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Um Papa a denunciar os horrores do mundo
27.11.2017
Sim, Francisco é diferente. O Papa é diferente de todos os outros chefes de Estado, de muitos governantes, que ignoram os que sofrem, no seu país ou fora ele. Francisco não o faz, ele coloca-se ao lado dos que sofrem perseguição, maus-tratos e qualquer tipo de violência injustificada. Fê-lo em Lesbos, logo no início do seu pontificado, fê-lo este domingo, quando rezou pelos muçulmanos mortos na Mesquita de Al Rawdah, em Bir al-Abed, no Egito, e está a fazê-lo enquanto escrevo estas linhas, com esta visita histórica a Mianmar e ao Bangladesh.

Não há Mal que perdure, se o Bem o combater. E o Papa sabe-o bem, e por isso insiste em trazer para a luz do dia os dramas da Humanidade, não só com as suas palavras, mas principalmente com a sua presença. Quando os refugiados sírios saem da agenda mediática, ele volta a coloca-los lá, com uma referência nas suas audiências ou mensagens. Quando a população rohingya está a sofrer esta perseguição encapotada, dissimulada, negada por todos os oficiais do país, ele entra no seu avião e vai até lá. Mesmo com todas as medidas de segurança, com todas as proibições, não há forma de evitar a questão rohingya nos próximos dias, porque o Papa está a visitar o país, e o país volta a ser notícia por causa disso. E os rohingya nem sequer são cristãos, mas sim muçulmanos, que sofrem às mãos de um governo opressor, que procura aniquilar esta minoria e outras, estas sim cristãs.

Perante o silêncio dos governantes, perante o silêncio da comunidade internacional, com uma honrosa exceção para a ONU, que tem denunciado os ataques, mas pouco mais, esta presença pública, notória, do Papa, tem, antes de mais, o efeito de não deixar que o assunto escape entre as frestas de um frenesim mediático que tão depressa dá a mesma cobertura mediática a massacres e a fait-divers tão inúteis como jantares no Panteão ou outros que tais.

Depois, o Papa tem-se revelado um excelente negociador, no sentido de saber aplicar pressão para forçar mudanças. Não é possível ter uma expectativa de que, de repente, acabem as perseguições, mas o que se pode adivinhar é que ele tudo fará para isso, e as suas palavras públicas tratarão de colocar a pressão necessária para que, depois desta visita, as coisas possam começar a mudar.

Não é possível ficarmos indiferentes ao que se passa em Mianmar. O Papa sabe-o, e nós também. Os massacres têm de parar, e todos temos um papel a cumprir para que tal aconteça. Francisco está a fazer a sua parte, e prevejo que peça que todos nós possamos direcionar a nossa oração para aquele povo, que tanto sofre. Se cada um cumprir a sua parte, o Papa ficará seguro de que o futuro pode ser mais risonho. E se ele acredita nisso, todos podemos acreditar.