Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
A visível invisibilidade da família
14.05.2019
No dia 15 de maio celebramos o Dia Internacional da Família. É assim desde 1994, sob proposta da ONU. E entre os vários objetivos apontados, destacam-se «a importância da família na estrutura do núcleo familiar e o seu relevo na base da educação infantil; reforçar a mensagem de união, amor, respeito e compreensão necessárias para o bom relacionamento de todos os elementos que compõem a família; chamar a atenção da população para a importância da família como núcleo vital da sociedade e para os seus direitos e responsabilidades; sensibilizar e promover o conhecimento relacionado com as questões sociais, económicas e demográficas que afetam a família».

Mas nunca como hoje, pelo menos no contexto europeu, encontramos o paradoxo da “visível invisibilidade da família”. Na União Europeia, de facto, fala-se da necessidade de um novo pacto entre género e gerações, mas não existe uma política social para a família. Aliás, é notório que na União Europeia se perdeu quase completamente a ideia de família enquanto relação baseada na diferença sexual e geracional, para se promover uma indiferença da diferença nestas questões. Ainda que a realidade social da Europa assente não tanto nos indivíduos/cidadãos, mas nas pessoas com responsabilidades familiares que vivem a sua existência dentro dos papéis de “pai, “mãe”, “filho/a”, “cônjuge” ou “familiar”. E não sendo possível ainda “nascer por si só”, é evidente que a entrada na sociedade continua a depender da relação necessária da instituição família.

Não admira, pois, que a nível identitário, se fale cada vez mais de uma crise antropológica, tipicamente ocidental, sobre a qual o magistério da Igreja tem vindo insistentemente a chamar a atenção. E por crise antropológica entende-se que no mundo contemporâneo o ser humano tem cada vez mais dificuldade em elaborar, consolidar, reforçar a sua identidade. Porque «a cultura contemporânea, caracterizada entre outros por um individualismo utilitarista e por um economicismo tecnocrático, tende a desvalorizar a pessoa. Ela é concebida como um ser “fluido”, sem uma consistência permanente. Não obstante esteja imerso numa rede infinita de relações e de comunicações, paradoxalmente, o homem de hoje parece muitas vezes um ser isolado, porque é indiferente a propósito da relação constitutiva do seu ser, que é a raiz de todos os demais relacionamentos, a relação com Deus. O homem contemporâneo é considerado em chave predominantemente biológica, ou como “capital humano”, “recurso”, parte de uma engrenagem produtiva e financeira que lhe é sobranceira. Se, por um lado, se continua a proclamar a dignidade da pessoa, por outro, novas ideologias – como a hedonista e egoísta dos direitos sexuais e reprodutivos, ou a de um capitalismo financeiro desregrado, que transgride sobre a política e desestrutura a economia real – contribuem para considerar o trabalhador dependente e o seu trabalho como bens “menores” e para ameaçar os fundamentos naturais da sociedade, especialmente a família», afirmou Bento XVI em 2012.

E o Papa Francisco, na Amoris laetitia, sublinha que «a família é um bem de que a sociedade não pode prescindir, mas precisa de ser protegida. A defesa destes direitos é “um apelo profético a favor da instituição familiar, que deve ser respeitada e defendida contra toda a agressão”, sobretudo no contexto atual em que habitualmente ocupa pouco espaço nos projetos políticos. As famílias têm, entre outros direitos, o de “poder contar com uma adequada política familiar por parte das autoridades públicas no campo jurídico, económico, social e fiscal”. Às vezes as angústias das famílias tornam-se dramáticas, quando têm de enfrentar a doença de um ente querido sem acesso a serviços de saúde adequados, ou quando se prolonga o tempo sem conseguir um emprego decente. “As coerções económicas excluem o acesso das famílias à educação, à vida cultural e à vida social ativa. O atual sistema económico produz várias formas de exclusão social. As famílias sofrem de modo particular com os problemas relativos ao trabalho. As possibilidades para os jovens são poucas e a oferta de trabalho é muito seletiva e precária. As jornadas de trabalho são longas e, muitas vezes, agravadas pelo tempo gasto na deslocação. Isto não ajuda os esposos a encontrar-se entre si e com os filhos, para alimentar diariamente as suas relações.”» (n.º 44)

Com as eleições europeias a acontecerem este mês e as legislativas em outubro, seria muito oportuno verificarmos que lugar têm ocupado as políticas para a família e que sensibilidade têm os candidatos para estes temas nos seus programas eleitorais.