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«A Mim o fizestes»
08.03.2016
No Ano da Vida Consagrada, fruto da ocorrência do cinquentenário do documento do Concílio do Vaticano II Perfectae caritatis, sobre a renovação da vida religiosa, que encerra dia 2 de fevereiro, sobressai, em feliz coincidência com o Jubileu da Misericórdia, o propósito de que toda a obra cristã visa a santidade na relação com Deus concretizada na prática das obras de misericórdia, tendo como mote de fundo a afirmação de Jesus: «Todas as vezes que fizestes isto a um dos menores dos meus irmãos, a Mim o fizestes.» (Mt 25,40)

Os últimos séculos foram pródigos no surgimento de institutos e obras religiosas de cariz apostólico que supriam as enormes carências sociais. «Eles são homens e mulheres que podem acordar o mundo. A vida consagrada é uma profecia», afirmou o Papa Francisco quando anunciou a dedicação de 2015 à Vida Consagrada, visto que os Estados pouca ação tinham nessas áreas, salvo honrosas iniciativas como, em Portugal, a fundação da Santa Casa de Misericórdia. Olhando para os dois mil anos de ação missionária e apostólica cristã, quanto não foi feito em prol da humanidade na defesa de todos os povos do direito à vida e à sua própria dignidade, em todos os continentes e épocas da História, alicerçando as bases para a construção de uma sociedade que hoje se considera mais justa e igualitária, ou seja, democrática e civilizada?

Nem sempre o mundo reconhecerá a dedicação e coragem de homens e mulheres, ainda que com as limitações próprias de cada época – da qual ninguém pode ser abstraído –, que, assumindo o ideal evangélico de serem “sal da terra” e “luz do mundo”, demandaram com espírito missionário as periferias do globo e, no último século e meio, os subúrbios mais recônditos dos grandes centros urbanos. Por muito que se desenvolva o estado-providência, as obras religiosas, e da Igreja em geral, não ficam inoperantes, haverá sempre novas necessidades e urgências que obrigam a reformular mentes e estruturas para acolher os indigentes dos tempos modernos, como os refugiados. Há que não esquecer os nichos de pobreza material e humana permanentes, onde só as almas mais abnegadas conseguem chegar com a mais-valia da fé imbuída do espírito do Evangelho.

Muitos passam pela provação da vida ajudados pela presença e pela palavra de quem crê, para se tornarem, por sua vez, exemplo dessa superação, como relatam os testemunhos vivos que podemos ler na rubrica Sociedade deste número. A vida religiosa constitui uma especial consagração que exprime melhor a consagração radicada no Batismo (Perfectae caritatis, n.º 5), daí ser fonte de inspiração para todo o cristão batizado, segundo as orientações do Concílio Vaticano II. Ao cristão não basta cuidar das feridas para que a sua missão esteja terminada.

Sem sombra de proselitismos, há que chegar ao coração ferido da pessoa doente e necessitada de sentido e de orientação para reencontrar a alegria de viver. Quando apresentaram um paralítico a Jesus, ao ver a fé daquela gente, logo afirmou: «Filho, os teus pecados estão perdoados» (Mc 2,5), só depois o curou do mal físico, para não parecer um simples taumaturgo. A marca de água da obra cristã está na supressão das necessidades e carências humanas deixando entrever, ao mesmo tempo, o rosto misericordioso de Deus, porque antecipadamente se descortinou esse mesmo rosto sofredor e desfigurado nos que têm fome ou sede, nos doentes ou prisioneiros, nos peregrinos ou refugiados.