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Um banho de fé
17.05.2017 10:06:00
Poderia dedicar este texto à visita do Papa, à sua mensagem, à canonização, ao centenário das aparições, mas haverá gente com um conhecimento muito maior do que o meu sobre o assunto. Por isso, decidi debruçar-me sobre um dos meus temas preferidos, as pessoas. Só posso falar pelo que vi, naturalmente, e o retrato que gravei será sempre o dos meus olhos, que tendem sempre a ver-lhes o lado bom. E a verdade é que Fátima foi, para mim, no fim de semana passado, um retrato feliz, do lado certo da vida.

Na sexta-feira passei praticamente todo o dia no meio das pessoas. E o que vi foi a imagem do ser humano feliz, tolerante, paciente, solidário, empático, desarmado.
Um espaço aglomerado e pequeno é um espaço propício a confusões, desentendimentos e impaciências. Talvez tenham acontecido e eu não tenha dado por elas; o que é certo é que me encontrei em algumas situações de aperto, literal, e não ouvi uma palavra desagradável, uma provocação, um empurrão, entre peregrinos. Pelo contrário: em alturas em que não dava para darmos dois passos, quem queria passar esperou, pacientemente, em silêncio, para poder fazê-lo. Mais ainda: vi pessoas indicarem caminho a outras: «pode passar por ali, que tem uma entrada», ou um «venha, tem de vir mais depressa para passar, que estão prestes a fechar daquele lado».

Gestos de boa vontade e de bom coração enchem-me de orgulho das pessoas; e tive muito de que me orgulhar.
Porque além de pequenos gestos, vi pessoas de coração aberto, que se misturaram com desconhecidos e gozaram de momentos de partilha.

Não me vou esquecer dos cânticos entoados com uma alegria contagiante, das conversas encetadas com o vizinho do lado, só porque sim. E a memória também não me vai levar os sons que agora são tocados de cada vez que me lembro de Fátima. São sons de África, daqueles que não dão para enganar, não precisamos de olhar para as pessoas para saber que estão a dançar numa roda, com lenços na cabeça e de pés descalços. A música é cantada com um sorriso rasgado e é dançada até por quem não sabe cantar. Fui parada numa das ruas de Fátima por esta cena; uma alegria cantada sem cor, sem língua, sem desconfiança. A este grupo de peregrinos, juntou-se uma mão cheia de outros. E dançaram todos juntos, largos minutos a fio. Sorriam uns para os outros, imitavam-se, davam abraços.

No fim, perguntei a duas portuguesas se sabiam de onde eram e que língua falavam. «Não os conhecemos, não sabemos de onde são; sabemos que falam francês.» Sabiam que não tinham conseguido ficar indiferentes aquela expressão de fé e de amor. E que tinham dançado. Não foram precisas mais palavras. Afinal, quando o coração fala, a boca pode ficar fechada. Também é isto, a fé.