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A relativização da vida humana
11.06.2018
Está um barco com mais de 600 refugiados, apanhados no meio do Mar Mediterrâneo, ao largo da costa de Itália, impedido de entrar no país por causa de uma decisão de um ministro italiano de fechar os portos. Nesse grupo há sete grávidas, 123 menores não acompanhados, crianças que já perderam, de uma forma ou de outra, os seus pais, e que ali se encontram a flutuar, enquanto o seu futuro é decidido por uma Europa onde cada vez mais governos começam a querer fechar portas e a viver dentro da sua concha.

Depois da derrota, mais ou menos total, do Daesh na Síria e no Iraque, e de não ouvirmos há muito tempo falar de migrações em massa da Síria, parece que nos esquecemos que, no resto do mundo, continua a haver situações de pobreza extrema, guerra, perseguições políticas e religiosas, que continuam a colocar em risco milhares de pessoas e continuam a obrigar muitos a abandonar o conforto das suas vidas para se lançarem numa aventura cujas probabilidades de sobrevivência já são pequenas, sem precisarem de estar a ser ainda mais dificultadas por atitudes xenófobas de quem apenas age assim por ter a “barriga cheia” e por viver numa terra que não enfrenta as dificuldades destas pessoas.

É óbvio para todos (ou muitos, para sermos mais justos) que a atitude do governo italiano é xenófoba e que coloca em causa a vida de muita gente e os valores mais fundamentais do ser humano, como a defesa da vida. E seria muito confortável para todos se a reflexão ficasse por aqui, pois a responsabilidade morreria italiana.

Mas esta não é a verdade toda. A responsabilidade sobre a vida de tantos que fogem destes países não pode ficar somente nas mãos de quem, por circunstâncias geográficas, os recebe quase sem vida. Não só é um dever de todos os países europeus ajudar na reconstrução e pacificação dos países de origem dos migrantes, como é sua responsabilidade ajudar e orientar o acolhimento dos mesmos aqui na Europa, e a verdade é que os países de entrada, como Itália e Grécia, têm ficado meio abandonados à sua sorte. Sim, sabemos que não é fácil, e sim, sabemos que muitos fogem dos países de acolhimento (Portugal é um desses exemplos) para se deslocarem todos na direção de países específicos. Mas isso não nos deve fazer abrandar o ritmo de acolhimento destas pessoas, nem abrandar a nossa vontade de lhes proporcionar uma vida digna.

Ninguém, repito, ninguém sabe o que eles tiveram de passar para chegar até aqui. Mas tentem, por um minuto, e perdoem-me os mais sensíveis: Imaginem que têm 10 anos e os vossos pais são mortos à vossa frente, e que depois disso são obrigados a fugir, pela montanha, sem mais do que a roupa que vestem no corpo, e que vos obrigam a prostituir-se para conseguirem ter comida ou alcançar determinado destino. E que, como me contava há dias uma pessoa que trabalha com refugiados, tinham de esperar que o parceiro de jornada morresse ao vosso lado para lhe poderem roubar a água para vocês… não podemos simplesmente esquecer estas pessoas e achar que o mundo corre bem melhor se nos fecharmos em casa, cheios de aparelhos eletrónicos e roupa muitas vezes feitos com o esforço escravo de muitas destas pessoas, exploradas nos seus países de origem.

O ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, teve uma atitude desumana, inqualificável. Mas o silêncio, o conluio e o assobiar para o lado de muitos políticos e responsáveis europeus é tão ou mais desumano que as ações do ministro italiano. A diferença é que não se veem…