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Vestir os nus
01.02.2016
À medida que a nossa vida se vai aproximando do que alguns chamam carinhosamente os “anos dourados”, e outros de forma mais pragmática a velhice, somos levados muitas vezes a pensar que sopas e descanso é tudo o que qualquer idoso quer. É também por isso que é rejuvenescedor encontrarmos nos testemunhos de misericórdia pessoas que, estando pela idade já nos seus “anos dourados”, têm tanta ou mais genica que recém-licenciados que começam agora a entrar no ritmo acelerado da vida.



Este é o caso de Sílvia Catarino, uma “jovem” de 81 anos que tem dedicado toda a sua vida ao voluntariado e à ajuda ao próximo. Em quase todos os sítios por onde já passou, uma coisa se manteve constante: vestir quem está nu. «Às vezes estou na cama, muito aconchegada, e dou por mim a pensar “Meu Deus, há tanta gente que está na rua, sem nada para os cobrir”. É por isso que a questão da roupa sempre foi das principais para mim», confessa esta voluntária, enquanto conversamos na sala de trabalho entregue ao grupo das conferências vicentinas da paróquia de S. Tomás de Aquino, onde Sílvia faz voluntariado desde que o grupo foi criado em 2009.

«Na altura já se entregava roupa a quem aparecia, mas nada organizado, mas como se sentiu esta necessidade, foi criado o grupo aqui na paróquia», explica, indicando que, hoje, entregam roupa a cerca de 90 pessoas de forma regular, a muitos outros que aparecem esporadicamente, e ainda abastecem outras paróquias, a Cáritas diocesana de Lisboa, missões em Moçambique e até para a Síria já enviaram sacos de roupa. «As pessoas aqui dão muita roupa, e é uma forma de escoarmos tudo. Escolhemos, lavamos, passamos a ferro e enviamos para quem precisa», explica.

Mas não é apenas há seis anos que Sílvia se dedica às questões do vestuário. «Quando estava na Comunidade Vida e Paz, há uns anos, fazia algumas coisas que hoje acharia loucas. Pegava em dois ou três cobertores debaixo do braço, entrava no autocarro e ia andando à procura de sem abrigo. Quando via um, saía e ia entregar-lhe o cobertor», diz, bem-disposta.

À paróquia de S. Tomás de Aquino chegam todo o tipo de pessoas à procura de roupa, ou de uma desculpa para falarem com alguém. «Para além das pessoas carenciadas da paróquia, que vêm ver se aqui encontram coisas que gostam, recebemos aqui muitos arrumadores, toxicodependentes, que gostam muito de calças de ganga e ténis. Quando as pessoas vêm, escolhem o que querem e conversamos com eles, para perceber se têm mais alguma necessidade. A roupa serve como “desculpa” para tentarmos perceber outros problemas, como por exemplo pessoas que precisam de comida, ou de visitas porque estão sozinhas», explica Sílvia Catarino.

Mas nem toda a ajuda que Sílvia presta aos mais carenciados vem através de organizações. «Quando trabalhava como jurista no Palácio Nacional da Ajuda, encontrava muitas vezes um senhor velhote que por ali andava com uma canadiana. Oferecia-lhe boleia, e tinha o meu carro, um Fiat 800, acho, sempre com roupa para lhe dar quando ele precisasse, a ele ou a outros», conta, enquanto se ri ao lembrar-se do que os colegas da altura gozavam com ela por ter o carro cheio de roupa e por dar boleia a mendigos.

Nunca se preocupou muito com isso, porque o seu trabalho não era mesmo seu. «Nada disto é nosso, e por isso o que temos são competências que colocamos ao serviço de quem precisa. Temos de pedir ao Espírito Santo que nos ajude para que nós possamos ajudar os outros, e neste tempo da misericórdia temos de procurar sempre as pessoas que precisam, sermos pacientes, ter capacidade de aceitação, porque às vezes aparece-nos aí cada “cliente”…», diz, entre risos.

Com uma história de vida destas, são muitos os episódios que recorda. E se uma vez tentou ajudar uma senhora perturbada que estava a dormir em frente a um hotel, que lhe pediu que “visse a situação do hotel, porque ele é do meu marido e eles não lho querem dar”, outras vezes há em que a ajuda pode ser bem real.  «Uma vez encontrei um rapaz que me pediu dinheiro na rua. Disse que era para comprar uns sapatos, e eu ofereci-me para ir com ele à sapataria comprar uns sapatos. Chegámos lá, e ele insistia em experimentar números acima do seu, apesar do funcionário dizer que o número dele era aquele. Depois quando falei melhor ele lá disse que os sapatos eram para o pai, não para ele. Acabei por comprar sapatos para os dois… estas coisas tocam-nos, e fico contente por poder ajudar», reconhece.

Na paróquia, o trabalho é quase diário. Apesar da entrega às terças-feiras, quase todos os dias há roupa a chegar e é preciso escolher o que não presta (infelizmente, muitos sacos vão diretamente para o lixo, porque a roupa vem muito degradada), dividir as roupas para os diferentes destinos, e pôr para lavar o que é preciso. Um trabalho levado a cabo por alguns voluntários - «precisávamos de gente nova, somos todos muito velhos», diz Sílvia, meio a sério, meio a brincar – que preparam a chegada das pessoas carenciadas, que depois escolhem a roupa que desejam levar, como se estivessem numa loja. Até porque, mais do que dar roupa, importa manter a dignidade dos que os procuram.

Sílvia agradece a Deus a oportunidade de ajudar quem precisa. «Digo “Pai, obrigado porque me apareceu esta pessoa para ajudar”. Tanto recebo que tenho essa preocupação de dar uma parte. Fico contente e dou graças a Deus por ter 81 anos e ainda tenho saúde para andar por aqui», afirma.

Esta «forma de levar a Misericórdia de Deus aos outros» dá os seus frutos. Muitas vezes, Sílvia é abordada na rua por pessoas que nem se lembra de já ter ajudado, mas que fazem questão de lhe agradecer a ajuda prestada. «Tenho histórias muito bonitas. Há uma rapariga que começou por vir à paróquia buscar roupa e alimentos, e que conseguiu recuperar a sua vida e dos seus filhos, e arranjar emprego. Hoje, é ela quem vem cá trazer a roupa que já não serve aos seus filhos, para que outros possam receber a ajuda que ela recebeu. É muito bonito ver essas histórias», diz, e é por isso que promete continuar «enquanto tiver forças para aqui andar».

NOTA: Artigo publicado na edição de fevereiro da revista Família Cristã.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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