Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
A família e a COVID-19
29.06.2020
Uma amiga, muito focada na sua vida profissional, dizia-me que neste tempo de confinamento está a ser muito feliz, como não se lembra de ter sido. A sua família estava mais unida. Outra confessou-me que tinha saudades de estar junto da filha. Não estavam tanto tempo juntas desde que ela era bebé.

Quando nos tornamos pais e mães, as nossas prioridades mudam e ter alguém que depende totalmente de nós faz-nos ver as coisas, o mundo e as relações de forma muito diferente. O mundo pode ser o mesmo, mas o nosso olhar sobre ele muda. Do que vejo, acontece o mesmo com os pais homens. Deixar os nossos bebés entregues a outras pessoas, em berçários, creches, etc., exige uma grande dose de confiança. E muitas vezes nem temos grandes bases e conhecimentos para poder confiar-lhes o que de mais precioso temos. Dizem-nos que temos de os deixar lá, porque temos de ir trabalhar. «Tem de ser», «Acontece com todos», «faz-lhe bem»… São frases que nos dizem para nos consolar e convencer da inevitabilidade desta separação em idades tão precoces como seis meses ou ainda antes. Mas será assim tão inevitável fazê-los sofrer e a nós também? Será que tem mesmo de ser assim vivermos a maior parte do nosso dia a trabalhar? Será que tem mesmo de ser assim a vida a desejar ter mais tempo com os nossos filhos e a nossa família? E não quer dizer que não se goste do que se faz. Nada disso. Pode-se ser muito feliz profissionalmente e sentir essa divisão. E também há empresas que facilitam a conciliação e outras para as quais isso é desperdício.

Também é verdade que nem todas as pessoas sentem estas coisas da mesma forma. Mas esta minha amiga, tão focada e dedicada ao trabalho, sente-se tão feliz como nunca tinha experimentado ao passar mais tempo com a sua família. Isto alertou-me: se pudéssemos provar o bom que é estarmos mais juntos, investirmos tempo e amor nas nossas famílias, será que não desejaríamos estar mais juntos? O amor não cresceria? Não teríamos famílias mais unidas e felizes?

Muito se tem falado dos impactos negativos da pandemia. Mas também é preciso falar das consequências positivas. Esta valorização da família como reduto da nossa segurança física e afetiva, este tempo que passamos juntos e que tentamos seja o melhor possível, as memórias boas que estamos a criar nos nossos filhos e em nós mesmos, a união e o amor que cresce com o alimento quotidiano, a criatividade de encontrar novas formas de estarmos juntos, a atenção aos mais idosos, o autoquestionamento acerca da forma como vivíamos antes… São aspetos que vejo como positivos. Vejo-os a acontecer na minha própria família e em outras que conheço.

E depois da pandemia, perguntar-me-ão? Acredito que a forma como temos vivido enquanto sociedade terá de mudar em muitos aspetos. Na conciliação entre trabalho e família também. Há uma parte pessoal, da forma como cada um vive a sua vida, a sua dedicação ao trabalho e à família, como define as suas prioridades e a gestão do seu tempo. Há outra parte que é de “mentalidade social”: tantas vezes não parece bem a criança ficar em casa com os pais, ou o pai dar prioridade à família quando todos os colegas a dão ao trabalho, ou a mãe não prolongar o seu horário, ou sentir que tem de provar ser bom profissional, ou… Finalmente, mas não menos importante, há uma parte política. Temos, em Portugal, boas medidas e há países bem piores do que nós. Mas também há outros países, com licenças de maternidade de um ou dois anos, em que se possibilita o trabalho parcial ou teletrabalho até mais tarde, com horários flexíveis para todos (independentemente da idade da criança) por forma a conciliar os tempos de trabalho e familiares. Será que o teletrabalho não pode ser uma opção para os trabalhadores? Na Alemanha, o ministro do trabalho já disse que quer consagrar esse direito na legislação. Por cá, parece-me que ainda há alguma desconfiança. Se o trabalhador não está debaixo de olho, será que está a trabalhar? Se o trabalho o permitir, se as tarefas e os prazos forem cumpridos, o que impede? Não consta que a Alemanha seja despreocupada com a produtividade nem consta que os países que aplicam as medidas que referi anteriormente produzam menos. Trabalhadores felizes trabalham melhor e produzem mais. Está estudado. E quem não quer ser mais feliz e ter países com pessoas mais felizes? Eu quero.