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Visitar os presos
01.05.2016
Fechados em celas com outros reclusos, a vida dentro das prisões nem sempre permite a esperança num futuro diferente do passado que os conduziu ali. Mas a presença de visitadores que, em nome de Deus, cumprem esta obra de misericórdia permite aos reclusos um tempo de paz e partilha de ideias e sentimentos, além da possibilidade de olharem com mais esperança para o futuro.

 
É fácil fazer a ligação Prisão – Mal. Quando pensamos em reclusos, pensamos em criminosos, gente que prejudicou a sociedade de que faz parte, de uma forma ou de outra, e que está a pagar na prisão pelos crimes que cometeu. Afastado da sociedade que prejudicou, está “no lugar dele”. São pensamentos comuns. No entanto, a Igreja e os seus fiéis têm uma ideia de misericórdia, herdada de Jesus Cristo, que determina que a misericórdia de Deus não acaba e é para todos. Mesmo para os criminosos, assassinos e corruptos.

Neste sentido, uma das obras de misericórdia que é sugerida aos cristãos é a da visita aos presos. Querendo seguir este propósito, a Conferência de São Vicente de Paulo tem grupos de voluntários que há mais de 40 anos se deslocam ao Estabelecimento Prisional de Lisboa para visitar, rezar e refletir com reclusos. O Armando é um deles. Há cerca de 14 anos, um membro das conferências foi à sua paróquia desafiar quem quisesse, e ele aceitou o repto e não mais parou até hoje. «Ainda me lembro do primeiro contacto. Fomos recebidos por uma educadora que estava encarregada do voluntariado e que nos deu uma formação simples. Lembro-me que ela, a certa altura, perguntou se estávamos preocupados com a entrada num mundo novo. Lembro-me de sorrir, olhar para ela e dizer: “Pareço-lhe preocupado com isso?” E a verdade é que nunca tive qualquer problema lá dentro. Mesmo quando algum recluso se exalta, são os outros reclusos que os acalmam e resolvem a situação, vindo em nossa defesa», conta.

Nas suas visitas, Armando começa sempre com uma mensagem. «Digo-lhes que aproveitem a única coisa que têm, o tempo, que significa uma escolha para o bem ou para o mal. Na prisão há uma escola de crime que eles podem frequentar se quiserem. Mas se eles quiserem recuperar os valores que lhes deem solidez quando saírem de lá, tenham condições para enfrentar os desafios da vida de uma forma diferente, se quiserem optar por esse caminho, estamos lá para os ajudar», refere Armando.
Neste momento, este voluntário visita sozinho uma ala de condenados com uma rotatividade grande nas participações. «Tenho muito menos penetração, porque os problemas humanos são muito complicados. Eles têm passados sociais e criminosos que lhes bloqueiam a participação numa reunião desta natureza. Mas nem que fosse por apenas uma pessoa, valeria a pena», diz, ele que tem, por norma, três a cinco pessoas todas as terças-feiras de tarde, altura em que são feitas as visitas.

«Nos encontros estamos abertos às necessidades que eles têm, porque as reuniões são para eles. Quando não existe nada de especial, o que costumo fazer é usar os textos do domingo anterior para fazer um comentário ou um pequeno debate ou esclarecimento, procurando realçar o conteúdo positivo para a vida deles e para os propósitos que devem adquirir para a consolidação dos seus propósitos de vida», conta Armando. Este tipo de dinâmicas é o que eles preferem. «Periodicamente, pergunto-lhes se querem outro tipo de reunião, e eles dizem que é isto que lhes faz falta. Há uns mais interventivos que outros, mas há sempre quem fale, e muitas vezes as opiniões que eles dão levam-nos para outros problemas da vida e da organização da sociedade, relacionados com a pobreza, a família, tudo o que constituiu o passado deles e os levou ali», partilha.

Para além dos encontros, estas visitas auxiliam os reclusos a colmatar necessidades básicas, principalmente de comunicação e roupa. «Quando visitamos, procuramos ver as necessidades deles e colmatá-las. O mais trivial são um envelope e selos, porque não têm visitas da família, e alguns deles nem têm família no país. Também proporcionamos a possibilidade de telefonarem à família, e temos um roupeiro que lhes dá algumas roupas que eles precisam. São cerca de 1400 reclusos, e muitos entram apenas com a roupa que têm no corpo, e precisam de agasalhos durante o tempo frio», diz.

Armando não se sente um agente da misericórdia de Deus, mas sim um veículo dessa mesma misericórdia. «Não me sinto agente, mas sei uma coisa: quando começo a falar sobre um texto bíblico, as palavras vêm-me sem eu ter necessidade de pensar nelas. Sou antes um veículo da misericórdia de Deus, mas um veículo muito fraco, sem as quatro rodas e o motor avariado», conta, entre risos.

Em virtude de não haver uma estrutura de acompanhamento dos reclusos depois de saírem em liberdade, Armando não sabe bem o que acontece com os reclusos que acompanha, o que lamenta. No entanto, e com tantos anos de serviço, não deixa de conhecer algumas histórias de sucesso. «Tivemos um caso de um recluso que fez uma caminhada dentro da prisão muito forte e que quando saiu convidou uma das visitadoras para que fosse madrinha de casamento. Ele esteve em Fátima durante muito tempo, a trabalhar para uma casa de terceira idade, e depois foi para Angola e perdemos-lhe o rasto», lembra, recordando o caso de um outro recluso, este brasileiro. «Ele ia às reuniões e um dia que estávamos a refletir sobre o salmo “se Deus está comigo, de quem hei de ter medo?”, aquilo tocou-lhe tão profundamente que ele até teve o desabafo: “Quando voltar para o Brasil, é o que vou anunciar.”»

Histórias que tocam quem torna viva esta obra de Misericórdia. «A parte que deslumbra mais quem visita os reclusos é que a presença de Deus é muito real ali», sustenta. E também aqui, como noutras obras de misericórdia, se recebe muito mais do que se dá. «O que se ganha na prática de uma qualquer obra de misericórdia é uma perceção muito viva e concreta do que é o amor de Deus na nossa vida, porque recebemos mais do que damos», confirma.

Os reclusos, esses, ganham essencialmente uma possibilidade de diálogo em paz, longe das rotinas perigosas do dia-a-dia prisional. «A grande vantagem é terem com quem possam falar. Para eles isso é muito importante, ter alguém com quem sair daquele vício de cumplicidades e receios internos para uma forma simples, fácil, tranquila de estar, onde possam estar mais próximos de ser eles próprios. Essa é a grande vantagem das nossas visitas» e desta obra de misericórdia, conclui.

NOTA: Artigo publicado na edição de maio da revista Família Cristã.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e D.R.
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