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Violência contra idosos aumenta
07.12.2016
Quase mil idosos foram vítimas de violência no ano passado. O número de casos tem vindo a aumentar. Os agressores são sobretudo filhos ou cônjuges. Raramente as vítimas apresentam queixa.

Cartaz da APAV
Laura vivia na sua casa com a filha e a neta divorciada e frequentava um centro de dia. Os sinais de que algo estranho se passava começaram a ser notórios para quem lidava com ela na instituição. Os braços tinham umas marcas estranhas. Deu umas desculpas, a vergonha impedia-a de dizer a verdade: quando ficava sozinha em casa, filha e neta amarravam Laura a uma cadeira. De braços e pernas atadas, chegou a ficar noites e fins de semana inteiros sem poder comer ou ir à casa de banho. Só admitiu tudo quando as técnicas da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) a visitaram no centro de dia, depois de um telefonema da instituição.

A psicóloga clínica Luísa Waldherr lembra-se bem do caso, que exigiu ação imediata da GNR e comunicação ao tribunal. Neste caso, e ao contrário do que é habitual, a idosa manteve a história até ao fim. «A pessoa idosa, por ser mais vulnerável, tem mais medo. Se tivermos a capacidade, a paciência e o tempo de explicar os seus direitos, as alternativas, os modos que há para resolver aquela questão, baixamos o nível do medo e ela começa a perceber o que existe, já não é o desconhecido», explica Luísa.

No relatório anual de 2015, a APAV dava conta de um aumento da violência contra idosos. Em 2013, registaram-se 774 casos; em 2014, 852; e no ano passado 977. O que dá uma média de 2,7 idosos vítimas de violência por dia, mais de 18 por semana… Entre 2013 e 2015, a associação registou 2603 vítimas idosas de crime e de violência. Em 37,9% dos casos os agressores eram filhos e em 28,2%, o cônjuge. Apenas 30,7% apresentam queixa.

Luísa Waldherr é psicóloga clínica.
A linha de apoio à vítima 116 006, da APAV, funciona nos dias úteis, das 10h00 às 19h00. Luísa Waldherr explica que quando a violência é perpetrada por filhos e netos é, habitualmente, violência financeira e psicológica. Trocando por miúdos: a pensão passa a ser gerida pelo filho ou neto, acesso indevido à reforma, exigência de dinheiro sob coação. A psicóloga clínica exemplifica: «“Ou me dás ou eu bato-te, ou eu parto isto tudo.”»

Com os familiares, cede-se mais e queixa-se menos. Luísa explica que «quando o idoso é chamado, muitas vezes, desvaloriza e diz: “Ah sim, mas foi só uma vez. Ele até é bom rapaz. Tem lá o seu feitio.” “Às vezes está mal-humorado, mas é bom homem. Tem umas complicações lá no trabalho.” Há casos em que até negam a situação.» Quando os agressores são os filhos, o sentimento de culpa dificulta muito a apresentação de queixa.

Mas esta coordenadora do Gabinete de Apoio à Vítima fala também de violência em lares. «Nem sempre os cuidadores têm formação específica. Têm falta de tolerância e de paciência. Muito facilmente gritam, chamam nomes. Também há casos do uso indevido de medicação para manter os idosos calmos, ou melhor, sedados.» Acontece também coação financeira, quando se sugere que se o idoso doar a sua casa ou os seus bens consegue mais rapidamente vaga no lar.

Equipa da associação Mulheres Séc. XXIA associação Mulheres Séc. XXI, de Leiria, dinamiza a Linha Nacional de Apoio à Vítima Idosa de Violência Doméstica (800 210 340). Além da linha telefónica, a associação tem um gabinete de apoio psicológico.

Catarina Louro, técnica de apoio à vítima e socióloga, explica que a confidencialidade é muito importante. «Este fenómeno é muito particular. Porque as pessoas agressoras são cuidadoras e estamos a falar de vítimas com mais de 65 anos e, muitas vezes, não querem assumir que estão a ser vítimas de quem cuidaram.»

A linha dá dicas para os idosos se protegerem de agressões. «Quando percebe que está num momento de tensão, afastar-se das cozinhas porque as cozinhas têm demasiados objetos que num momento de discussão podem ser fatais. Ter o telemóvel num bolso para poder fazer uma chamada rapidamente. Ter os documentos sempre junto de si para o caso de terem de sair de casa.»
Desde janeiro de 2016, o projeto já sinalizou 63 casos, 44 diretamente através da linha. Telefonam sobretudo pessoas próximas, familiares, amigos ou vizinhos. Mas também as vítimas, a grande maioria mulheres. «O que temos mais são agressões psicológicas e negligência. Agressões psicológicas são 35% e dentro destas falamos também da exploração financeira. Existe, muitas vezes, a tentativa de ficar com a reforma ou até de roubos», explica Catarina. Os casos de negligência (32,5%) normalmente são denunciados pelos vizinhos que acham que os idosos não têm assegurados os cuidados básicos. Quanto aos maus-tratos físicos, representam 20% das queixas, são sobretudo casos de violência de maridos contra esposas, mas também de filhos contra mães.

Catarina afirma e repete que cada caso é um caso. Esta técnica de apoio à vítima diz que o que mais tem chocado toda a equipa são as agressões sexuais de filhos contra mães. «Para chegar aí, já se passou pelas agressões psicológicas e físicas… São as mais difíceis de chegar, porque é muito difícil as mães assumirem que são vítimas de violências sexuais dos filhos», conta. Têm acompanhado alguns casos de consumação e outros de intenção, também há quem tente matar: «tentativas de asfixia, apontar uma arma às mães, incendiar uma casa com a mãe lá dentro.»

Para evitar a violência contra idosos é preciso que a comunidade esteja atenta e intervenha. Catarina Louro alerta que «nas crianças, é tudo muito giro e toda a gente quer mudar as fraldas. Com os idosos não é assim. São tratados como pesos, quer pela família, quer pela comunidade.» Daí que a associação tenha projetos e ações de sensibilização na comunidade.

Luísa Waldherr, da APAV, lembra o caso de uma idosa, num bairro em que todos se conheciam. «A senhora da padaria, o senhor do café e o senhor do minimercado juntaram-se e vieram falar connosco para saber o que podiam fazer. Quando se diz que hoje em dia não há valores, ainda há muito boa gente também.»
 
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: Cartazes APAV e Cláudia Sebastião

 
Excerto de uma reportagem publicada na edição da FAMÍLIA CRISTÃ de dezembro de 2016.
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