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A fé num hospital
06.09.2021
Durante o mês de julho fui convidado a fazer uma improvável experiência como capelão hospitalar em Letterkenny, na Irlanda, para substituir um dos capelães durante as suas férias.

No início estava receoso e apreensivo, pois tratava-se de um lugar onde não conhecia ninguém e do exercício do ministério sacerdotal numa pastoral muito diferente da que tinha exercido até então. Mas lá fui, confiado de que se tratava de uma iniciativa da Providência Divina e proferindo a frase de Abraão que tantas vezes repito: «Deus providenciará.» (Gn 22,8)

O que mais me surpreendeu foi a fé profunda e enraizada na vida dos pacientes e dos funcionários naquele hospital público. Ali o sacerdote, como ministro de Deus, é considerado isso mesmo, presença de Deus, sobretudo nos momentos de dor e sofrimento. Ali os pacientes pedem e valorizam os sacramentos, a oração e as bênçãos. O Pe. Shane Gallagher, que é um dos capelães, homem santo e gentilíssimo, já me tinha dito isso mesmo! Quanto é importante que os doentes quando chegam ao hospital saibam que a assistência espiritual é um direito que têm e que a ajuda espiritual é tão importante no processo da doença como qualquer outra terapia ou tratamento.

Logo no primeiro dia fui chamado às Urgências, pois tinha dado entrada um senhor com um ataque cardíaco fulminante. Imediatamente me dirigi para lá, pedindo a Deus que me ajudasse por causa da minha inexperiência. Ao entrar na sala de reanimação, o pessoal médico afasta-se do já falecido e diz-me: «Nós fizemos a nossa parte, agora é consigo, senhor padre.» Fiquei impressionado e ao mesmo tempo sensibilizado pela compreensão da importância da fé naquele momento. Senti que pela oração e pela bênção estava a encaminhar aquela alma para Deus, a fazer de ponte entre o reino terrestre e o reino celeste, em nome de Cristo a restituir ao Pai o que Lhe pertencia.

Logo a seguir fui chamado ao departamento da maternidade. Uma mãe acabara de perder gémeos num aborto espontâneo e queria que rezasse com ela e os abençoasse. Nessa altura estava comigo a capelã leiga Kathleen, que entrevistei para um dos próximos números da revista, e que me explicou que têm um ritual (saudação, leitura da Sagrada Escritura, atribuição de nome, preces, Pai-Nosso e bênção final) para estas circunstâncias. Desconhecia e achei belíssimo! Mas emocionante foi a firmeza e gratidão daquela mãe: «Sei que estes meus filhos estão com Deus e dou graças pelas outras duas crianças que tenho em casa!»
Noutro dia, uma senhora com 101 anos mandou chamar o capelão. Estava nos Cuidados Intensivos. A enfermeira disse-me que os sinais vitais estavam a falhar, mas ela estava lucidíssima, como pude comprovar. Apresentei-me e comecei a falar com ela. Percebeu que não era irlandês, e quando lhe disse que era português, o seu rosto iluminou-se e fez um grande sorriso dizendo: «Ah, Fátima! Estive lá duas vezes. É o lugar da Mãe!» Quis confessar-se, comungar e pediu para receber a Santa Unção. Era magra e franzina, tinha um rosto luminoso e uns olhos azuis tão profundos e cheios de humanidade! Quando me estava a despedir, diz-me ela: «Que o caminho venha ao teu encontro. Que o vento te empurre. Que o sol brilhe no teu rosto. Que a chuva caia gentilmente nos teus campos até nos encontrarmos outra vez. Que Deus te segure na palma das suas mãos. Que vivas tantos anos como eu. Esta é uma bênção irlandesa para ti.» Saí de lá com uma lágrima nos olhos, mas também a pensar que viver 101 deve ser demais... No dia seguinte voltei a ser chamado porque a Mary tinha acabado de morrer e os familiares (quatro sobrinhas) queriam conhecer-me e que fizesse a encomendação. Soube por elas que a Mary era a última da sua família. Percebi que nunca se tinha casado, mas tinha praticamente criado as várias gerações da família porque os pais tiveram de emigrar. As sobrinhas não tinham adjetivos para descrever a generosidade, bondade e tenacidade da tia!

E que exemplos de fé encontrei nas enfermeiras e auxiliares de saúde! No hospital estão sempre atentos (e a sugerir aos doentes) para ver quando é preciso o capelão. Nas suas casas, promovem encontros de oração pelos sacerdotes, pelos doentes, pelas almas do purgatório e pela Igreja.

Não contabilizei, mas foram muitas as confissões, santas unções, comunhões, bênçãos e orações, celebrações e momentos de adoração que fiz naquele hospital. Várias vezes chamado a meio da noite, certos momentos com pouco tempo até para comer, mas nunca me senti cansado. Vem-me à mente Isaías: «Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, criam asas, como águias, correm e não se fatigam, podem andar que não se cansam.» (Is 40,31)