Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
A voz de defesa que a Igreja (não) tem na sociedade
18.09.2019 13:07:00
O assassinato da Ir. Maria Antónia, Tona, como era chamada na sua comunidade, chocou toda a comunidade religiosa em Portugal. Aparentemente, e como fez notar D. Manuel Linda, bispo do Porto, numa mensagem publicada no site da diocese, não chocou mais ninguém, o que é incompreensível.

À parte das notícias de jornal a dar conta da violação e assassinato da religiosa, e das óbvias reações de pesar e dor da comunidade religiosa em Portugal, mais ninguém veio a terreiro mostrar-se chocado ou criticar o processo que levou à morte da religiosa às mãos de um sujeito que já estava sinalizado pela justiça com antecedentes criminais e mandados de captura. «Com honrosa exceção da Câmara Municipal de São João da Madeira, nenhum político, nenhum (e nenhuma…) deputado desses radicais, nenhum organismo que diz defender os direitos humanos, nenhuma feminista veio condenar o ato. Nenhum e nenhuma! Porquê? Porventura porque, para elas (e para eles…) as vidas perdem valor se se tratar de pessoas afetas à Igreja. Sumamente, se defenderem a sua honra», escreve o bispo do Porto na sua mensagem.

Efetivamente, a rapidez com que instituições e opinião pública criticam a Igreja Católica em muitas das suas falhas não encontra retorno quando o interesse é colocar-se ao lado desta num momento de dor, sofrimento e assunção de responsabilidades por um ato medonho que nunca deveria ter acontecido.

Este suspeito, pasme-se, passou 16 anos preso por duas violações anteriores e, após ter sido identificado como suspeito num caso de tentativa de violação, foi preciso aguardar 20 dias para que a PSP pudesse executar um mandado de captura em seu nome... alguém que tinha marcações numa casa de recuperação e que nunca apareceu, e que tem os antecedentes que a lei conhece, tenta de novo cometer o mesmo crime e a justiça demora tanto tempo a ser executada que alguém morre por causa disso. Sobre isto, não há uma palavra de governantes, de oposição, de associações de defesa da mulher... porquê?

A grande questão, aqui, é o exercício a que somos chamados a fazer, a bem da coerência: se fosse uma figura pública a quem isto sucedesse, ou se fosse sequer uma mulher não ligada à Igreja, quantos não viriam à praça pública unir-se à dor da família, criticar o sistema de justiça e segurança do nosso país, pedir responsabilidades, ou juntar esta vítima ao rol preocupante de vítimas de violência que aumenta cada vez mais na nossa sociedade?

Porque é que não falam agora? O desejo de ignorar a presença da Igreja na sociedade, o seu trabalho em prol dos mais necessitados, tão radical que chega a levar a vida de quem o pratica, é tão forte que leva todas as associações de defesa da vítima, de defesa da mulher, a ficarem caladas perante este abominável ato?

A posição da Igreja e o seu papel na sociedade é essencial, para crentes ou não. E o seu trabalho em prol dos mais carenciados, dos que sofrem, crentes ou não crentes, é essencial, tem de ser defendido, apoiado e louvado. São incontáveis as vezes em que acontecimentos difíceis na sociedade recebem da Igreja uma palavra amiga, de oração e de consolo. Não podemos fingir que estas coisas não acontecem, ou achar que, como foi uma "freirinha", não merece a nossa atenção e a nossa dor.