Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
A morte não elimina o sofrimento, elimina a vida da pessoa que sofre
09.12.2019
Várias vezes é notícia alguém que sobe a um edifício ou a um viaduto para tirar a vida. Acompanhamos, com emoção, os esforços de salvamento das forças de segurança: as palavras dirigidas, a paciência, a tentativa de tranquilizar, a aproximação cuidadosa. Ficamos confortados quando a operação é bem-sucedida e, pelo contrário, se não se chega a tempo, fica-nos uma tristeza na alma, como se nos déssemos conta, nessa situação-limite, de que aquela pessoa é nossa irmã, pertence a um povo a que também pertencemos, a sua partida é uma perda irreparável, somos parte da cultura que lhe foi insuficiente.

A humanidade em nós estremece diante da vida, comove-se com o nascimento, sofre com a morte, luta pela sobrevivência, procura meios, cada vez mais sofisticados, para salvar e prolongar a vida. As profissões mais ligadas à defesa da vida merecem-nos um respeito especial, uma gratidão, uma estima, sejam médicos, bombeiros, polícias ou militares. São pessoas que dão ou arriscam a vida para salvar a nossa e isso é de uma nobreza incontestável.

Ao longo da História houve grupos humanos com práticas como extermínio, sacrifícios humanos, canibalismo, banalização da violência até à morte, “justiça” pelas próprias mãos. Repudiamos isso. Como rejeitamos a pena de morte, hoje erradicada em quase todo o mundo. Pelo contrário, regressa a tentativa de legalizar a eutanásia.

A eutanásia é uma ação ou omissão deliberadas, com a intenção de provocar a morte, alegadamente para eliminar o sofrimento. Não se trata de renunciar a intervenções médicas não proporcionadas aos resultados que se podem esperar e, por isso, inadequadas à situação real do doente. Isso é enfrentar a morte como condição humana inevitável. A eutanásia não é aceitar a morte, é tirar a vida. Como é que se explica que se possa estar de boa-fé a defender uma prática assim?

Talvez a razão esteja num distanciamento da realidade. A Psicologia explica, justifica e amplia sentimentos e emoções. Os argumentos sentimentais e emocionais são envolventes e aparecem como justificação plausível para contornar as inevitáveis dificuldades da vida. Tornam-se vocabulário comum e alívio coletivo diante do desafio da realidade. É como se fossem mais reais do que o próprio real.

A armadilha deste distanciamento é que a realidade objetiva encontra-nos unidos diante dela: o sol que se levanta, a chuva que cai, a criança que cresce, o adulto que envelhece, o rio que corre para o mar. Já as nossas subjetividades são inúmeras e raramente conciliáveis. Erigidas como critério, tornam-se fonte de conflito e até de violência.

Nos países onde foi legalizada, a eutanásia começou pelos casos de doenças incapacitantes e irreversíveis, para se estender às situações mais variadas, em que um doente pede para morrer porque acha que a sua vida não tem sentido, ou porque lhe parece que é um peso para os outros. Ao vacilar diante do valor objetivo da vida, encontramo-nos a validar uma ramificação de subjetividades difícil de controlar.

Diante do ruído destas ambiguidades, a Igreja testemunha a sua certeza de que a vida é um dom de Deus e uma missão a cumprir. E é no mistério da morte e ressurreição de Jesus que os cristãos encontram o sentido do sofrimento. A eutanásia é apresentada como compaixão. Mas deixa de fora o “com”. Retira-se da paixão do outro. Não oferece companhia, comunicação, comunhão. Deixa à solidão do outro a última palavra. Propõe a morte. A Igreja oferece Jesus como companhia no sofrimento. E Jesus é a Presença terna e poderosa, que Se faz Caminho com o homem que sofre, é a Verdade da sua circunstância e a Vida da sua vida.