Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Voltou o cheiro da terra aos legumes
20.10.2016
Alguma vez saiu de manhã para o campo, cultivou os seus legumes, apanhou-os e comeu-os muito satisfeito? É provável que não, se for mais novo. Mas, nesse caso, já terá ouvido dizer dos seus pais ou avós várias críticas aos produtos que põe na mesa, vindos das prateleiras dos hipermercados. As pessoas vão à procura do melhor preço, ignorando por vezes que isso nem sempre significa melhor qualidade, principalmente quando falamos de legumes e fruta.
Os últimos tempos têm mostrado uma mudança no hábito de muitos portugueses, que compram os seus legumes e frutas em mercados ou diretamente aos produtores.

A Quinta do Arneiro está a apostar cada vez mais na agricultura biológica

Criado há dez anos, o PROVE é uma plataforma que permite aos pequenos agricultores constituírem núcleos de distribuição que todas as semanas fazem cabazes de alimentos que entregam diretamente ao consumidor final, sem intermediários. O que começou com dois núcleos de produtores em Sesimbra a entregarem 30 cabazes tem hoje 87 núcleos em todo o país, com 132 produtores envolvidos, que entregam todas as semanas uma média de 7000 cabazes, com um volume de negócio superior a 2,6 milhões de euros/ano, segundo o sítio Web do projeto.

«Fazemos isto há sete anos», conta-nos Ana Marques, uma agricultora da Moita, enquanto conversamos nas instalações da Junta de Freguesia da Arrentela, um dos locais de distribuição desta produtora. «Trabalho com algumas frutarias quando existe excesso de produção, mas o foco é a entrega direta ao consumidor. Iniciei na Moita, o nosso local de produção, e fomos crescendo», conta, enquanto ao lado um dos seus funcionários vai entregando cabazes às pessoas que chegam para levantar as suas encomendas. Vão no cabaz dois pimentos, dois alhos franceses, um molho de rúcula, uma alface roxa, seis ou sete batatas, uma couve portuguesa, um pequeno saco de uvas, seis ou sete peras e um molho de espinafres. «Nunca fiz as contas certas, mas tenho a sensação que pagaria mais por isto num supermercado», diz-nos Vanda Soares, cliente de Ana há quatro anos.
Vanda Soares (à esquerda) e Ana Marques (à direita), cliente e produtora do PROVE
Os produtos são cultivados em modo de produção integrada, com muito pouca utilização de químicos, e foram apanhados no próprio dia ou no dia anterior. É por isso que nem sempre é possível saber o que vem no cabaz. «Já dei por mim a ter de inventar coisas para cozinhar, o que também nos leva a provar coisas diferentes», diz Vanda Soares. Ana Marques explica-nos que «os clientes podem assinalar alguns produtos que não queiram receber», mas que o cabaz é definido pelo que «a terra nos dá», variando todas as semanas.

Para quem não tem disponibilidade para ir levantar os produtos hortícolas aos pontos de entrega do PROVE, existem empresas que entregam, gratuitamente, os legumes e a fruta em casa. É o caso da Quinta do Arneiro, perto de Mafra, que vende produtos de agricultura biológica, um tipo de agricultura que não tem quaisquer adição de químicos ou OGM (Organismos Geneticamente Modificados).

Para além dos oito hectares de agricultura biológica, tem ainda mais 20 com produção de pera em massa, para as grandes superfícies. «Se pudesse, já tinha todos os hectares em produção biológica. Com a pera, nunca sabemos a que preço vamos vender, quando nos pagam, porque temos enorme pressão sobre os preços. Os revendedores aproveitam-se do facto de ser um produto fresco, que precisa de ser escoado, porque sabem que é o nosso ponto fraco. É uma pressão doentia», lamenta Luísa, que também por isso preferiu deitar mãos a todo o processo. «Queríamos ficar com todo o dinheiro da venda, e por isso começámos a fazer os cabazes, e assim os produtos que chegam a casa do cliente não têm nada a ver com os produtos que vão para as prateleiras dos supermercados. Os nossos produtos são apanhados e no dia seguinte estão em casa do consumidor», explica, acrescentando que há produtos que compram a outros produtores de agricultura biológica para compor o cabaz, mas garante que «não pressionamos os preços, pagamos o que é justo».

Jean Rocha é o mentor do projeto A Tua QuintaTambém na zona de Lisboa, Jean Rocha iniciou há dois anos o projeto A Tua Quinta. «Sou eu que faço as compras para a minha casa, e venho de uma aldeia onde tudo o que vem da terra cheirava bem. Mas quando ia ao supermercado via que os legumes não tinham o mesmo cheiro. E por isso quis voltar ao conceito da aldeia, aos cheiros dos legumes e frutas», refere este distribuidor. Ao contrário dos outros dois projetos, Jean Rocha compra tudo a pequenos produtores, e entrega em casa. Não tem loja física. «As pessoas hoje em dia têm muito tempo ocupado e não querem perder tempo nas compras. Nós substituímo-las nessa tarefa e diferenciamo-nos pela qualidade dos produtos», afirma, adiantando que já possuem cerca de 100 clientes regulares. Também aqui os preços são similares aos das grandes superfícies.

A opção por comer mais saudável depende apenas dos clientes. Por vezes, a pequena diferença no preço não justifica comer alimentos cheios de químicos e sem o sabor tradicional da nossa terra. Outras vezes, a distração ou a comodidade levam mesmo a que se gaste mais dinheiro com produtos que têm menor qualidade. No final de tudo, o que importa são as opções de quem faz as compras.

Pode ler a reportagem completa na edição de outubro da sua revista Família Cristã.
 
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
Continuar a ler