Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Viver o tempo dos filhos
07.05.2017
Hoje falamos de mães! E de filhos! De atividades exigentes e de disponibilidade! De amor e dedicação! Nada disto é um exclusivo das mães, mas hoje o dia delas: mães que se desdobram, e ao seu tempo, com o objetivo de criar pessoas completas. A palavra de ordem é abdicar, conjugada no verbo amar.
 
Levar, trazer, esperar, assistir a provas, a concertos, a torneios, a jogos. Viver uma agenda que não é a sua. Por vezes, fazer tudo isto em dobro. Fazer do tempo dos filhos o seu, até que o tempo lhes devolva as suas horas. Sem arrependimentos.
Maria José Peres é mãe de duas meninas, atletas e escuteiras. Não é exclusivamente sua a tarefa de acompanhar as filhas, mas acaba por fazê-lo com maior regularidade. Atualmente as filhas praticam basquete, mas já passaram pela patinagem, natação, ginástica, entre outras. Têm idades diferentes e estão em escalões diferentes, com treinos, que duram 1h30m em horários distintos. Já era assim nos outros desportos, como na patinagem, em que os treinos tinham a mesma duração e eram um depois do outro. Maria José costumava levar trabalho com ela, para as cerca de 3 horas em que ficava à espera das filhas.
Desde que as filhas optaram pelo basquete, consegue conjugar o treino de uma delas com a sua própria atividade, de treinadora desta modalidade. Mais exigente é o facto de o basquete ter a vertente de competição, com jogos e torneios aos fins de semana. E faltam ainda as atividades dos escuteiros. «É claro que isto absorve-nos muito e tanto eu como o meu marido, temos que nos desfazer para tentar conciliar as atividades», explica, mas sem peso negativo.
 
Abdicar para formar

«Mais do que um sacrifício, é um prazer, porque estamos a proporcionar-lhes experiências ricas, que ficam para a vida.» Esta mãe e o marido acreditam que o desporto, particularmente o basquete, e os escuteiros «são duas atividades fundamentais para combater esta inércia e esta desvalorização das coisas.» Por isso, «faz das tripas coração» para o que for preciso fazer, porque acredita que este esforço contribui para os valores que quer incutir às filhas. «O desporto coletivo, na minha opinião, desenvolve nos miúdos o espírito de grupo, a camaradagem, mas desenvolve acima de tudo, conceitos como a responsabilidade, a assiduidade, a organização do tempo. Porque no desporto nós temos horários a cumprir, podemos inclusive perder o jogo se não cumprirmos determinado horário», esclarece. Por isso, embora a situação seja exigente e se veja atualmente na fase de motorista, Maria José afirma que o que sente é um cansaço «agradável» este de «ver as filhas crescerem». Porque ser mãe foi uma escolha sua e implica sempre abdicar de alguma coisa. Todas as mães abdicam. «Ser mãe é uma opção de vida. Deixa-se de fazer muita coisa, agora lá está, não é certamente com arrependimento. Deixa-se de fazer muita coisa por ser mãe, não é [só] por ser mãe de um desportista.»Maria José considera que as atividades como o desporto e os escuteiros são importantes, mesmo que exigentes, pois transmitem valores.
 
As exigências
 
Contudo, o desporto, como outras atividades de competição ou exibição, traz uma exigência acrescida, a da ausência. «Há festas de anos, há casamentos em que vão todos menos a atleta, porque tem jogo, ou a atleta sai mais cedo ou tem que vir mais tarde. E a família tem que perceber que isso faz parte do pacote. Não se pode pedir a um atleta que dê o máximo nos treinos, que seja exímio e que lute por um lugar na equipa se depois no jogo o privam de ir jogar. É que se ele investe a semana toda, a maneira de ser recompensado, é jogar. E se ele por si só, está a negar esse jogo, então vai questionar-se: “então para que é que eu vou treinar? Para que é que eu estou a lutar?” E vai deixar de querer ser cada vez melhor. E vai deixar de ser persistente, perseverante, assíduo, pontual. Vai desleixar-se na construção dos valores», alerta.
 
A consciência

Rita, filha desta treinadora, tem 12 anos, e escolheu o basquete no início deste ano letivo. Queria conhecer pessoas novas e aprender com os outros e teve de refinar as suas capacidades de organização. Embora até agora não tenha sido muito complicado gerir o tempo, esta atleta reconhece que este é um desporto mais exigente. Para além dos treinos, que «ocupam um bocado de tempo à minha semana», «os jogos ocupam normalmente quase uma manhã inteira de domingo ou uma tarde inteira de sábado», o que faz com que «mais na época de testes, costuma ficar um bocado mais apertado, porque com escuteiros e basquete fica-se sem tempo para estudar.»Rita valoriza o acompanhamento dos pais, mesmo que nem sempre esteja consciente do esforço que têm de fazer.
Rita tem noção que este acompanhamento implica que a mãe, e também o pai, tenham de abdicar das suas coisas, embora nem sempre pense nisso. «Normalmente quando quero muito ir a uma coisa, penso apenas que era o que eu queria. Não costumo pensar que se calhar a eles não lhes dava tanto jeito, mas sim, tenho consciência que para eu fazer as minhas coisas eles têm de deixar de fazer as deles.» E é por isso que nos diz que valoriza o acompanhamento que lhe dão.
 
