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Uma leitura nacional das autárquicas
20.11.2017
As eleições autárquicas têm sempre leituras locais, naturalmente. A maioria das pessoas conhece quem se candidata às câmaras e às freguesias e é frequente que pese mais a impressão pessoal sobre determinados candidatos do que preferências partidárias. Mas as autárquicas também têm uma leitura nacional, sobretudo quando se verificam descidas ou subidas de votação de nível significativo. Foi o que aconteceu agora – mas já tinha havido outros casos. Guterres demitiu-se de primeiro-ministro na sequência das autárquicas de 2001.
 
Como é sabido, a CDU perdeu dez câmaras, nove das quais para o PS. Jerónimo de Sousa disse que a “geringonça” não estava em causa. Mas é de prever que se torne mais difícil para o Governo negociar o Orçamento para 2018 com o PCP.
 
O PSD sofreu uma severa derrota em 1 de outubro passado. O seu líder, Passos Coelho, não se demitiu, mas declarou não se recandidatar às eleições primárias para líder do partido. Uma saída de cena digna. Assim, o PSD terá de eleger um novo líder. Mais do que isso, deverá debater internamente, a sério, uma outra estratégia político-partidária.
 
Melhor no governo do que na oposição
Passos Coelho foi um bom primeiro-ministro. Numa situação de aflição, com um resgate da UE, BCE e FMI, teve de tomar medidas impopulares, coisa de que os políticos não gostam nada. E pagou por isso: muita gente, dentro e fora do partido, passou a detestá-lo, como se a austeridade imposta pela troika não resultasse de políticas irresponsáveis do último governo de Sócrates. A vida é por vezes injusta e a vida política ainda mais…
 
Mas, depois, Passos nunca vestiu verdadeiramente o fato de líder da oposição. Tendo ganho (inesperadamente) as eleições legislativas há dois anos, viu António Costa suceder-lhe como primeiro-ministro – algo ainda mais inesperado. Na oposição, o PSD não brilhou.
 
O PSD e a social-democracia
 Há quem julgue que o PSD começou a cair ainda antes da liderança de Passos Coelho, porque teria abandonado a sua matriz social-democrata em favor de posições ditas neoliberais. Mas importa lembrar que o PSD começou por ser PPD. A mudança de nome foi uma tentativa de Sá Carneiro para inserir o partido na Internacional Socialista. Algo a que Mário Soares se opôs, convencendo os seus amigos estrangeiros da Internacional.
 
Mas Sá Carneiro era socialista? Não, só que nessa altura, em que o país tinha virado fortemente à esquerda e o CDS teve sérias limitações na primeira eleição geral em democracia (em 1975, para a Assembleia da República, uma Assembleia Constituinte), o PSD era levado a assumir uma posição centrista para ter influência política. Decerto que o PSD de Sá Carneiro tinha preocupações sociais, mas os seus primeiros objetivos eram livrar o país da tutela militar e travar o avanço comunista.
 
Passos Coelho quis livrar a nossa sociedade civil da sua grande dependência em relação ao Estado, até porque o PS se estava a tornar o “partido do Estado”. Por isso foi rotulado de neoliberal, hoje um insulto político. Mas alguém conhece verdadeiros liberais neste país secularmente abrigado no seio protetor do Estado? Talvez haja alguns, mas são raríssimos.
 
É verdade que o PSD se foi tornando num partido sem ideologia, numa máquina de conquistar o poder para distribuir lugares no setor público, tal como o PS. Por isso, a “refundação do PSD” só resultará se, mais do que debater personalidades na luta para a liderança do partido, se discutir ideias políticas. 
 
Ao invés, o CDS teve bons resultados eleitorais. O mais significativo foi o da sua líder, Assunção Cristas, em Lisboa. É possível que o CDS tente tornar-se, a médio prazo, o primeiro partido na área do centro-direita. O que também depende da futura estratégia do PSD: procurar alianças com o CDS ou isolar-se.
 
Finalmente, a abstenção diminuiu um pouco em relação às eleições autárquicas de 2013. Um pequeno passo positivo.