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Vantagens e desafios do acolhimento familiar
02.02.2016
«Todas as crianças têm o direito a crescer numa família», estabelece a Declaração Universal dos Direitos da Criança. Não podendo ser a sua biológica, então num ambiente que lhe propicie as condições para se poder desenvolver, seja em família de acolhimento, ou residência institucional.
A lei portuguesa estabelece, atualmente, que as crianças até aos seis anos devem ser preferencialmente integradas em contexto familiar.
A Mundos de Vida é uma instituição, que entre outras valências, nomeadamente a de instituição de acolhimento, dedica uma parte do seu trabalho a formar uma «nova geração de famílias», como explica Celina Cláudio, do serviço de Família da Mundos de Vida, «famílias essas que vamos recrutar à comunidade» e que têm variados perfis.
O ponto de partida para a seleção de uma família é sempre a criança. «Havia um bocadinho a ideia que uma família de acolhimento podia acolher qualquer criança, a partir do momento em que estava habilitada, formada, mas isso não é verdade. O acolhimento familiar é muito especializado, ou seja, nós estamos a falar de uma unidade familiar restrita, com dinâmicas, rotinas, culturas, com modos de estar também muito específicos. Portanto quando a entidade, CCPJ ou tribunal, nos solicita uma família para uma criança nós analisamos, e do relatório que nos é chegado e da informação que temos, analisamos a família que tem o melhor perfil para aquela criança», garante a responsável.Celina Cláudio, da Mundos de Vida, diz que a ~instituição procura «uma nova geração de famílias».
Porque, ainda que muitas instituições façam um «grande trabalho», não permitem às crianças a dinâmica familiar, «onde podem receber uma atenção, o carinho, o afeto, um apoio mais individualizado do que comparado com outras respostas, neste caso a instituição, por muito pequena que seja, por muito boa que seja – e que as há, obviamente – é sempre um contexto grupal, um contexto organizativo».

Vantagens
Marisa Regada, psicóloga da instituição, concorda e defende que uma família é «positiva» mesmo quando se trata de uma família que, em princípio, será temporária (o acolhimento familiar funciona, à semelhança da institucionalização, como uma medida temporária, até se definir o projeto de vida da criança). «O importante é que a criança, na família em que está, tire o máximo de proveito. A criança acaba por sair mais forte ao nível emocional, porque conseguiu perceber e conseguiu estabelecer com alguém uma relação segura, um vínculo seguro e é isto que nos torna mais fortes.» Isto e os afetos, a atenção, continua a psicóloga.

Numa instituição «há dificuldade em estabelecer uma atenção personalizada a criança. Na família isto acontece, há o momento de ir deitar, dar o beijinho e ler a história, há os momentos em que estão sentados no sofá a ver televisão e falam e a criança percebe que aquela família está ali para ajudar, que se preocupa, vai a escola, pergunta como ela está, como passou o dia, se lhe doeu a barriga. Tudo isto faz com que a criança perceba que há ali alguém para ela», garante a psicóloga.
A medida de acolhimento familiar permite ter pessoas de referência, ao mesmo tempo que não corta o contacto com a família de origem, porque «tem esta questão muito importante, que é a manutenção dos laços com a família biológica e o facto de haver visitas», esclarece a responsável da Mundos de Vida.

Desafios
Sobre o facto de crianças já frágeis, experimentarem “várias famílias”, a sua biológica, a de acolhimento e a possibilidade de alguma outra, no caso de o desfecho ser a adoção, Marisa Regada continua a ver a questão pelo lado do fortalecimento emocional da criança. «Na família [de acolhimento] ela percebe o que é viver em família, também para depois mais tarde construir a sua própria família e não há mal nenhum em ela estar nesta família e depois ir para outra.»
Celina Cláudio acrescenta que o que é necessário, para evitar choques, é «cuidar das transições, que estes momentos de transição sejam preparados, acautelados, programados, planeados.»

Integrar uma criança com uma história de vida, ajudar a educá-la e trabalhar para que ela volte ao meio natural ou para uma outra família não é para todos e esta “exigência” talvez ajude a explicar (juntamente com o desconhecimento da medida), na opinião de Celina Cláudio, o facto do número de famílias de acolhimento ser reduzido. «Uma família de acolhimento é rara, é por isso também que é difícil este serviço, porque nós não podemos esperar que tenhamos muitas famílias de acolhimento, porque é difícil, a família tem que estar preparada, tem que ser uma decisão de todos, não pode ser só do casal, porque a criança quando entrar e quando for incluída naquela família, ela vai fazer parte de toda a família.»
Essa mentalização para se tornar família de acolhimento chega a demorar 2 ou 3 anos.
Texto: Rita Bruno
Foto: Rita Bruno
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