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A «Quaresma especial» do povo ucraniano, que «não pertence ao mundo russo»
06.03.2022
Eram 9h da manhã e a igreja de S. Jorge de Arroios estava cheia de fiéis ucranianos que habitualmente se deslocam a esta hora para rezarem em comunidade no rito bizantino da Igreja Greco-Católica a que pertence a sua maioria. Este dia, no entanto, tinha um significado especial, já que o Cardeal-Patriarca de Lisboa se juntou à comunidade para rezar pelo fim da guerra que tem atingido o país natal destes fiéis nos últimos dias.

 
Famílias inteiras ocuparam o seu lugar, envergando bandeiras da Ucrânia pelas costas, pequenos laços na lapela ou até elásticos nos cabelos das raparigas mais novas de cor azul e amarela, as cores do seu país natal.
 
A Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, cedida em 2000 a esta comunidade pelo então Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, há muito que deixou de ser suficiente para albergar a comunidade que está em crescimento, pelo que esta igreja em Arroios é que tem recebido as celebrações em rito bizantino da comunidade greco-católica de Lisboa.
 
D. Manuel Clemente presidiu, mas foram os sacerdotes ucranianos quem conduziram os cânticos, orações e todos os momentos, no respeito pelo rito bizantino, acompanhados por um coro vestido a rigor com fatos típicos da Ucrânia, cuja melodia ressoava em todos os fiéis que assistiam.
 
«A Ucrânia vive uma Quaresma muito especial», começou por dizer D. Manuel Clemente, na sua saudação, referindo que «todos os que morreram nesta desgraçada guerra estão em Deus, à nossa espera», invocando assim uma «celebração de esperança», porque «com Deus vence sempre a Verdade, a vitória da vida está sempre garantida, mesmo que às vezes não pareça».
 
A celebração decorreu no mais profundo silêncio, apenas quebrado pelo coro que entoava e liderava as orações. O povo acompanhava em voz certos momentos, mas com o coração todos os outros, conforme se via nas expressões que eram possíveis observar.
 
Na homilia, D. Manuel falou de uma relação de «amizade» que une portugueses e ucranianos. «Em Lisboa estão na vossa terra, porque ela é a vossa terra, assim como a Ucrânia é agora a nossa terra», assegurou, de voz viva, para a seguir defender que, «quando homens e mulheres põem o seu coração em Deus, a Paz acontece».

 
Cá fora, falando aos jornalistas depois de algum tempo de conversa e partilha com muitos dos que estiveram na celebração, o Cardeal-Patriarca de Lisboa lamentou «tantas vidas estragadas, de ucranianos e de russos... Porquê? Com a guerra perde-se tudo, com a paz há tudo a ganhar», referiu.
 
Sobre a celebração, elogiou a «expressividade dos cantos e orações», prova da «fé» deste povo. «Estas pessoas, que não desistem de largar o seu coração de crentes a Deus, que tanto está aqui como está lá, alimentam assim a sua esperança, apesar de terem o coração muito apertado com os seus familiares lá», disse.
 
Embaixadora da Ucrânia fala de um «mundo russo de tortura e crueldade»
Presente na eucaristia esteve a embaixadora da Ucrânia em Portugal, Inna Ohnivets, que agradeceu a «solidariedade» dos muitos países que já enviaram ajuda. «Em nome da Ucrânia gostaria de expressar a minha gratidão ao povo português pela solidariedade e pelo apoio», disse, no final da celebração.

 
Esta responsável do governo ucraniano avisou que «a crise humanitária vai crescer». «As pessoas que estão no território das cidades ocupadas estão numa situação muito terrível, não têm abastecimentos, comida, eletricidade e gás, tudo está desligado. Os ucranianos sofrem muito», lamentou esta responsável.
 
Os corredores humanitários que foram abertos não conseguiram cumprir o seu objetivo, diz esta responsável, porque «o lado russo não cumpriu a sua parte», elogiando ainda o seu presidente, Volodymyr Zelenskyy, que descreveu como um herói. «Ele é o símbolo do heroísmo e da resistência da Ucrânia, é o exemplo para todo o mundo», afirmou.
 
Num desabafo, no final das perguntas dos jornalistas, a embaixador ucraniana explicou que os ucranianos não pertencem ao mundo russo. «Hoje viemos aqui a esta igreja católica rezar juntamente com os portugueses. Isso significa que a Ucrânia pertence ao mundo ocidental, não ao mundo russo, porque o mundo russo, como podemos ver, é um mundo de tortura, morte e crueldade», concluiu.
 
Reportagem e fotos: Ricardo Perna

 
 
 
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