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Vive ao contrário?
28.09.2016
Terminadas as férias e o tempo mais dedicado à família, muitos pais andam atarefados e a correr do trabalho para casa e vice-versa. Chega a casa tarde e a más horas e já depois de apanhar as crianças em casa dos avós com jantar e banho tomado? Se já sentiu que vive ao contrário e, mesmo assim, não consegue mudar as prioridades da sua vida, tem mesmo de ler este texto.

Crianças que adormecem à meia-noite e se levantam às 7 da manhã… Teresa Paiva, neurologista, fica de cabelos em pé. Desde a década de 80 acompanha pessoas com perturbações de sono. Se os pais só chegam a casa às 22h00, as crianças não podem deitar-se mais cedo. É normal que queiram brincar e estar com os pais.

Para Teresa Paiva, a mudança tem de começar nos adultos. «A gente tem de começar por convencer os pais a chegarem a casa mais cedo», atira de forma rápida para de seguida admitir que nem sempre é fácil. «Eu também percebo, um pai que tem de chegar a casa mais cedo e, no trabalho, começam a dizer: “Não pode sair porque arrisca o emprego.” Claro que tem de sair mais tarde.» Teresa Paiva insiste que é preciso mudar isso e dá razões científicas. «Toda a gente sabe que o spend de atenção é uma hora. Ninguém consegue fazer mais do que uma hora, é quanto devem durar as aulas», explica. A neurologista diz mesmo que a eficácia do trabalho não melhora com mais horas de trabalho. «De acordo com as estatísticas da OCDE de 2015, Portugal é o 4.º país do mundo com mais horas de trabalho por semana e é o 6.º país do mundo a ter pior produtividade dessas mesmas horas de trabalho. Alguma coisa não está bem. Essas empresas estão a esquecer-se que têm responsabilidade social. Não podem ganhar dinheiro num país em que está toda a gente doente.»

Teresa Paiva é neurologista

Sociedade portuguesa caminha para o abismo?

Percebe-se que este é um tema que mexe muito com esta mulher, que todos os dias vê consequências na vida e na saúde das pessoas. «A sociedade portuguesa tem de pensar para onde é que vai e escusa de caminhar para o abismo», diz Teresa Paiva. A neurologista mostra a lista de doentes para a tarde em que falamos. Ainda faltam alguns e já são 18h00. Diz que trabalha muito mas que é preciso ter regras. «A coisa mais estúpida que se pode fazer é implementar regras anti-humanas ou esclavagistas», afirma. Mas de que fala? «Por exemplo, as pessoas serem controladas pelo que fazem nos computadores. Isso é uma tortura. Uma pessoa que é controlada se o telefone toca mais do que cinco vezes e não atende; Uma pessoa que é controlada pelas vezes que mexe o rato; Uma pessoa que é controlada se já teve tempo para dar uma resposta e não deu, começa a receber mensagens no computador a dizer que já passaram não sei quantos minutos… Se isto não é esclavagismo, é uma coisa muito parecida.»

Se os trabalhadores passam horas a mais no trabalho, o que dizer das crianças? «Acho inacreditável que as crianças entrem na escola ou na creche às 08h00 da manhã e saiam às 18h ou 19h00. Estão na escola 10, 11 ou 12 horas. Trabalham mais de 40 horas por semana, que é o máximo recomendado para um adulto. São barbaridades que se estão a fazer às crianças e às pessoas.» Teresa Paiva diz que tudo isto se paga em termos económicos e de saúde, agora e no futuro. Por isso, defende que é preciso mudar. «Há que pensar que esta estratégia vai dar disparates sociais com que nós nos vamos confrontar. E é completamente assustador», reflete.

Catarina Mestre, psicóloga, acompanha as crianças mais pequenas na consulta do sono. Percebe e vê todos os dias as dificuldades que têm em desligar-se do que é exterior e olharem para si próprias. «Os miúdos nascem com televisões, tablets, computadores, telemóveis na mão. Não sabem estar sozinhos. Não sabem estar quietos sem estar a receber estímulos externos constantemente», afirma. Para ajudar a mudar isso, Catarina faz técnicas de relaxamento com crianças e pais onde ambos aprendem a «olhar para dentro».
 
Texto: Cláudia Sebastião
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