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Uma força silenciosa
02.04.2018
Apesar de pessoal e comunitariamente precisarmos sempre de estar atentos às nossas faltas e carências, não podemos deixar de olhar, pelo menos com alegria e esperança, para aquilo que vamos conseguindo. É muito mais ascético vivermos a ação de graças dos passos dados que a constante lamúria de quanto nos falta. Por vezes nem chega a ser humildade nem estímulo para continuarmos a nossa subida. Também podemos dizer que a nível social, político e até cultural podemos deter-nos na mesma ótica, deixando que as lentes escuras do nosso olhar roubem a luz que brota de tantos recantos de culturas, religiões, artes, criações, iniciativas, obras materiais e espirituais impensáveis não há muitos anos. Muitas vezes isso é mais notório no que dá mais imediatamente nas vistas. Muita outra deriva do nosso olhar que sabe discernir sinais de luz em lugares, iniciativas e criações que parecem apenas brotar das trevas e de às trevas conduzir. O que está em causa é o nosso olhar.

Ultrapassando todos os dizeres que podem supervalorizar a nossa experiência e o nosso tempo, somos chamados a um contínuo olhar de esperança. Sabemos que em Deus não há acasos, a criação não foi um gesto inadvertido, a Encarnação não acontece sem a redenção, a vinda de Jesus há dois mil anos não terminou, a história continua iluminada pelos fios da sua presença que dão sentido até às inflexões do próprio homem que sabe criar momentos de beleza, mas que por vezes se perde nos becos da sua mediocridade, dando a sensação do absurdo e gerando a desesperança no significado da vida.

A história prossegue. E esta palavra não é apenas um termo empolgante inscrito nos grandes acontecimentos, nas evoluções e revoluções que parecem ser os donos do tempo e os condutores de todos os eventos e gerações. A verdade é que o nosso quotidiano, embora não mereça os grandes títulos que os donos do mundo usurpam e explanam nos meios de comunicação que açambarcam, são como pequenas letras e notas que compõem o grande hino que a Humanidade remida sabe entoar na peregrinação que renova em cada dia. A vida, bem o sabemos, não se compõe apenas de tempos épicos. O primeiro plano de muitas vidas é um prosaico monótono e acinzentado que faz do nosso mundo um lugar triste onde se vive porque não há outro remédio. Mas nem termina nem acaba aí.

É quando a esperança se afirma e ilumina todos os becos e aponta um caminho a todos os passos impossíveis. É por isso que os cristãos não vivem dobrados à melancolia. Mais que otimismo de emergência, sabem alimentar a esperança que não é a soma e a expectativa de todos os sucessos, mas a visão aberta, iluminada pela certeza de que o projeto de Deus é mais amplo e eficaz que todos os nossos cálculos estreitos e ineficazes. Por isso não temos medo de Lhe confiar a história, convocando as nossas forças como contributo humilde da redenção. Da nossa e dos outros. É mais que uma fantasia espiritual. É a força silenciosa que sustenta os nossos grandes e pequenos momentos. É a esperança a tocar a nossa vida por inteiro.