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À Família Cristã, muito obrigada!
12.11.2022
Habituei-me a ver em nossa casa a revista FAMÍLIA CRISTÃ desde a minha adolescência. Meus pais não eram assinantes, porém adquiriam mensalmente esta revista numa livraria de Braga, que facultava mensalmente aos seus clientes a compra da FAMÍLIA CRISTÃ, sob o compromisso de ser adquirida efetivamente todos os meses. Estávamos nos anos 80 e os serviços dos CTT, sendo exemplarmente pontuais, nem sempre cobriam todos os lugares das aldeias minhotas, muitas vezes serviam de posto dos correios os próprios estabelecimentos comerciais, as ditas “vendas”, era o nosso caso. Quanta vezes, fui eu adquirir a revista FAMÍLIA CRISTÃ a Braga e depois de a “visitar”, durante o trajeto feito na “camioneta” da carreira pública, colocá-la na livreira da nossa casa.

A sua leitura era feita por meus pais em pormenor e com boa disposição, até ao humor da última página. Por vezes, havia artigos que mereciam comentários e reflexão à mesa e até empréstimo da revista para meus tios e familiares lerem. A revista, porém, era colecionada com cuidado e se porventura perdêssemos algum número, procurávamos adquiri-lo na livraria Diário do Minho, para que a coleção fosse completa. Devo confessar que ainda hoje estão guardadas estas revistas em nossa casa, como recordação da nossa família e do nosso crescimento na formação da Fé.

De facto, a FAMÍLIA CRISTÃ revestia-se de um carisma muito peculiar e por isso útil e agradável. De modo leve, atraente e bem fundamentado, ia dando às famílias coordenadas de leitura cristã para os diversos Sinais dos Tempos.

Acontecimentos como o Concilio Vaticano II, a reforma litúrgica e o acompanhamento das mudanças da Missa Dominical nas paróquias, do Latim para o Português; a chegada da televisão; as transformações consequentes do Maio de 1968 vivido na França, chegadas a Portugal pelas vias das fortes correntes da migração então muito efervescente; o impacto da Revolução dos Cravos nas diversas componentes da vida política, cultural, social e religiosa; a aprendizagem da construção de uma sociedade baseada nos valores da liberdade; as questões da descolonização que atingiram tantas famílias; as grandes transformações do ensino nas escolas, Politécnicos e Universidades; a nossa adesão à Comunidade Europeia, com o fim das fronteiras e a convivência com as diferentes culturas, através do acordo de Schengen; os efeitos da revolução informática e digital; os diferentes impactos na vida das famílias, fruto das crises económicas nacionais e internacionais; a grande expansão do turismo na vida das nossas cidades; a grave crise da pandemia de covid-19 e as diferentes guerras entre povos; outros temas úteis como a saúde e a economia doméstica, a alimentação, a toxicodependência, a maternidade e a paternidade, o saber envelhecer, as pessoas com deficiência, a puericultura, a culinária, o desporto, as férias e o lazer, todos estes temas da vida quotidiana, da cidadania e da família, foram sendo abordados por uma diversidade de autores bem preparados e de forma plural, aberta e atualizada. A FAMÍLIA CRISTÃ não foi uma revista de especialidade, mas uma companheira de utilidade, proporcionando uma leitura amena, acessível e muito interessante.

Como Bispo da Igreja, sinto-me obrigado a louvar a Deus por tão grande serviço prestado à Igreja em Portugal. Obrigado aos Padres Paulistas, à PAULUS Editora, a todos os colaboradores, funcionários e leitores. Tudo o que foi feito permanece para sempre como obra marcada pela beleza do Amor, pela dimensão de quem serve e de quem ilumina com a luz do Evangelho a caminhada dos humanos. A revista FAMÍLIA CRISTÃ deixa marca, faz memória e ajudou de modo indelével a Pastoral Familiar da Igreja em Portugal e nos PALOP. Tratou-se de um instrumento de evangelização pelo acompanhamento constante e atento, levando às famílias o olhar cristão da Doutrina Social da Igreja.

Nada tenho a dizer sobre o facto de com este número se encerrar a publicação desta revista cristã, confio em absoluto no discernimento e na gestão de prioridades que os caríssimos Paulistas fazem do seu trabalho missionário e dos seus meios e possibilidades. Todos sabemos das enormes dificuldades com que a imprensa se debate. Por isso, estou com os Paulistas e partilho a sua dor, pois acredito que esta é uma decisão sofrida. Trata-se de encerrar um dos mais notáveis e populares símbolos do Carisma Paulista em Portugal.

De 2009 a 2014, colaborei na revista através da rubrica mensal «Diálogo com o Padre». Esta colaboração terminou porque a 29 de junho de 2014 fui ordenado Bispo em Évora e enviado como Auxiliar para Braga, e só esta mudança de vida ministerial me fez encerrar a colaboração mensal. Devo agradecer a bela oportunidade que a Direção da Revista me proporcionou. Os diálogos, construídos em forma de resposta a dúvidas e questões colocadas pelos leitores, obrigaram-me a estudar questões muito diversas, e por vezes complicadas, e até a recorrer ao apoio de peritos para me esclarecerem em matérias que não dominava. Na realidade, recebi muito mais do que dei neste exigente trabalho.

À FAMÍLIA CRISTÃ, muito obrigado.