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«A santidade de vida em Arrupe é indiscutível»
09.01.2019
O Pe. Pedro Lamet é o sacerdote jesuíta autor da biografia do Pe. Pedro Arrupe, cujo processo de canonização foi recentemente inciado no Vaticano. Em Portugal para promover outra obra sua, o sacedote espanhol falou à Família Cristã sobre a figura do Pe. Pedro Arrupe, explicando como este «profeta» concebeu um estilo de Igreja muito à frente do seu tempo e de como isso lhe provocou vários dissabores.

O Pe. Pedro Lamet e, na foto por trás, o Pe. Pedro Arrupe 
Como se pode definir em poucas palavras uma pessoa como o Pe. Pedro Arrupe?
Em termos humanos, podemos falar de uma pessoa com um carácter maravilhoso, muito magnético, com muita força, simpático, ativo. É uma pessoa enamorada de Jesus Cristo que se entrega totalmente e um profeta para o nosso tempo. No século XX adiantou-se ao Século XXI em todos os aspetos: no tema dos imigrantes, justiça social, refugiados, mulher, juventude, diálogo oriente-ocidente.
 
Um profeta porquê?
Num sentido bíblico, um profeta é alguém que diz a verdade aos poderosos e, por outro lado, adianta-se ao futuro. E ele adiantou-se ao futuro. Por vezes, quando não o compreendiam, era porque o mundo não estava preparado para compreendê-lo, como dizia o cardeal de Madrid Enrique y Tarancón. Chegaria o momento em que o compreenderiam, e também foi por isso que se adiou o processo de beatificação e canonização. Hoje todos se apercebem da força que tinha, por exemplo no caso dos Boat People, os barcos de refugiados. Dedicou os seus últimos esforços aos que sofriam com o vício da droga e aos refugiados.
 
Ser um profeta terá sido a sua virtude e o seu problema…
Precisamente. Lembro-me que ele foi acusado injustamente de ser marxista, e quando o confrontei com isso ele riu-se, porque não era comunista, mas gostava de dialogar com todos. Ele tinha um jesuíta que era especializado em dialogar com os marxistas. Também diziam que apoiava a Teologia da Libertação, mas o que ele apoiava era os pobres, porque desde muito pequeno, quando estudava na universidade em Madrid, dava catequese nos subúrbios e tinha esta vertente social muito enraizada nele.
 
Foi uma pessoa com muitas experiências fortes, mas ter sobrevivido à bomba atómica em Hiroshima foi das mais fortes…
Sim, sem dúvida. O noviciado onde ele estava era um pouco afastado da cidade de Hiroshima, pelo que caíram algumas paredes mas pouco mais, e muita gente fugiu para ali e, como ele tinha formação de médico, esteve uma semana sem comer só a tratar as pessoas que chegavam. Ele tinha baldes inteiros cheios de pele queimada, e viveu isto como algo tremendo. Ele falava muitas vezes do relógio que parou às 08h15, e dizia muitas vezes “porque é que toda esta energia que se usava para o mal não se podia usar para o bem”. Este foi o seu despertar para a sua missão no mundo.
 
Porque é que ele tinha este desejo de ir para o Japão?
Desde pequeno que ele tinha um fascínio pelo Japão. Na época é o despertar das missões em Espanha e na Europa. Pediu muitas vezes, e finalmente, depois de ser expulso de Espanha e de ter estudado na Bélgica, destinam-no ao Japão depois da experiência em Nova Iorque onde trabalhou com presos que estavam no corredor da morte, presos perigosos que tinham uma grande simpatia por ele.
Quando ele chega a Yokohama, de barco, chora. Outro momento simbólico é a primeira missa que faz no topo do Monte Fuji. Quando ele levanta os braços, não podia imaginar que iria viver todo aquele sofrimento no Japão.
 
Este documento que Arrupe escreve sobre a Inculturação muda a forma como a Igreja entende a evangelização Ad Gentes?
A Companhia de Jesus já tinha alguns exemplos de sacerdotes na China e na Índia. O Pe. Ricci na China e o Pe. Nobili na Índia eram conhecidos por vestir como os indígenas e vivam os ritos e costumes locais. Isto foi um pouco censurado pelo Vaticano, e Arrupe deu-se conta que o termo inculturação significa que não podemos levar o Evangelho com moldes ocidentais, temos de ler o Evangelho dentro da cultura oriental, ou da cultura para onde vamos. Creio que este termo é seu, não existia a palavra até que ele a inventou.
 
