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A chave de todos os diálogos
31.10.2016 09:00:00
Não sei localizar o dia nem a hora, mas recordo-me bem do tempo em que uma das grandes discussões que ocupava sabatinas domésticas, académicas, clericais e laicas dizia respeito ao uso dos véus nas igrejas – por parte das mulheres. Não vou reabrir o debate porque ele está por si mesmo encerrado, apesar de haver lugares e pessoas que mantêm o uso do véu. E, claro, nem tenho a objetar. E nem por isso vem mal ou bem especial ao mundo.

Passados esses tempos radicais de sim e não para os cristãos, eis que se retoma o tema, não apenas na forma de vestir da mulher no templo, mas de se apresentar vestida na praia. E a intolerância de alguns não é menor. E o problema não é dos cristãos, mas também os implica. O Estado laico de França já proibiu em algumas regiões o burkini, que é como quem diz todo o corpo coberto. Mas já corrigiu o seu próprio mandamento com uma insegurança nervosa. Há alguns anos, a polémica seria sobre o corpo descoberto. Terminado o verão, não fica concluída a controvérsia.

Estamos talvez chegados ao ponto crítico que não diz respeito ao Islão ou ao Cristianismo, nem sequer ao conflito entre estado laico e estado confessional. Apenas confrontados com o respeito pelas diferenças que praticamos e que vemos os outros praticar.

Dir-se-á que há razões e opções inegociáveis. Que a Deus não se fazem perguntas e que a religião é um absoluto que não se pode compadecer com a vertigem e a fluidez dos tempos, que são breves para as pessoas e os acontecimentos, mesmo que tenham ar de eternidade. Quem nos ensinará a ler os tempos e a discernir os seus sinais? Quem nos instruirá sobre a distinção entre o efémero e o perene? Assim, tentamos caminhar para o absoluto, porque não nos entendemos sem ele. Vislumbramos a eternidade mesmo que tenhamos maior apetite pelo tempo. Chegamos ao religioso que veio até nós pela revelação de um infinito que abarca tempo e eternidade, princípio e fim, e nos ilumina sobre os caminhos a percorrer, dando-nos a conhecer o bem e o mal. Esta ligação vincula-nos, ilumina-nos, apaixona-nos. E a noção, mesmo imperfeita, que temos de Deus é o todo, o absoluto, o inquestionável das nossas vidas. Tudo isto se passa como em neblina, mas numa quietude de esperança para um face a face que teremos a alegria de testemunhar.

Gostaria de conhecer o Islamismo suficientemente para afirmar que tudo o que descrevi pode acontecer no coração de um crente em Alá e discípulo de Maomé. E muitos são mártires. Mas há grupos marcados por um fundamentalismo de intransigência que aceita a radicalização da fé a ponto de admitir a violência. Lembro as palavras do Papa Francisco no regresso a Roma do Encontro Mundial da Juventude: «Não é justo identificar o Islão com a violência... em quase todas as religiões há sempre um pequeno grupo fundamentalista... Também nós os temos... Se falo de violência islâmica, também tenho de falar da violência cristã.»

E não esqueço o que dizia na mesma viagem: «Podemos matar tanto com a língua como com uma faca.»
Aqui chegados, não podemos ignorar a Porta da Misericórdia que se abre diante de nós. Tem-nos feito bem este Ano Jubilar. Tem-nos oferecido novos olhares de Deus para nós e possivelmente de nós para Deus. Uma espécie de ovo de Colombo que o Papa ofereceu à Igreja e que o mundo entendeu. Aos poucos, ele vai revelando, em pequenas frases com aspeto de insignificância, a grande dimensão do amor de Deus por todos, não obstante os pecados de todos e de cada um. Por isso fica-nos a pergunta: Porquê perder tempo com dissidências e conflitos com a Igreja e com o mundo, quando sabemos que a misericórdia é a chave de todos os diálogos?