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À espera de outro texto
12.09.2016
Setembro é um mês de recomeços, de tomadas de decisão, de planos a médio prazo, de estabelecimento de metas. E este podia ser um texto “feliz” (e já cansativo, eu sei), utilizando a minha maneira de ver a vida.
Mas não é!

O sol não aquece sempre, às vezes a vida é escura e subterrânea ou o buraco em que se caiu é fundo e está coberto por vegetação.
O sorriso muitas vezes não ilumina, porque as lágrimas não deixam passar a luz. A esperança passa a ser uma palavra que pertence apenas ao resto do mundo, que fala numa língua diferente.
O cansaço leva os sonhos e os objetivos. Mas eles também podem esperar, não há pressa. Que mania esta de se correr… e de falar! Falar também cansa, leva as poucas energias que restam. Alguém que explique isto ao resto das pessoas por favor!

Porque agora só apetece dormir, chorar, não responder a nada, não explicar nada, não sorrir, não ouvir, não sonhar… agora, sobrevive-se negando a vida, para que ela não doa!
Não sei se é isto que ela pensa, se é isto que ela sente. Da depressão, conheço o que leio, o que pesquiso, o que se estuda. Sei que afeta uma grande parcela da população, sei que afeta muitos portugueses… é como uma espécie de cancro da alma, afeta quase sempre pelo menos um elemento de uma família ou de um amigo.

Sempre pensei que fosse conhecedora do assunto o suficiente para me saber comportar perante uma pessoa com depressão.
Enganei-me. Não sei se porque a pessoa não é desconhecida que chegue, se porque é jovem, se porque gosto dela… dou por mim a conversar com ela, a utilizar todos os argumentos que já ouvi da boca de psicólogos e a pensar, a cada frase proferida, que faço melhor em manter-me calada.

O olhar vazio, o sorriso distante, a cara vidrada pelas lágrimas que correm, ou pelas que ficam presas, tanto faz… é difícil chegar-lhe.
Responde pouco, fala ainda menos, não sei se me ouve, acho que tolera ouvir-me falar.
Quanto mais falo, mais impotente me sinto. E, pela primeira vez, eu, que sou tão convicta de que cada um deve travar as suas batalhas, tomar as suas decisões, que devemos apoiar, mas nunca substituir o outro, dou por mim a querer trocar de lugar contigo.

Quem me dera poder viver por ti por um bocadinho, fazer-te sentir a minha maneira de ver o mundo e as coisas… porque dizer-ta ou mostrar-ta parece ridículo, parece uma conversa vazia, a roçar a psicologia de bolso.
Mostrar o “copo meio cheio” a quem só tem água salgada para beber parece quase uma afronta. Pedir para se levantar a quem está paralisado, um gozo. Falar de objetivos a quem não consegue ver para fora de si, uma burrice.

Quem me dera poder viver por ti por um bocadinho… arrumar-te a casa, deixá-la quentinha e a cheirar a bolo de iogurte. Assim, quando voltasses, talvez conseguisses sentir-te segura para continuares o teu caminho. Assim, quando eu te deixasse, talvez soubesse dizer as frases certas que aliviassem a tua dor.

Sei que não me ouves agora, não porque não queiras, mas porque não consegues. Está muito barulho aí dentro, eu sei. Mas há de voltar a ser um sítio de paz, vais ver.
Felizmente existem pessoas que sabem tocar os botões que se desligam numa pessoa com depressão. É deixá-los fazer o seu trabalho, ajudados por ti, que mais felizmente ainda, conseguiste, no meio do caos, gritar por ajuda.

Eu vou continuar a falar para que quando conseguires escutar novamente possas ouvir-me dizer que gosto de ti e saibas que estive sempre contigo.
Nesse dia, escrevemos as duas um texto “feliz e cansativo”. Que dizes?
Foto: Freeimages/ Andrew Keller