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A Amoris laetitia não pode «ficar na gaveta»
16.06.2021
 
O apelo é feito pelo Pe. Alexandre Awi Mello, secretário do Dicastério para os Leigos, Família e Vida, no Vaticano, ao fazer o balanço do congresso «Em que ponto estamos na aplicação da Amoris laetitia?», que juntou, de forma virtual, responsáveis da pastoral familiar de 70 conferências episcopais de todos os continentes e 30 movimentos internacionais de família.

Pe. Alexandre Awi Mello é o secretário do Dicastério dos Leigos, Família e Vida (Foto de Arquivo) 
Uma «oportunidade muito boa de encontro», diz o sacerdote, que indica como principal «fruto» a criação de uma rede de partilha de boas práticas, como já acontece com os leigos e os jovens, dois das áreas que o Dicastério tem sob a sua alçada. «Queremos implementar, nos próximos meses, uma plataforma para manter essa rede unida, como temos já no caso dos jovens. Ali será um espaço de partilha de boas experiências», afirma, em declarações exclusivas à Família Cristã.
 
Há um ano, o dicastério enviou a todas as conferências episcopais um questionário que visava perceber de forma qualitativa, como estava a aplicação da Amoris laetitia em cada país. Responderam «cerca de metade das conferências de todo o mundo, um número considerado suficiente pelo sínodo dos bispos», indica este responsável.
 
O questionário surge na sequência das normas aplicadas aos sínodos, «na nova perspetiva da Episcopalis Communio», que é a constituição do sínodo dos bispos, aprovada em 2018, «onde se dá o passo de dividir a preparação do sínodo, a realização e a aplicação, ou implementação». O Pe. Alexandre explica que «os Dicastérios responsáveis pelo tema de cada sínodo ficam responsáveis pela etapa de implementação, e ficámos com essa missão do sínodo dos jovens e da família. Por isso, era importante para nós percebermos em que ponto estávamos nessa implementação».
 
Segundo este responsável, o questionário mostrou que, apesar de dizer que «muita coisa se fez», «a maioria tem ainda muito que fazer». «A etapa posterior aos sínodos foi marcada por uma polémica relativamente ao capítulo VIII, a própria comunicação social aproveitou-se disso e deixou muita gente confusa em relação à aplicação da exortação, que na verdade tem o seu coração no capítulo IV e III, como o Papa tem insistido. Havia muita coisa bonita da exortação que não foi totalmente recebida pelas diferentes famílias, paróquias e movimentos», reconhece, e daí também a convocação deste ano especial e deste congresso. «Este fórum foi também uma oportunidade pra voltar ao essencial, a temas que consideramos que precisam de ser bem trabalhados», indica.

Os participantes pediram exemplos práticos de como aplicar a exortação do Papa. 
Ao longo dos dias de trabalho, muitos dos participantes iam dando conta da preocupação de receberem ideias práticas para levarem para os seus países. «Nós percebemos que há pessoas que querem fazer muito, mas não sabem como. Por isso, tínhamos, em cada tema, a apresentação principal e depois uma ou duas experiências pastorais, para ilustrar como aquele tema pode ser colocado em prática e, nesse sentido, no chat notávamos que muitos iam colocando as suas experiências, de como faziam as coisas no seu país. Esse intercâmbio é algo que falta, e quisemos proporcionar essa oportunidade, e espero que se intensifique», refere.
 
Este encontro estava pensado para ser presencial, mas as circunstâncias da pandemia não o permitiram. «Ganhámos muito pelo facto de termos mais países a participar, mas perdemos no contacto pessoal. Acho que se criou um bom ambiente e as pessoas conseguiram envolver-se, e ficou essa rede», indica.
 
No futuro, «assim que pudermos fazer um evento presencial, assim o faremos», espera este responsável. «Nada substitui o contacto presencial, mas temos países empobrecidos, economias que ainda não superaram totalmente a crise, sequer de emergência sanitária, e não podemos ignorar essa realidade».
 
Pandemia obrigou a «aprender muito»
Uma realidade que se aplica também às dinâmicas utilizadas para levar a cabo a dinamização deste ano. «Temos sido obrigados a pensar muito mais nos temas da comunicação, e o facto de o Papa ter gravado 10 vídeos sobre cada capítulo da Amoris laetitia» ajudou muito na divulgação, refere o Pe. Alexandre Awi Mello.

Cardeal Farrell, presidente do Dicastério, no encerramento do Congresso "Em que ponto estamos na aplicação da Amoris laetitia" 
O sacerdote defende que esta realidade da pandemia serve também para que «cada diocese, paróquia ou movimento possa ser criativa». «Estamos a apontar no sentido de motivar as paróquias, dioceses, movimentos, a fazerem tudo o que puderem para não deixarem a Amoris laetitia na gaveta, e tentarem tirar todo o proveito deste ano, através dos subsídios e vídeos» que o Dicastério tem disponibilizado no seu site e redes sociais.
 
Um «desafio» que permitirá a cada realidade local adaptar o conteúdo à sua maneira, «muito melhor do que trazer aqui um mínimo de gente, deixando a maior parte das famílias de fora». «A pandemia está a ajudar-nos a repensar a nossa forma de trabalho. Antes fazíamos grandes congresso em Roma e pensávamos que chegaria às bases, mas talvez a mentalidade tenha de mudar. Damos todo o material que as bases precisarem, mas pedimos “tentem fazer aí”, porque vão atingir muito mais do que poderíamos atingir aqui. Um Congresso em Roma junta 300 pessoas, mas missas locais a dinamizar este tema em todo o mundo atingirão muito mais gente», defende o Pe. Alexandre.
 
O Ano Família Amoris laetitia teve início a 19 de março de 2021 e irá prolongar-se até à realização do Encontro Mundial de Famílias, em 2022, em Roma.

 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Dicastério Leigos, Família e Vida
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