Presença e memórias

É isto que Ana Penteado também espera que as duas filhas, de 8 e 6 anos, levem da infância para a idade adulta, esta certeza da presença e do acompanhamento dos pais, que lhes permita «uma infância preenchida e completa no âmbito familiar… o ser capaz de criar a imagem de uma família presente, de uma família interessada e focada na atividade delas.» Esse será o seu sentimento de missão cumprida.
A agenda de Ana e do marido Eduardo está construída em função das atividades das filhas e reparte-se, para além da escola, em inglês, natação, escuteiros, uma vez por semana e aulas de música do Conservatório, três vezes por semana, com a duração de cerca de 2h30. Para além dos trabalhos de casa de inglês, dos acampamentos, das atividades extra dos escuteiros, do estudo diário necessário do instrumento e dos concertos.
 
Gerir o tempo

Embora ambos os pais sejam igualmente presentes, cabe a Ana a grande fatia desta gestão diária. «Em termos de horários de trabalho obriga-me a ser muito mais eficiente durante o dia, porque sei que aquela hora tenho obrigatoriamente que sair. Não há ginásio, não há assim saídas. A vida está de tal forma orientada para elas que tudo o que seja para além, não é que seja inexistente, mas é muito mais limitado, e quando existe, se calhar usufruo muito mais e também estou muito mais focada nessas coisas. As saídas com os amigos, acabamos por já ter amigos em comum das atividades em que elas estão. Vamos criando amizades dessas atividades.»Ana Penteado acompanha as filhas, com prazer, nas várias atividades que frequentam, tendo-se mesmo inscrito em aulas de piano para as acompanhar.
Mas, mais uma vez, a mãe diz que o faz sem peso negativo. «Elas também hão de crescer, hão de ter os seus próprios interesses e eu depois também voltarei a ter mais tempo para mim. Não vejo isso como uma coisa negativa, faço com imenso gosto e acho que faz todo o sentido no percurso de uma família e no percurso de educação das crianças. E tenho gosto de poder participar com elas e de estar com elas. Abdico de outras coisas, mas abdico com imenso prazer.»
 
Viver o tempo

Esta mãe decidiu, inclusivamente, usar parte do tempo que ainda tem como seu para aprender música e conseguir, assim, acompanhar as filhas no seu estudo diário de instrumento. «Eu sempre quis aprender piano, nunca tive aulas de música. Inscrevi-me já há 3 anos, quando a Madalena começou as aulas de piano. E foi muito gira a dinâmica, porque eu estava a um nível tão básico como elas; elas acharam graça à mamã também estar na posição de aluna. Ajuda muito também na dinâmica de estudo em casa, porque quando nos sentamos a estudar eu toco as minhas pautas, elas têm as suas pautas. E são coisas que para elas têm imensa graça, motiva-as, para mim dão-me bastante gozo e permite-nos ter também uma rotina em família, não estar cada um para seu lado nas suas coisas.»
 
Ensinar a valorizar

Ana dá o seu tempo sem arrependimentos, mas tenta que as filhas percebam e valorizem esta realidade que vivem. «Eu também faço alguma questão de lhes dizer: ok, a mamã está aqui, mas eu para estar aqui tive que sair mais cedo do trabalho, por isso, quando vocês se deitarem eu tenho que ir trabalhar. Agora estás tu a fazer o trabalho de casa e eu também estou a trabalhar…para perceberem que o tempo da mãe não é ilimitado… que têm que valorizar o tempo que estamos com elas e perceber que estou a abdicar de outras coisas para elas, e faço-o com gosto, mas que existe outro mundo para além delas.»
 
Ver para além de
 
Este estar, este acompanhar, vai ser o que vai permitir às filhas crescer com memórias habitadas pelos pais. E todas estas atividades e este abdicar de si têm um propósito importante para Ana e o marido. «Aquilo que tentamos dar são todas as ferramentas possíveis para elas mais tarde serem autónomas, sabendo que tem uma rede por baixo e essa rede será a família. Incentivamos muito a iniciativa e a capacidade de aprenderem a trabalhar em equipa, aprender a trabalhar para um bem comum» e que muitas vezes «são coisas que as vezes não se conseguem ensinar apenas no seio familiar», conclui esta mãe. Mas é nele que tudo começa.
       Texto: Rita Bruno
Fotos: Rita Bruno, Fr
eeimages
Continuar a ler