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«A ansiedade é a doença do nosso século»
19.09.2019
Ana Galhardo Simões é psicoterapeuta corporal e fala-nos sobre o problema da ansiedade que pode prejudicar todos os alunos que estão a iniciar o ano escolar numa escola nova, ou na transição de ciclo. É um tempo difícil, mas que se ultrapassa com uma presença ativa dos pais, colaboração com as escolas e, se necessário, a ajuda de profissionais.

 
A ansiedade nas crianças é um problema que existe?
A ansiedade é a doença do nosso século, juntamente com a depressão. A ansiedade associada ao regresso à escola existe e é um problema.
 
Que acontece essencialmente por causa do quê?
Por causa do medo. A emoção que está na raíz da ansiedade é o medo. Imagine uma criança que vai para uma escola nova onde não conhece ninguém, ou muda de ciclo e não sabe com quem vai ficar na turma. Há um milhão de razões, uma criança que não tem sido bem sucedida em termos académicos…
 
Mas o problema maior surge nas transições de ciclos?
Se falarmos de crianças sem problemas de aprendizagem sim, nas transições ou na entrada para uma escola nova, mesmo que não seja transição de ciclo. É nessas alturas que o medo vem ao de cima, e se percebe a capacidade que eu tenho de controlar o medo que está dentro de mim, para que não seja gerador de ansiedade e muito menos que vá subindo a escadaria até ao ataque de pânico. Hoje em dia infelizmente temos crianças pequenas já a ter ataques de pânico por causa disto.
Tive um miúdo que não foi atempadamente trabalhado pelos pais, e quando chegou ao 5º ano tinha ataques de pânico e problemas de inserção social.
 
Quando falamos de ataques de pânico, falamos do quê?
Falamos de todos os sintomas físicos que estão associados à ansiedade e que já estão descontrolados: sudorese, taquicardia, sensação de não conseguir respirar, que vai morrer…
 
Parece estranho estarmos a falar desses sintomas em crianças de seis anos…
De seis anos, de dez… mas também parece estranho falar de crianças deprimidas com cinco ou seis anos, mas o facto é que existem. Acontece cada vez mais, e encontramos crianças com todos esses sintomas, e novas. É mais normal a partir dos 9, 10 anos, mas encontramos mais novos com sintomas físicos da ansiedade.
 
E como é que se consegue detetar esses sintomas, antes que escalem para estes extremos que falávamos?
A criança isolar-se, passar a comer menos bem nos dias anteriores ao início das aulas ou durante os primeiros dias de aulas. Ela estar mais fechada sobre si própria, dormir menos bem, estar mais hiperativa ou menos ativa, qualquer um dos pólos pode ter a mesma base. Somos todos diferentes, e reagimos às coisas de maneira diferente, e por isso podemos estar nas polaridades, e hoje em dia sabemos que a hiperatividade é mais uma fuga à depressão que outra coisa qualquer. Tudo isso são sintomas que os pais devem estar atentos, e sobretudo devem estar muito próximos da escola nas transições. Conhecer bem os diretores de turma, perceber quem é a turma dos filhos, que miúdos estão ali, e se necessário definir estratégias com a criança. Quando se conversa com a criança, ela não fica calada. Acho que nos esquecemos imenso de perguntar “o que é que sentiste?” às crianças, de tal forma que elas muitas vezes já não o sabem dizer. Não temos essa cultura de educar a inteligência emocional das crianças, e as escolas também não, e para eles fica difícil às vezes responder a coisas tão simples.
Quando os pais vão acompanhando todas estas situações de perto, estão próximos dos diretores de turma – eu, como mãe, tirava sempre a primeira semana de aulas deles de férias, para poder estar mais próxima, não os deixar na escola depois de terminar o período escolar, porque isso provoca uma insegurança enorme nas crianças. O acompanhamento pode ser feito nessa primeira semana, e depois importa perceber quando é que o filho, depois disso tudo, precisa de ajuda externa.
 
E o que é que os pais podem fazer, em termos reativos, mas também em termos de prevenção?
A ansiedade existe sempre, mas há coisas que se podem fazer para a controlar. Os pais podem ensinar as crianças a tomar consciência das suas emoções e a respirar. Nós só temos duas armas para lutar contra a ansiedade: saber respirar e beber água. Através da respiração completa, para abrir o bloqueio que a ansiedade nos provoca no diafragma, naturalmente reduzimos os níveis de ansiedade. Depois, quando estamos ansiosos, há uma descarga de adrenalina que traz uma determinada toxicidade para o organismo. Se formos bebendo água muito devagarinho, porque se for muito rápido podemos engasgar-nos, vamos diminuindo esse nível de toxicidade.
 
Imagino que promover o diálogo com os filhos ajudaria…
Sim, muito (risos). Normalmente, apanhamos miúdos ansiosos que são filhos de pais ansiosos, há quase sempre essa correlação. Não sei se não é científica, pois há dias soube de um estudo sobre o ADN emocional que os filhos passam aos pais. Mas, empiricamente falando, uma criança que é educada no meio de muita ansiedade tende a ser uma criança mais ansiosa, porque não consegue ter a calma necessária para se gerir internamente. Portanto, a primeira coisa é que esses pais tratem deles próprios, que aprendam essas ferramentas, procurem quem lhes possa ensinar essas ferramentas, para que eles as possam passar aos filhos. Hoje em dia há um conjunto larguíssimo de apps no telemóvel que ensinam a respirar, meditar. Não vamos pôr ninguém a meditar, mas para respirar bem toda a gente tem tempo. Enquanto vou de carro para algum lado, posso respirar suficientemente bem e de forma profunda para chegar bem ao meu destino.
Depois, os miúdos gostam de falar muito ao deitar. Os pais acham que é para adiar a hora de deitar, mas eu acho que não. É o único momento em que eles têm o pai ou a mãe só para eles, sem mais nada que fazer do que estar ali a deitá-los. Os pais queixam-se imenso de que à hora que se deitam é que querem falar. Eu sugiro que os deitem meia hora mais cedo e fiquem com eles esse tempo, porque ele vai contar imensas coisas que se passaram no seu dia a dia. Quando estamos na gritaria do quotidiano, a conversa não surge. Ao jantar, as famílias deveriam estar sempre à mesa, juntas, mas infelizmente já não acontece em muitas famílias. Na hora que se deitam, têm-nos só para eles. É aí que podemos dizer-lhes o quanto gostamos deles, para lhes dar força, que acreditamos neles, e para, se necessário, definir estratégias com eles, porque há muitas que podem ser definidas quando eles estão com estas dificuldades.

