente que este é o caminho da felicidade e que Jesus acompanha as pessoas nas suas dificuldades e por isso tudo se torna possível. Conheço casos concretos em que esta proposta é acolhida e vivida com grandes frutos para os casais envolvidos. Ainda que seja difícil, nunca se deve deixar de a propor.

Por muito que, hoje em dia, se entenda a castidade e, em particular, a continência como conceitos antiquados e impossíveis de praticar, a verdade é que para os casais a viver numa situação irregular (expressão da Familiaris Consortio), acolher esta proposta é de grande ajuda na continuação do seu percurso na Igreja. Mas a adesão à proposta da Igreja só é verdadeira se for uma resposta livre do Homem ao amor de Deus. E para isso é necessário um percurso, acompanhado, de discernimento. Viver esta proposta contém, logo à partida, a grande vantagem que é permitir ao casal continuar a receber Jesus nos sacramentos e isso é a sua principal fonte de ajuda para lidar com as dificuldades da vida. Sabemos que o que está na origem da rutura entre o Homem e Deus é a desconfiança. A prática das virtudes, neste caso a castidade concretizada na continência, é o instrumento que o Homem tem para recuperar a harmonia perdida e voltar a confiar em Deus. Quando confiamos na bondade de Deus, confiamos na bondade da proposta. Dito de outra forma, viver a continência neste contexto é dizer “eu não estou devidamente capacitado/a por Deus para te amar como esposo/esposa, mas posso e quero ser para ti e para os filhos (se os houver) amparo e companhia, enquanto Deus o quiser”. Viver assim é colocar-se nas mãos de Deus, é deixar tudo para seguir Jesus como Ele propôs ao jovem rico. No entanto, tal como aconteceu com o jovem rico com quem Jesus falava, nem toda a gente o quer fazer. E ninguém ouviu Jesus a agredir o jovem rico ou a condená-lo. Pelo contrário, no relato de Marcos vemos que, prevendo a sua resistência, o olhou com afeição. E sabemos que, aos comentários de perplexidade de quem O acompanhava, quando Lhe perguntaram «Quem pode, então, salvar-se?» respondeu «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.»

O que o Papa Francisco propõe, e o nosso cardeal-patriarca reforça, é a hipótese de fazer um caminho a partir do ponto em que cada casal se encontre que seja uma possibilidade de entrar na amizade com Jesus.