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«A saúde mental continua a ser um parente pobre da saúde»
10.10.2020


Vítor Cotovio é psiquiatra e psicoterapeuta. Observa já sinais da quarta onda da pandemia COVID-19: os seus efeitos na saúde mental. «Para além da questão da tal crise sanitária vem a crise económica. Está provado que uma das coisas que deteriora mais a saúde mental é a falta de suporte social. Ou seja, tendo em conta a crise económica, é muito importante quem pensa, quem decide tente garantir o mais possível os apoios sociais e que quando as pessoas se projetam no futuro sintam que não vão ter em causa a sua subsistência, e não vai estar em causa a sua segurança.» Isso passa por apoios sociais mas também por mais coordenação entre serviços. «Agora dispensa-se o que possa dar insegurança para além da insegurança natural daquilo que é uma pandemia de um vírus que não se conhece. Se por natureza é um vírus que não se conhece, decidir no meio da insegurança, então que as outras coisas possam ser prevenidas, previstas. Ou seja, controlar o que pode ser controlável já que há coisas que eu não posso controlar. Então tentar ter as coisas articuladas de forma a que aquelas necessidades básicas minhas estejam garantidas para eu ter condições de em cima disso trabalhar a minha resiliência, encontrar um sentido, ajudar a encontrar um sentido aos que dependem de mim e as pessoas estarem todas articuladas numa conjugação dos movimentos», defende.
Embora acredite que os serviços estão mais bem preparados para enfrentar os efeitos da pandemia na saúde mental, este psiquiatra reconhece que «a saúde mental continua ainda a ser um parente pobre da saúde». Daí que «esta pressão que se vai fazendo até neste discurso, nesta narrativa, é feita porque isso vai acontecer, mas também é feita para criar um determinado tipo de pressão que inquiete os políticos e os decisores governantes para “atenção, preparem-se também de forma antecipada para isto”. É verdade que tem havido alguma articulação entre a saúde mental e o Ministério da Saúde. Há uma certa sensibilidade para a saúde mental. Tanto que saiu uma norma para a saúde mental no âmbito da COVID. Só que depois batemos onde? Nos recursos, porque a saúde mental, por excelência, deve trabalhar em equipa. Trabalhar em equipa significa que tem que ter médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, psicomotricistas, o que for. E portanto estas equipas são recursos humanos. Para recursos humanos é preciso dinheiro».