O quê, por exemplo?
Por exemplo, indicar que nunca sejam o último a sair da sala de aula, têm de sair a meio, porque se saem em último quando chegam ao recreio já todos estão nas suas brincadeiras e é mais difícil integrar-se. Outra coisa é os pais partilharem como se sentiam nessa idade, o que não fazem. Se os pais tiverem a capacidade de partilhar como é que se sentiam nessa altura e o que fizeram para ultrapassar, isso vai fazer com o que o filho diga “o meu pai afinal passou pelo mesmo e ultrapassou”…
 
Mas assim, as crianças que terão mais problemas são aquelas que os pais terão menos capacidade de ajudar, porque eles próprios sofrerão do mesmo…
Pois, é interessante, é uma pergunta à qual eu não sei responder… nós temos muita dificuldade em lidar com o que fazemos ao espelho. Olhando para o filho, dizem “o meu filho é tão tímido, e eu também era assim”, e em vez de utilizarem isso como uma mais-valia para ajudarem os filhos a ultrapassar isso, fazem espelho, e como não resolveram isso dentro de si, não sabem lidar e afastam-se, e isso passa a ser um problema.
 
E isso pode complicar mais a coisa?
Sim, porque o pai não mexeu com a ferida a tempo e horas e o filho aparece com a mesma questão e estão a obrigá-lo a mexer na sua ferida enquanto ajuda o filho, e isso é mais difícil.
 
Até que ponto as escolas podem ajudar neste processo?
Eu conheço imensas escolas e acho que fazem o que está ao seu alcance, mas acho que o que elas fazem é nada. Não há uma coisa séria em termos de educação emocional e comportamental. Acho que seria muito importante que as escolas caminhassem para ter programas em que, uma vez por semana, com cada grupo de miúdos, os ensinassem a ultrapassar as suas questões, a comportar-se e a relacionarem-se.
 
E é um papel que devem assumir?
As escolas poderiam e deveriam ter este papel, acho que não era tão difícil assim. O que já fazem -  ir um dia antes, fazer uma visita guiada, os mais velhos serem “buddies” dos mais novos – é bom, mas não é suficiente.
 
Porque é que não se avança por aí?
Não há noção da importância da questão, há poucos recursos. As leis que o Ministério da Educação vai pondo cá não casam com a realidade das escolas. Nós tínhamos uma lei para crianças com necessidades educativas especiais, que foi completamente posta de parte, e agora saiu outro artigo que diz que cada criança tem de ter na escola aquilo que precisa, seja em termos de desenvolvimento, cognitivo, emocional, seja lá o que for. As escolas não conseguem dar resposta a isto…
 
Porquê?
Porque não há recursos, porque as coisas não foram trabalhadas para que atempadamente todos saibam que vão ter os recursos que lhes vão permitir fazer face… as coisas não estão casadas, e andamos nesta eterna guerra.
Mas também os colégios privados não correspondem ao que poderiam neste apoio às crianças, não é um problema das escolas públicas…
 
Este é um problema que afeta a criança nos primeiros tempos, ou pode ter reflexo no resto do ano escolar?
Pode afetar o ano escolar todo. Vou-lhe dar um exemplo de uma criança que fez do 1º ao 4º ano, eu comecei a acompanhar no início do 4º ano. Bons e Muito bons, algumas questões de ansiedade que estivemos a trabalhar ao longo do ano inteiro, uma mãe muito presente, achámos que estava tudo bem. Entretanto, ele entrou para o 5º ano, e a ansiedade foi a sua maior inimiga. Baixou as notas por aí abaixo e no primeiro período corria o risco de ter duas ou três negativas, por causa do medo de mudar de turma, professores, grupo de amigos… e, de repente, mesmo estando a ser acompanhado, ressentiu-se muito, e só porque estava acompanhado é que conseguiu recuperar e terminar bem.
 
Quem não estiver acompanhado, pode ser um problema?
Se a criança conseguir resolver, ótimo. Mas pode acontecer tanta coisa que os pais têm de estar atentos no início, mas também durante o ano. Uma relação estreita com a escola e os diretores de turma ajuda muito, porque eles são os nossos olhos lá dentro, e podem falar-nos de coisas que não sabemos porque não os vemos na escola. A escola tem essa obrigação, para que os pais possam tomar as devidas providências, mas às vezes avisam tarde. Até porque tudo se passa mais no recreio, e os professores não estão lá, e a comunicação não é tão fluida como deveria, e há questões que perduram o ano inteiro. Temos um lado emocional e um lado racional, mas se o nosso lado emocional não estiver bem, vai derramar para o lado racional e colocar em causa as nossas competências escolares. É por isso que há tantos miúdos que, em termos de testes de inteligência está tudo ok, mas emocionalmente não estão bem e não conseguem ter as notas que poderiam ter.
 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna
 
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