E isto provocou uma mudança?
Tendo em conta que ele nos anos 40 vai dialogar com os monges Zen e aprende o tiro de arco, a caligrafia e outras coisas, coisas que na época eram impensáveis. Há quem diga que temos de ir com a cultura pura do Evangelho, mas a cultura milenar japonesa tem uma profundidade extraordinária, e tens de falar com eles.
 
O início do processo de beatificação credibiliza as suas intenções em termos de inculturação?
O processo nunca vai certificar nada, porque se centra na santidade de vida, e a santidade de vida em Arrupe é indiscutível. Ele fez um voto de perfeição, e quando morreu o superior mandou o secretário ao quarto do Pe. Arrupe e no genuflexório tinha uma pequena gaveta, onde estava uma pagela com o Sagrado Coração onde estava o seu voto de perfeição, que fez quando terminou a carreira de jesuíta, e esse voto consiste que, entre duas coisas, tu escolhes a que mais te custa. Ele fez isso, e sofreu muito com isso, porque o seu secretário pessoal traiu-o com o Vaticano, e ele manteve-o como secretário, entre outras vezes em que esteve doente, chega a perder a noção de falar tantas línguas como falava. Quando o fui entrevistar para o primeiro livro, ele tinha perdido até a capacidade de dizer alguns nomes próprios em espanhol, e usava outras palavras para chegar lá. Era um homem de Deus.
 
Crê que esta fama de santidade resultará num processo rápido de canonização?
O Pe. Arrupe é muito conhecido nos meandros da Companhia. Há centenas de centros em todo o mundo com o seu nome, e houve cem mártires que deram a sua vida pela fé e justiça das ideias de Arrupe. Quando eu dou conferências sobre o Pe. Arrupe, vêm ter comigo pessoas que leram a minha biografia e, apenas porque a leram, mudaram de vida, tornaram-se religiosos. A força de Arrupe continuou. Ele tinha uma grande força nos meios de comunicação social no seu tempo, e foi perseguido pelas Brigadas Vermelhas.
Os súbditos adoravam-no, e todos tínhamos uma foto com ele, e foi considerado um segundo Sto Inácio, porque refundou a Companhia de Jesus. Um poder e uma força impressionante. Passado um tempo isto já não é notícia, mas o seu exemplo, pelo dentro do ambiente da Companhia, tem imensa força.


Acredita que as suas profecias prepararam melhor a Companhia para estes tempos que se vivem agora?
Claro. Quando eu entrei para a Companhia, era uma companhia muito rigorosa, séria. Diziam que os jesuítas eram impenetráveis, aristocráticos, sempre com a sotaina, “santos e sábios, mas por vezes inacessíveis”. Arrupe rompeu com tudo isto. Era um jesuíta mais próximo, mudou a cordialidade da Companhia. Para te dar um exemplo: quando ias falar com o Superior, havia uma mesa e tu ficavas de um lado e ele do outro. Ele deixava fumar, mandava trazer Coca-colas para beber connosco, era outra coisa. Mudou o estilo, por completo.
 
A sua biografia foi mais enriquecida por ter podido conviver diretamente com ele?
Sem dúvida. Eu tive uma experiência brutal, no Verão em que estive com ele e ele já estava doente. Ele transmitia uma transparência de Deus extraordinária. Tinha uma grande expressividade, carinho e humildade. Ele dizia que era “um pobre homem que tentou não colocar impedimentos à graça de Deus”, e a última frase que me disse, antes de morrer, foi para o presente, amén, para o futuro, Aleluia. Não podemos ficar presos ao passado.
 
Quem é que decidiu que seria o Pe. Pedro a escrever a sua biografia?
Quando Arrupe estava bem, eu propus-me a escrever, mas disseram-me que havia escritores na Companhia mais importantes que tu, e vamos encarregar o Pe. Broderick, um inglês que escrevia muitas biografias. Passou o tempo e Arrupe caiu em desgraça. Nessa altura, chamaram-me a mim, porque mais ninguém queria. Fui ao Japão e investiguei com os seus antigos noviços, médicos japoneses e outras pessoas. Depois, estive no País basco nos arquivos da família, e demorei cinco anos a escrever a biografia. Fui falar com ele num mês em agosto a meio da minha pesquisa, antes de ir ao Japão. Fui contar-lhe a sua própria vida, porque ia sabendo coisas, e ele emocionava-se e contava-me mais coisas. Ainda cheguei a voltar a Roma, como jornalista, para um Sínodo, e fui vê-lo, mas estava já muito mal. Mesmo assim, visitavam-no gente de todo o mundo, desde astronautas, a Madre Teresa de Calcutá ou à Família Real Espanhola. Tinha uma capacidade de atração tremenda.

 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna
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